A crescente dependência de países emergentes de recursos de investidores de portfólio — como fundos de hedge, fundos de pensão e seguradoras — aumentou a vulnerabilidade a choques externos e a saídas abruptas de capital, segundo relatório do Fundo Monetário Internacional divulgado nesta terça-feira (7/4).
De acordo com o documento, a participação desses investidores na dívida de mercados emergentes dobrou nos últimos 20 anos. O movimento reflete a retração dos bancos internacionais após a crise financeira de 2008, abrindo espaço para uma forte entrada de recursos de investidores de portfólio — estimada em aproximadamente US$ 4 trilhões no período.
O Fundo destaca que essa mudança trouxe ganhos relevantes, ao permitir que os emergentes captassem recursos com prazos mais longos e custos mais baixos, beneficiados pela ampla liquidez global. Ao mesmo tempo, porém, ressalta que investidores de portfólio tendem a reagir mais rapidamente a mudanças nas condições financeiras, tornando os fluxos mais voláteis.
Segundo o relatório, esses investidores ficaram mais cautelosos desde a crise de 2008 e são mais propensos a retirar recursos em momentos de estresse. Como resultado, países e empresas que dependem desse tipo de financiamento tornam-se “particularmente vulneráveis aos choques financeiros globais”.
O documento chama atenção ainda para o comportamento mais sensível ao risco de fundos de hedge e fundos de investimento, que costumam reagir de forma mais intensa a mudanças de cenário. Esse efeito é potencializado em economias com mercados financeiros menos desenvolvidos e menor capacidade institucional.
O FMI alerta que uma reversão repentina desses fluxos pode intensificar pressões sobre o financiamento externo, elevar os spreads de dívida corporativa e soberana e provocar fortes desvalorizações cambiais.
Em termos de magnitude, os passivos de dívida externa detidos por investidores de portfólio equivalem, em média, a cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) dos países emergentes, enquanto os investimentos em ações representam aproximadamente 7% do PIB. Em alguns mercados, esses valores correspondem a uma parcela relevante da capitalização das bolsas locais.
O relatório cita como exemplo o caso do florim húngaro, que chegou a se valorizar cerca de 20% frente ao dólar com a entrada de capital estrangeiro, mas perdeu força recentemente com a reversão dos fluxos em meio ao aumento das tensões geopolíticas envolvendo o Irã.
Além dos fluxos tradicionais, o FMI observa a rápida expansão do crédito privado transfronteiriço e das transferências por meio de stablecoins, cujo comportamento está fortemente associado à dinâmica do mercado de criptomoedas.
Diante desse cenário, o FMI recomenda que países emergentes reforcem a qualidade institucional, ampliem seus colchões de proteção — como reservas cambiais — e garantam a sustentabilidade da dívida pública, como forma de mitigar os riscos associados à volatilidade dos fluxos de capital.