O "tarifaço" anunciado na tarde desta quarta-feira (2/4) pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra quase duas centenas de países com os quais mantém transações comerciais variou de uma tarifa máxima de 50%, aplicada a apenas dois pequenos países, Lesoto e Saint Pierre e Miquelon, à tarifa mínima de 10% aplicado a 126 parceiros, entre os quais o Brasil.
Essa taxa, chamada de “reciproca” por Trump, será imposta a todos os produtos exportados por esses países aos Estados Unidos, independente de outras eventuais tarifas a que já estejam sujeitos. Segundo o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e o Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o governo brasileiro pretende atuar em conjunto com as empresas dos setores afetados para defender os interesses comerciais do país.
O Congresso Nacional aprovou na noite da última terça feira, em caráter de urgência, o projeto de lei que autoriza o Brasil a retaliar países ou blocos que imponham barreiras comerciais a produtos do Brasil, a chamada Lei da Reciprocidade. Essa aprovação foi citada na nota conjunta assinada pelo Itamaraty e Mdic.
Os dois ministérios também enfatizaram que o Brasil poderá recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos, uma vez que elas violam as regras dessa organização internacional. No entanto, no momento a prioridade do governo brasileiro é tentar negociar para reverter as medidas.
“Ao mesmo tempo em que se mantém aberto ao aprofundamento do diálogo estabelecido ao longo das últimas semanas com o governo norte-americano para reverter as medidas anunciadas e contrarrestar seus efeitos nocivos o quanto antes, o governo brasileiro avalia todas as possibilidades de ação para assegurar a reciprocidade no comércio bilateral, inclusive recurso à Organização Mundial do Comércio, em defesa dos legítimos interesses nacionais”, destacaram as duas pastas, na nota que assinaram em conjunto.
Busca de diálogo - A Confederação Nacional da Indústria (CNI) ressalta a importância da busca do diálogo com os Estados Unidos, na busca de uma solução negociada. "Claro que nos preocupamos com qualquer medida que dificulte a entrada dos nossos produtos em um mercado tão importante quanto os EUA, o principal para as exportações da indústria brasileira. No entanto, precisamos fazer uma análise completa do ato. É preciso insistir e intensificar o diálogo para encontrar saídas que reduzam os eventuais impactos das medidas", disse o presidente da CNI, Ricardo Alban, em nota.
A CNI confirmou ainda que levará um grupo de empresários brasileiros aos Estados Unidos na primeira quinzena de maio. Segundo a entidade, a comitiva deverá se reunir com representantes da indústria e do governo norte-americano para discutir agendas de facilitação de comércio e “abertura de mercados de forma equilibrada”.
De acordo com a CNI, os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras da indústria de transformação, especialmente de produtos de maior intensidade tecnológica, além de liderarem o comércio de serviços e os investimentos bilaterais.
Em 2024, a indústria de transformação brasileira exportou US$ 31,6 bilhões em produtos para os EUA. Nesse ano, a cada R$ 1 bilhão exportado para os EUA, foram criados 24,3 mil empregos no Brasil, R$ 531,8 milhões em massa salarial e R$ 3,6 bilhões em produção.
Oportunidade - Já a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) afirmou que a decisão dos Estados Unidos poderá se tornar uma oportunidade para a expansão do comércio brasileiro. Segundo a entidade, o Brasil deverá aproveitar da conjuntura para fechar acordos bilaterais.
“Já que muitas nações terão dificuldades em levar seus produtos aos EUA, por conta das tarifas, esse é o momento ideal para o Brasil reforçar sua participação nesses mercados. Sobretudo no Japão, na China e na União Europeia, para citar alguns”, disse a entidade, em nota.