Juros e incerteza ditam fluxos

Renda fixa concentra a demanda, enquanto crédito privado, ações e multimercados estão subordinados à questões como geopolítica, eleições e cenário fiscal para avançar

Edição 390  

Felisberto,Mario(Santander) 24out

Mario Felisberto, da Santander Asset: “nós adotamos uma visão mais conservadora porque está muito claro que o apetite ao risco não caminhou na direção que se imaginava”

A combinação de juros internos em queda mais lenta que a esperada, taxas externas em alta e maior incerteza geopolítica tornou 2026 um ano de maior seletividade na gestão dos recursos. A renda fixa e os produtos conservadores concentraram a demanda, enquanto as oportunidades em crédito privado, ações, multimercados e fundos estruturados passaram a depender mais da qualidade dos ativos e da evolução dos cenários fiscal, eleitoral e internacional.
Na Santander Asset, a instabilidade global, a alta do petróleo e seus efeitos sobre a inflação começaram a alterar as tendências dos fluxos de recursos. Apesar do menor apetite ao risco e da piora em segmentos do crédito, a gestora registrou entradas em ações e multimercados, incluindo recursos de investidores institucionais, ainda que parte desse movimento tenha refletido apenas a rotação das carteiras.
Na BB Asset, a renda fixa, principalmente os fundos atrelados ao CDI, permaneceu como a classe mais demandada em todos os segmentos. A pressão vendedora sobre ações e multimercados ficou sob controle, mas uma retomada mais consistente dos ativos de risco dependerá do avanço do ciclo de cortes da Selic.
Na Oliveira Trust, as incertezas externas e a questão fiscal brasileira exigiram maior rigor na avaliação do crédito, diante do crescimento de emissões de empresas de qualidade inferior e do uso de garantias mais complexas. Ao mesmo tempo, os fundos estruturados e os serviços especializados mantiveram forte expansão, apoiados pelo uso intensivo de tecnologia.

Fluxos seletivos – A Santander Asset já antecipava em 2025 que 2026 seria menos favorável, diante da compressão dos spreads e da redução dos prêmios. Ao longo deste ano, os papéis de infraestrutura apresentaram oscilações expressivas e maior volatilidade, após começarem o período com forte demanda. “Os ativos não isentos, por sua vez, têm desempenho muito segmentado. Os fundos com menor risco, de setores menos sensíveis ao juro, têm tido uma performance positiva ainda que não tão brilhante como a de 2025”, diz Mario Felisberto, CIO da gestora.
Nos fundos de crédito mais sensíveis aos juros elevados, a parcela high grade de maior risco foi a mais afetada. Mesmo os fundos sem exposição direta às empresas que enfrentaram problemas sofreram com a contaminação do setor e a abertura dos spreads. Os fluxos permaneceram positivos nos fundos DI e de crédito de baixo risco, mas ficaram negativos nos fundos de infraestrutura, de crédito de maior risco e de renda fixa ativa, estes últimos pressionados pela abertura das curvas de juros.
Em renda variável e multimercados, embora o desempenho tenha ficado aquém do esperado, a Santander Asset registrou fluxos positivos, em sentido contrário ao observado na indústria de fundos em geral. “Apesar do ano difícil, os fundos de ações que investem no exterior também tiveram um fluxo positivo, principalmente do investidor pessoa física. Na média, considerando todas as classes, o fluxo de recursos tem sido neutro aqui nas nossas carteiras”, afirma Felisberto.
Entre os investidores institucionais, houve entrada de recursos nos fundos de ações locais. A gestora, porém, associa essa demanda mais à rotação e ao rebalanceamento das carteiras do que ao aumento efetivo da exposição ao risco. “A percepção é de que isso está acontecendo porque defendemos muito as estratégias de dividendos, então houve uma rotação para rebalancearem essas carteiras, sem que tenham aumentado de fato sua exposição ao risco de renda variável”, analisa.
Nos multimercados, a casa reestruturou as equipes e começou a observar resultados mais favoráveis e algum fluxo positivo. “O desempenho veio por conta desse trabalho e também porque saímos de uma base mais baixa, mas acreditamos que há espaço para crescer em multimercados, com foco em gestão sistemática e numa parte mais fundamentalista”, afirma Felisberto.
As perspectivas para 2027 permanecem nebulosas. A gestora espera um ano semelhante a 2026 para o crédito privado, com spreads mais comprimidos e desempenho positivo, mas menos expressivo que em 2024 e 2025. Na renda fixa ativa, adota uma posição mais conservadora, embora com viés positivo diante da expectativa de continuidade dos cortes da Selic, ainda que em ritmo limitado.
O espaço para ativos de maior risco dependerá também do comportamento dos juros nos Estados Unidos. Na avaliação de Felisberto, uma única alta adicional no mercado de bonds não comprometeria a perspectiva doméstica, mas um ciclo mais prolongado de elevação pelo Federal Reserve poderia afetar outros países e levar o Banco Central brasileiro a interromper os cortes.
“O cenário mudou para as taxas de juro lá fora e os bancos centrais, a começar pelo Fed, estão subindo seus juros básicos. Não se sabe o tamanho desse aperto mas temos que ter isso presente quando analisamos o que está acontecendo com os fluxos”, afirma. No Brasil, a expectativa de redução mais intensa da Selic deu lugar a um movimento gradual, também condicionado pela questão eleitoral.
Para o gestor, a discussão sobre o nível dos juros domésticos tornou-se menos determinante porque o mercado entende que o Banco Central já fez o que estava ao seu alcance. Novos cortes, se anunciados, teriam efeito limitado. A dispersão das projeções para o petróleo e a instabilidade geopolítica reforçam a cautela. “Nós adotamos uma visão mais conservadora porque está muito claro que o apetite ao risco não caminhou na direção que se imaginava ou do que vimos em anos anteriores, tanto por conta dos cortes mais tímidos da Selic quanto da alta nos juros globais”, enfatiza Felisberto.

Pressão sob controle – Com captação de R$ 40 bilhões no ano até agosto, a BB Asset aponta a renda fixa como a classe mais procurada em todos os segmentos. “Há maior demanda por produtos mais conservadores porque o investidor está ainda mais cauteloso em 2026 e o CDI é o carro-chefe”, avalia Guilherme Engracia Novaes, gerente executivo de Fundos Multimercados e de Ações da asset.
Entre os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), o maior volume está nos fundos de renda fixa atrelados ao CDI. A captação está distribuída entre pessoas físicas, RPPS, Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) e previdência aberta. “Além de captar bem, o crescimento orgânico também não tem sido negativo em nenhum desses segmentos”, afirma Novaes.
Nos fundos de ações e multimercados, a captação líquida ficou praticamente estável. “Este ano conseguimos ficar praticamente zero a zero em captação líquida nos fundos de ações e multimercados porque a pressão vendedora sobre esses fundos está agora sob controle”, explica. A alocação conservadora, no entanto, continua predominando, e a atuação multiproduto permite à casa manter uma visão integrada das diferentes classes de ativos.
No crédito privado, a captação segue positiva, embora o desempenho do segmento seja mais fraco que em 2025. “O primeiro semestre trouxe bastante volatilidade para essa classe, mas agora no segundo semestre temos dado mais foco nesses produtos porque nos spreads de curtíssimo prazo até esperamos alguma volatilidade, mas estruturalmente, olhando para o horizonte de 12 a 24 meses, os spreads estão atrativos”, afirma Novaes.
A atuação internacional está concentrada em duas grandes ofertas para pessoas físicas, nos mercados globais de ações e de bonds, que podem ser combinadas nas carteiras. Entre os investidores institucionais, o apetite pelo exterior permanece reduzido e a captação está estável. A gestora tem atuado principalmente por meio de produtos proprietários e parcerias internacionais.
Para expandir entre os RPPS, a casa aposta na assessoria especializada. Segundo Novaes, dos quase 2.061 regimes próprios existentes no país, 1.700 não possuem nenhum nível no Pró-Gestão e tendem a olhar mais para o curto prazo. Os institutos maiores, enquadrados nos níveis diferenciados do programa, trabalham com horizontes mais longos. Aqueles que não se adequarem dentro do prazo legal terão de desinvestir. “É uma mudança relevante e eles começam a compreender que precisam se especializar”, diz.
Diante das novas regras para os investimentos dos RPPS, a BB Asset lançou dois produtos adequados às exigências, um fundo de renda fixa soberano voltado ao fluxo de caixa e um fundo previdenciário também soberano. Juntos, eles captaram R$ 8 bilhões no ano.
“Fizemos isso para oferecer mais alternativas e para ficarmos ainda mais próximos dos RPPS porque a Resolução 5.272/2025 trouxe limitações à alocação máxima deles em fundos, mas os fundos soberanos não sofrem essa restrição”, explica Giliane Lawall Domingues, gerente executiva da BB Asset. Os produtos diferem principalmente pelos prazos de vencimento dos títulos públicos, ajustados aos fluxos de pagamento de benefícios dos institutos.
Os dois fundos atendem a todos os perfis do Pró-Gestão. Para os níveis mais avançados, a casa oferece produtos específicos, entre eles um multimercado destinado aos institutos classificados acima do nível 2. “Temos sido muito ativos na assessoria para esses investidores, até porque a capilaridade do banco é grande com os regimes próprios e com as fundações menores”, afirma Domingues.

Fundos estruturados – A evolução do crédito privado tornou-se mais visível nos últimos 12 meses. A pressão compradora sobre recebíveis, como CRI e CRA, cresceu, acompanhada por emissões mais fortes de empresas de middle market interessadas em alongar o perfil de suas dívidas. A qualidade média desses emissores, porém, diminuiu. “Isso exigiu maior atenção e mais garantias, em alguns casos inclusive garantias exóticas, que são estruturas mais complexas e sofisticadas que passaram a ser usadas no mercado”, afirma José Alexandre Freitas, CEO da Oliveira Trust.
A segunda frente de atuação da instituição, formada pelos fundos estruturados – Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), Fundos de Investimento em Participações (FIP) e Fundos de Investimento Imobiliário (FII) –, viveu um período em que foi preciso apenas “abrir as velas do barco porque o vento foi a favor”, diz Freitas. Os FIDCs se destacaram pela proteção oferecida aos investidores e pela presença de cedentes de todos os portes, inclusive grandes empresas.
Nos FIPs, os juros elevados continuaram limitando o apetite dos investidores, pois esses fundos tendem a funcionar melhor quando a Selic está entre 6% e 12%. “Quando o juro chegar a 12% vamos ver maior interesse dos investidores”, afirma.
Nos FIIs, segmento em que a Oliveira Trust possui 5% de market share, as empresas do setor imobiliário passaram a usar como lastro unidades que não conseguiram vender. “As unidades são jogadas no FII para dar liquidez à própria empresa e não para obter capital que irá financiar novos empreendimentos”, explica Freitas.
O executivo vê riscos tanto na manutenção dos juros elevados quanto em uma redução excessivamente rápida da Selic em 2027. “As empresas não investiram o suficiente em estoques e isso pode gerar inflação. Nesse caso os papéis de dívida que foram captados indexados à inflação podem se tornar um problema se o mercado aquecer muito rápido”, diz.
Na Oliveira Trust, todas as novas operações passam por um “comitê de propostas”, composto por pessoas físicas e um membro de inteligência artificial. A instituição recebe mais de mil propostas de empresas por ano. Uma operação é aprovada se obtiver cinco votos favoráveis e rejeitada se receber dois votos negativos. A proporção de propostas recusadas, que ficou entre 8% e 10% no segundo semestre de 2025, subiu para 15% no primeiro semestre de 2026, refletindo o aumento de operações consideradas ruins ou com risco desproporcional.
Freitas espera que esse ambiente persista pelos próximos 12 meses. Os casos de recuperação judicial, segundo ele, demonstraram a eficiência das proteções dos FIDCs. “Em muitas operações, os FIDCs continuaram a operar mesmo com a recuperação judicial ou pagaram tudo aos investidores. São fundos que têm capacidade de se blindar”, ressalta.
Entre os setores que exigem mais atenção está a construção civil. “Na construção civil, é preciso considerar o custo alto para o comprador e as empresas que estão com os custos represados, o que pode ser uma fonte de problemas. Mas os setores automobilístico e o agronegócio também tendem a sofrer um pouco mais nos próximos 12 meses”, afirma Freitas.
A Oliveira Trust atua ainda em uma terceira frente do mercado de capitais, a de serviços especializados, como custódia e operações sindicalizadas com bancos, que apresentou o melhor desempenho do negócio no último ano. O resultado esteve ligado ao uso intensivo de tecnologia. “Temos 80 desenvolvedores mas o nosso investimento mais importante foi em ferramentas e agentes de Inteligência Artificial para a busca de informações”, explica.
Com essas ferramentas, os administradores deixaram de concentrar o trabalho na busca de dados em bureaus de crédito e outras fontes e passaram a dedicar mais tempo à análise de situações de estresse. Antes da IA, uma multiplicação simultânea dos pedidos de recuperação judicial exigiria aumento proporcional da equipe. Hoje, segundo Freitas, seria possível lidar com 30 casos hipotéticos como se fossem apenas cinco.
A tecnologia também é usada no monitoramento de FIDCs multicedentes e multisacados. “Queremos estar preparados para um aumento de volumetria nos FIDC porque um fundo com patrimônio acima de R$ 2 bilhões já é de alta volumetria”, afirma. A participação dos fundos de cartão de crédito e de crédito consignado também cresce, e a oferta aumenta à medida que os juros caem e aceleram a portabilidade para outras instituições.
“Ao longo dos próximos 12 meses estaremos muito melhor em relação às decisões de investimentos do que estávamos em setembro de 2025 porque o mercado já sabe que o juro cairá de forma mais gradativa”, diz Freitas. Para ele, será necessário manter atenção à qualidade das empresas emissoras, mas existe um “realinhamento de astros” e a possibilidade de um ano próspero, caso os juros continuem recuando gradualmente.

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