14-08-2015 – 14:06:39
Embora ressalte que os ratings das empreiteiras envolvidas na Lava Jato não têm relação direta com o rating soberano do país, o diretor sênior da Fitch, Ricardo Carvalho, admite que a dinâmica do processo não é algo que seja positivo para a avaliação da agência de classificação de risco sobre o Brasil. “São coisas independentes, mas o rating soberano olha o ambiente de negócios, e a Lava Jato não contribui para um ambiente mais estável. A Lava Jato traz um grau de incerteza maior para a economia, e isso não pode ser positivo para qualquer análise, seja para o rating soberano ou para o rating das companhias”, diz o executivo, em entrevista exclusiva concedida à Investidor Online.
A Fitch já promoveu o rebaixamento nos ratings das empreiteiras no final de junho, após a prisão de importantes executivos das companhias, como Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo. No entanto, Carvalho não descarta novas reclassificações. As punições que serão impostas às companhias, e qual será a situação financeira delas em termos de caixa e dívida no balanço, são os dois pontos principais que serão monitorados pela Fitch para decidir se vai realizar novos rebaixamentos.
O diretor diz que ainda não está claro se as empreiteiras serão consideradas inidôneas, o que acarretaria na vedação da participação delas em futuras licitações. “Isso ainda está em um campo muito cinzento, o que faz com que seja difícil calibrar exatamente quais serão os impactos. Se elas forem consideradas inedôneas, será um impacto grande, já que elas não poderão adicionar contratos com o governo para seu backlog”, fala Carvalho. “A preocupação maior nesse momento é entender se as companhias têm liquidez para continuar com suas atividades enquanto não há uma solução definitiva sobre o que vai acontecer na Lava Jato”.
O acesso das empreiteiras ao crédito, e o grau de alavancagem que elas tem atualmente, destaca o diretor, é o fator chave que tem definido as posições dos ratings. “A questão é o crédito combinado à liquidez, ou seja, quanto de dívida vence, qual o caixa, e como elas conseguem acessar o mercado”. A prisão dos presidentes das empreiteiras, na visão da Fitch, pode ser um fator a contribuir para novos rebaixamentos, à medida que traz um dano de imagem às empresas, que pode ter reflexos na obtenção de novos contratos ou financiamentos. “Se entendermos que as companhias não estão conseguindo refazer seu backlog ou enfrentam uma dificuldade maior para conseguir financiamento, isso tem impacto na geração de caixa, e tende a ser um potencial fator para o rebaixamento dos ratings”, afirma Carvalho.
Rebaixamento – No final de junho, após a prisão do presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, e da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, a Fitch rebaixou os ratings das duas – o IDR em moeda estrangeira da Odebrecht de ‘BBB’ para ‘BBB-‘, último degrau antes da perda do grau de investimento, perda que não pôde ser evitada no caso da Andrade Gutierrez, que teve seus ratings rebaixados de ‘BBB-‘ para ‘BB+’. Quando a equipe da Fitch avaliou o rating grau de investimento concedido à Odebrecht, fala Carvalho, pesaram à favor da empreiteira ter mais caixa do que dívida, com uma necessidade muito baixa de refinanciamento, e um backlog concentrado fora do país, com menor dependência do ambiente de negócios doméstico. “O processo da Lava Jato tem se refletido nos yields dos papéis da Odebrecht no exterior, e existe a preocupação, caso haja um evento de perda da classificação grau de investimento, do investidor ter de se desfazer do papel”, ressalta o diretor.
A Andrade Gutierrez acessa muito mais o mercado local do que o internacional, explica Carvalho, e por isso a perda de seu grau de investimento no final do semestre não teve um impacto significativo para os investidores estrangeiros. “A Andrade Gutierrez tem feito basicamente emissões domésticas de um ou dois anos. Nossa avaliação segue sendo a de que a companhia tem capacidade satisfatória para acessar o mercado, bancário ou de dívida, o que não é verdade no caso da Queiroz Galvão ou da OAS”. Algumas empreiteiras entraram em default, explica Carvalho, por serem mais alavancadas do que seus pares, e com o vencimento de boa parte de suas dívidas no curto prazo. “A OAS sempre foi avaliada como elevado risco de crédito, por ser muito alavancada, com muito projetos em fase inicial, greenfields, e dependente de geração de caixa futuro frente a uma dívida elevada. E a Queiroz Galvão era altamente dependente de contratos com a Petrobras, com um fluxo de capital fraco”.