Metas difíceis em 2010 | Alta volatilidade da renda fixa e baixa ...

Edição 228

Os altos e baixos da renda variável em 2009 e 2010 levaram os gestores das carteiras dos fundos de pensão da euforia à depressão. Se em 2009, ano da recuperação pós-crise mundial, esses investimentos fizeram a grande diferença no desempenho apresentado pelas entidades, no ano seguinte, a bolsa ficou patinando e encerrou o ano praticamente estável, o que prejudicou o desempenho das carteiras das fundações. Na renda fixa, a situação também foi complicada para os fundos de pensão em 2010. Essa conjunção de fatores fez com que a maior parte dos fundos de pensão não conseguisse atingir suas metas atuariais. No ranking Top Atuarial, que publicamos a partir da página 24 com sínteses de resultados das principais fundações do País, a maioria delas mostra redução das alocações em renda variável assim como baixa rentabilidade dessa carteira, que puxaram para baixo a rentabilidade total.

Já os papéis indexados à inflação e fundos indexados ao IMA-B tiveram bom desempenho, mas ainda assim muitos só conseguiram alcançar a meta ao evitar a volatilidade e marcá-los no vencimento, e não a mercado. Com essa situação geral se mantendo em 2011, as entidades já começam a buscar estratégias alternativas, que possam agregar resultados em um médio prazo. Neste ano, quando se esperava uma nova recuperação da bolsa, não é o que está acontecendo. O Ibovespa tem amargurado um péssimo desempenho até a metade do ano, perdendo apenas para países com cenários de crise aguda, tais como Grécia e Egito.
Nesse cenário conturbado, as dez maiores fundações do País tiveram um ganho de representatividade. Segundo o consolidado publicado pela Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), as 10 maiores fundações chegaram ao final de 2010 com um patrimônio total de R$ 335,15 bilhões, ante R$ 299,89 bilhões em 2009, um incremento de 11%. Ainda segundo o mesmo consolidado, o crescimento do sistema previdenciário complementar fechado como um todo foi de 9,9% na comparação de 2010 com 2009, passando de R$ 514,9 bilhões para R$ 565,76 bilhões.
Houve mudança de posições entre os maiores fundos de previdência.
Enquanto as sete primeiras, por volume de investimento, se mantiveram na mesma ordem – Previ, Petros, Funcef , Fundação Cesp, Valia, Fundação Itaubanco e Sistel –, a Forluz deu um salto da décima para a oitava colocação, colocando a Banesprev um lugar abaixo, em nono. Já a Real Grandeza, subiu uma posição, chegando à décima. A Centrus foi a que mais perdeu colocação, caindo da nona para décima-segunda, devido ao processo de distribuição do superávit aos participantes e patrocinadora.
Esse crescimento geral do sistema, no entanto, não foi suficiente para que grande parte das fundações batessem suas metas. De acordo com a gerente de clientes institucionais da Luz Engenharia Financeira, Viviane Werneck, poucas fundações conseguiram atingir seus objetivos. “Algumas chegaram lá no limite, sem sobras. E 2011 não está melhor nesse sentido”, avisa.
Novas alternativas – Para a consultora, existiram dificuldades em todos os tipos de investimentos, o que levou algumas estratégias diferenciadas a ganhar destaque. Na renda variável, obtiveram melhor resultado os gestores que buscaram se descolar do índice. “Estratégias mais focadas e de longo prazo tiveram uma rentabilidade melhor. Quem tinha alocação no Ibovespa ou IBrX, acabou prejudicando a carteira”. Isso porque esses índices praticamente mantiveram os mesmos níveis de 2009, com o Ibovespa encerrando o ano passado com alta acumulada de 1% e o IbrX, 2,6% acima do ano anterior.
Neste ano, com a persistência de um cenário difícil e sem direcionamento definido, algumas fundações estão direcionando os novos recursos para outras classes de fundos. “O que estamos vendo é que as entidades não saem agora de suas exposições em renda variável para não realizar prejuízo, mas aguardam uma oportunidade para iniciar esse tipo de mudança de estratégia”, afirma Viviane Werneck.
Na renda fixa, os papéis de crédito trouxeram um bom retorno às entidades. “Os papéis indexados à inflação foram um bom destaque no ano passado”. Mas em um cenário complicado, houve também um movimento de buscar proteção. “Nesse caso, as carteiras de empréstimos aos participantes serviram muito bem a esse fim. Funcionaram como um hedge do retorno consolidado”, explica a consultora.
Ainda de acordo com Vivane Werneck, algumas fundações que garantiram a compra de bons papéis de renda fixa no passado, optaram por uma manobra contábil legal de marcá-los no vencimento, o que também trouxe resultado para dentro do patrimônio das fundações. “As fundações que marcaram a mercado, principalmente em fundos de investimentos, sofreram muito com a volatilidade”, analisa.
Os investimentos em imóveis, por sua vez podem ser uma faca de dois gumes. Uma carteira com muitos problemas de vacância e com inquilinos pode, além de não agregar rentabilidade, prejudicar o resultado. “Sem dúvida que uma carteira bem alinhada e estruturada, com baixa taxa de vacância, irá ajudar no desempenho com uma boa remuneração”, considera a executiva.
A Funcef foi uma das que se beneficiaram com sua carteira imobiliária.
Em seu balanço de 2010, o fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal considera que o segmento superou todas as expectativas, fechando o ano com rentabilidade de 19,26%.

Desafios ainda maiores – O primeiro semestre de 2011 foi, em grande parte, uma repetição do visto em 2010, mas com agravantes. Enquanto no ano passado, os papéis atrelados a inflação foram uma tábua de salvação que ajudou muitos a alcançarem a meta atuarial, em 2011 a alta dos preços está trazendo uma elevação no objetivo de rentabilidade das fundações. Além disso, a volatilidade também traz problemas para as fundações. Principalmente nos últimos meses do primeiros semestre, houve uma forte alta nos índices, o que foi surpreendente. Em junho, por exemplo, enquanto todos esperavam uma inflação de 0,06 ou 0,07%, veio 0,15%.
Assim, a previsão é que um número ainda maior de entidades se distancie de suas metas. É uma espécie de repetição do início de 2010.
Naquele ano, a expectativa geral era de repetição dos bons ventos de 2009 e, por isso, passou-se o ano todo aguardando uma grande reversão dos indicadores. Neste ano, que também começou com expectativas positivas, percebeu-se mais cedo que era preciso buscar opções, e é isso que as entidades estão fazendo. “Como o básico já não é suficiente, vemos que se começa a buscar outros produtos. O mercado é criativo”, salienta Viviane.
Na renda fixa, o gestores estão observando um aumento na procura por produtos estruturados, como fundos de investimento em direito creditório (fidc) ou até mesmo títulos bancários, como o certificado de depósito bancário (CDB). Ou seja, há uma procura por outras opções que agreguem rentabilidade, além do título público. Apesar de já ver esse movimento acontecer, muitos fundos de pensão não devem bater a meta atuarial novamente neste ano. Isso porque, com o início difícil, seria preciso um desempenho surpreendente no segundo semestre para compensar, pois as novas estratégias são de médio e longo prazo, com vistas a dar melhores retornos a partir de 2012.
Na renda variável, a expectativa gira em torno do desempenho da bolsa.
A estimativa é de que seja melhor em que a primeira metade do ano, em que o Ibovespa acumula perda de 10% em relação ao ano passado. “Se continuar como está, a perspectiva é bem ruim, com um número maior de fundações que não conseguirão bater a meta do que em relação a 2010”, avisa Viviane Werneck.
Há ainda as opções de investimentos imobiliários sem a necessidade de possuir imóveis, como fundos de investimento imobiliário (FII) ou certificados de recebíveis imobiliários (CRI). Esses papéis e fundos podem ser uma boa opção no futuro, mas o custo de oportunidade ainda não justifica essa migração. “Com certeza agrega ganhos, tanto em termos de diversificação de investimentos quanto em relação à rentabilidade. Mas, com a expectativa de ainda haver alta nas taxas de juros no fim do ano, os títulos públicos ainda são mais atrativos”, considera a consultora.
Apesar de haver uma fuga recente dos institucionais dos fundos multimercados, que não estariam vendo retornos ao assumir um risco maior, começam a surgir opções dentro desse segmento que estariam se aproveitando da volatilidade no mercado para conseguir rentabilizar o portfólio, o que pode ser uma opção no segundo semestre. É que alguns gestores estão ficando mais ágeis e utilizam o momento ruim dos mercados para trazer retornos diferenciados.