Edição 385

Para Carlos Augusto Salamonde, presidente da Itaú Asset Management, “o objetivo é entender os próximos movimentos porque o cenário muda a cada quinze minutos frente a uma possível escalada da guerra”
O choque provocado pela guerra no Oriente Médio interrompeu, em março, um ambiente mais favorável que vinha sustentando diferentes classes de ativos desde 2025. A piora da percepção de risco, o temor de efeitos inflacionários, as dúvidas sobre a trajetória dos juros e a possibilidade de desaceleração global levaram os gestores a rever o ritmo dos movimentos, reforçar controles e adotar postura mais cautelosa. Ainda assim, a avaliação predominante nas assets não é de ruptura das teses estruturais, mas de uma pausa provocada por um evento externo relevante.
Nos multimercados, a recuperação iniciada no segundo semestre de 2025 perdeu força; na bolsa, a migração de recursos estrangeiros para o Brasil foi interrompida, mas não revertida; nos FIDC, a captação segue forte, apoiada na customização e na busca por ativos menos óbvios; e, nos fundos imobiliários, a leitura continua sendo de resiliência, sustentada por ativos descontados, aluguéis indexados à inflação e vacância em queda. Em comum, as casas descrevem um investidor institucional mais defensivo, mais concentrado em renda fixa e mais lento na tomada de risco.
Para Carlos Augusto Salamonde, presidente da Itaú Asset Management, a guerra interrompeu de forma abrupta um ciclo que vinha sendo mais positivo para os multimercados, tanto em captação quanto em performance. Diante de um cenário que, segundo ele, “muda a cada quinze minutos”, a prioridade passou a ser entender os próximos movimentos e reforçar a gestão de risco, sem necessidade de mexer na estrutura da equipe.
Na avaliação de Tiago Lima, sócio e head de distribuição da BTG Pactual Asset Management, a saída de recursos do mercado acionário dos Estados Unidos e sua migração parcial para emergentes, entre eles o Brasil, continua sendo um movimento estrutural. A guerra provocou uma pausa nesse fluxo, mas não alterou a leitura de que o principal centro de aversão a risco está hoje nos EUA.
Já Delano Macedo, sócio-diretor da Solis Investimentos, afirma que os FIDC seguem evoluindo bem e registram até sobreoferta de recursos neste ano. Para ele, a capacidade de customização desses veículos e a seleção de ativos com lastro menos padronizado permitem manter o crescimento mesmo com juros mais altos e incerteza ampliada, embora o quadro possa piorar se houver alta da Selic ou algum “cisne negro” no Brasil ou no exterior.
Efeitos do choque – Salamonde diz que os multimercados conseguiram reagir no segundo semestre de 2025, depois de um período difícil para a indústria, e que a Itaú Asset terminou o ano com bom desempenho e captação. O movimento seguiu até fevereiro de 2026, mas perdeu força em março com a guerra no Oriente Médio. Para ele, o conflito recolocou o mercado num ambiente de leitura muito mais instável. “O objetivo é entender os próximos movimentos porque o cenário muda a cada quinze minutos frente a uma possível escalada da guerra”, afirma. Sua preocupação maior é com o risco de que o choque geopolítico tenha efeitos mais duradouros sobre inflação e atividade, sobretudo se houver problemas mais sérios no estreito de Ormuz.
No cenário doméstico, Salamonde observa que a expectativa de corte da Selic deu lugar a uma postura mais conservadora do Banco Central, enquanto o debate eleitoral adiciona volatilidade. “Nesse ambiente, os investimentos seguem o caminho do conforto na direção da renda fixa”, resume. Ainda assim, ele pondera que março, embora duro, não foi desastroso para a casa, já que as cotas ficaram próximas de zero, em desempenho visto como favorável na comparação com a indústria. No crédito, os fluxos continuam, mas com mais cautela, enquanto em bolsa a demanda segue atrasada em relação a outras classes.
Mudança estrutural – Lima vê na migração de recursos dos Estados Unidos para os emergentes uma mudança estrutural, e não apenas tática. Na sua avaliação, o fluxo para a bolsa brasileira, que ganhou força em 2025 e seguiu até fevereiro deste ano, foi interrompido pela guerra, mas não revertido. “No mercado de ações, a transferência de recursos estrangeiros para o Brasil, iniciada em 2025 e que seguiu forte até fevereiro de 2026 é estrutural”, afirma. Para ele, o principal foco de aversão a risco hoje está nos próprios EUA, e o Brasil continua beneficiado pela combinação entre fluxo potencial para emergentes e resiliência do dólar/real.
Antes da guerra, a bolsa local já mostrava algum movimento de demanda, com investidores institucionais mantendo posições estruturais para gerar alpha e, ao mesmo tempo, carteiras mais seletivas, com destaque para tecnologia. Foi justamente essa segunda frente que mais sofreu, levando a BTG a reduzir grandes exposições ao setor. Lima avalia que os eventos de crédito no mercado local, somados aos juros altos, ajudam a explicar a postura mais defensiva das fundações. “O ambiente hoje favorece a manutenção das estratégias das fundações, que hoje estão 80% concentradas em renda fixa”, diz. Ainda assim, ele sustenta que o ciclo de queda da Selic continua, embora “com um passo menos acelerado”, e defende que os fundos de pensão ampliem sua diversificação internacional.
Fugir do óbvio – Na Solis, a avaliação é de que os FIDC continuam avançando num mercado que reúne hoje cerca de 4 mil fundos no Brasil. A estratégia da gestora é fugir da disputa mais intensa por ativos óbvios, de maior volume e lastro convencional, onde a pressão por taxas já cresceu, e buscar segmentos em que tenha mais domínio de análise.
A asset informa que entre 60% e 70% do que investiu nos últimos dois anos veio de originações provocadas pela própria casa, enquanto 30% a 40% vieram de boutiques e outros originadores. Um exemplo citado por Macedo é o financiamento à compra de veículos para locadoras que alugam por hora, operação que ilustra a flexibilidade do FIDC como estrutura.
No fim de 2025, a Solis tinha R$ 28,4 milhões sob gestão, já havia superado R$ 30 milhões em 2026 e trabalhava com orçamento de R$ 41 bilhões até o fim do ano. Dentro da carteira, o multicedente/multisacado representava 35% do AuM, o consignado 25% e o crédito imobiliário 3%.
Seletividade – Nos fundos imobiliários, Carlos Martins, sócio e gestor de FII de tijolo da Kinea, vê continuidade de um processo de recuperação que já havia levado o IFIX a subir mais de 20% em 2025. A combinação entre perspectiva de queda da Selic e bom desempenho de segmentos como shoppings, logística e lajes corporativas sustentou a melhora dos fundos listados, embora a guerra tenha recolocado em primeiro plano as dúvidas sobre inflação, juros e atividade. Ainda assim, Martins afirma que não houve queda abrupta do interesse dos investidores, especialmente pessoas físicas, mas sim maior seletividade. Para ele, seguem mais resilientes os fundos com bons portfólios, imóveis bem localizados, boas especificações técnicas e menor alavancagem.
Com R$ 39 bilhões na vertical imobiliária, entre fundos de tijolo e de crédito, dentro de um total de cerca de R$ 150 bilhões sob gestão, a casa mantém preferência por lajes corporativas, galpões e shopping centers. No caso dos RPPS, Martins lembra ainda que a regulação limita a alocação em FII listados perpétuos, o que favorece veículos com prazo determinado e regras adaptadas às exigências do segmento.
Por Classes (arquivo em pdf)