Renda fixa domina carteiras

Edição 385

Mosca,Aquiles(BNP) 24ago 09

Segundo Aquiles Mosca, da BNP Paribas Asset Management, “o único risco que nos interessa hoje é aquele que selecionamos dentro de um quadro de conservadorismo, em busca de ativos de setores defensivos”

Sob o signo da incerteza que ainda paira sobre a economia global e diante da manutenção de um patamar elevado de juros no Brasil, os principais segmentos institucionais devem seguir alocando seus recursos em ritmo de cautela ao longo deste ano, com forte predominância da renda fixa. Mesmo com a dinâmica mais favorável observada na bolsa desde o fim de 2025, movimento para o qual muitos investidores locais, entre eles fundos de pensão e RPPS, não estavam posicionados, o ambiente ainda recomenda preservação de capital, previsibilidade e seletividade.

A expectativa no início do ano era de uma Selic caminhando para 12% até dezembro, o que começou a estimular uma diversificação maior, especialmente em direção a multimercados. O agravamento do cenário geopolítico, porém, e a perspectiva de juros mais altos por mais tempo voltaram a empurrar fundos de pensão, RPPS e seguradoras para a renda fixa. Mesmo que o conflito no Oriente Médio arrefeça, permanecem dúvidas sobre suas causas, suas consequências geopolíticas e, sobretudo, sobre o impacto de um eventual choque do petróleo na inflação e nos juros globais.

Aquiles Mosca, CEO da BNP Paribas Asset Management no Brasil, resume o momento com uma frase que ajuda a organizar a leitura do mercado: “O único risco que nos interessa hoje é aquele que selecionamos dentro de um quadro de conservadorismo, em busca de ativos de setores defensivos”. Para ele, a geopolítica global atravessa um período de alta indefinição, em que a “única certeza é de que haverá muita incerteza”, o que ajuda a explicar por que a renda fixa continua dominante nas carteiras institucionais.

Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos, observa que o ano até ensaiou uma abertura maior para estruturas mais sofisticadas. “Começamos a ver investidores pensando em estruturas mais sofisticadas de investimento, como os fundos multimercados, e essa indústria teve uma captação positiva relevante em janeiro e fevereiro, mas a situação geopolítica levou a um reposicionamento dos institucionais”, afirma. Com o mercado mais volátil e bancos centrais mais duros em relação à inflação e aos juros, fundos de pensão e seguradoras voltaram a reforçar a alocação em renda fixa.

No segmento dos RPPS, Ricardo Rios Araújo, diretor-presidente da Caixa Asset, vê espaço para investimentos além da renda fixa, especialmente entre institutos com maior maturidade institucional e estruturas de governança mais robustas. “A diversificação vem sendo gradualmente incorporada como instrumento relevante para ganho de eficiência das carteiras e geração de retorno real no longo prazo, especialmente por meio de ativos descorrelacionados”, afirma. O movimento, ressalta, continua sendo criterioso e gradual, porque “o cenário global ainda é desafiador e, aliado ao atual patamar das taxas de juros no Brasil, mantém a renda fixa como principal eixo das alocações”.  

Apetite por crédito – Na BNP Paribas Asset Management, a consequência mais visível desse ambiente é a valorização do crédito privado de alta qualidade. Mosca avalia que, mesmo com a expectativa de queda dos juros, o movimento tende a ser menor do que se previa no começo do ano. “Com a guerra no Oriente Médio, o juro no Brasil vai cair, mas será uma redução menor do que se esperava, com a Selic chegando a 13% ou 13,5%, o que representa juro real de 8% a 9%, que bate todas as metas atuariais, então crescerá o fluxo forte para a renda fixa”, diz. Ao mesmo tempo, a asset vê o crédito privado seguir como uma opção importante de retorno, desde que o gestor saiba “escolher bem” e use sua capacidade “prospectiva e preditiva para fugir de cascas de banana”. Hoje, mais de 80% do risco de crédito da carteira da casa está concentrado principalmente em papéis de bancos e debêntures.

A procura por segurança e resultado também tem estimulado troca de gestores e maior interesse por fundos de fundos. A BNP já recebeu quatro novos mandatos neste ano junto a investidores institucionais brasileiros – dois fundos de pensão e duas seguradoras – e acompanha outros processos de seleção de FoFs, para investimento em produtos da própria casa ou de terceiros. Segundo Mosca, a gestora tem perto de R$ 8 bilhões nessa classe, quase 10% de seu AuM total, distribuídos entre FoFs de multimercados, ações e fundos exclusivos de investimento no exterior. Esses veículos dão flexibilidade para manter o conservadorismo ou, quando for o caso, ampliar o risco de forma seletiva, sempre com foco em papéis defensivos de bancos, empresas exportadoras e setores regulados. Por isso, a postura segue conservadora nos próximos meses, com prazos mais curtos e atenção redobrada ao risco de o choque do petróleo interromper a queda dos juros no Brasil e nos Estados Unidos.  

Para Marcelo Mello, da SulAmérica Investimentos, geopolítica interrompeu tendência de busca de estruturas mais sofisticadas de investimentos

Diversificação adiada – Na SulAmérica Investimentos, a principal preocupação dos investidores neste ano é inflacionária. Mello cita o efeito da guerra sobre os preços de energia, fertilizantes e alimentos, somado a questões fiscais ligadas a combustíveis, como fatores que empurram os bancos centrais para uma postura mais dura. Nesse contexto, a renda fixa voltou a ganhar força nas carteiras dos fundos de pensão. “A renda fixa permite aproveitar o juro real de 7% a 7,5% contra uma meta atuarial de 4,5%”, afirma. A recomposição de prêmios, acrescenta, trouxe as fundações de volta ao crédito high grade e adiou um movimento mais firme em direção à renda variável. Algumas já começavam a se interessar por bolsa, “mas agora isso ficou para mais adiante”.

Mello observa que a lógica das seguradoras hoje é semelhante à das fundações. “O juro elevado mantém 99% da alocação em renda fixa ativa pós-fixada e no risco de crédito de alta qualidade. Os eventos de crédito sofridos por empresas recentemente causam impacto mas não chegam a provocar uma mudança de fluxo”, diz. O grande gatilho para um reposicionamento mais amplo, segundo ele, será mesmo a queda dos juros. Até lá, a gestão tende a acompanhar mais de perto esses ativos, para reduzir volatilidade e voltar aos segmentos mais conservadores. Ainda assim, há espaço para estratégias estruturais: a casa tem hoje entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões alocados em infraestrutura, espalhados por diversos fundos, e vê na transição energética sua principal tese temática, com interesse crescente das fundações no Brasil, apesar de o tema ter perdido espaço nos EUA sob o atual governo.  

Ricardo Rios Araújo, da Caixa Asset, diz que “diversificação vem sendo incorporada como instrumento relevante para ganho de eficiência das carteiras”

Protagonismo da renda fixa – Na Caixa Asset, a avaliação é de que a forte predominância da renda fixa nas carteiras dos RPPS continua tecnicamente justificável. A combinação entre o patamar atual dos juros, a natureza de longo prazo desses recursos e as crescentes exigências de governança e controle de risco, sobretudo no âmbito do Pró-Gestão, sustenta esse desenho. Outras classes permanecem nas carteiras, mas em proporções compatíveis com a política de investimentos de cada instituto e com seu nível de maturidade. Ganham destaque os fundos com títulos públicos federais, especialmente os indexados à inflação e alinhados ao equilíbrio atuarial, por reunirem baixo risco de crédito, elevada liquidez e previsibilidade de fluxos.

Para Araújo, a renda fixa deve seguir como protagonista em 2026 e no horizonte subsequente, enquanto os juros permanecerem nos níveis atuais e os títulos públicos continuarem oferecendo retornos compatíveis com as metas atuariais. Ele acrescenta que a relação risco-retorno dessas estratégias melhora ainda mais quando combinada com gestão ativa capaz de capturar oportunidades ao longo da curva de juros. A Resolução CMN nº 5.272 reforça esse cenário ao promover maior qualificação e disciplina nas alocações, sem mudanças abruptas nas carteiras. Por outro lado, um ciclo consistente e estrutural de queda dos juros tende, ao longo do tempo, a estimular maior diversificação, sobretudo entre RPPS com passivos mais longos e maior maturidade de governança no Pró-Gestão.

Com R$ 79 bilhões sob gestão em recursos desse segmento, a Caixa Asset atribui essa posição a uma trajetória consistente e a uma relação histórica de confiança com os regimes próprios em todo o país. A gestora diz estruturar soluções com diferentes estratégias de gestão, desde abordagens mais conservadoras até fundos com gestão ativa de curva, para otimizar retornos com aderência regulatória. Sua grade reúne mais de 80 fundos dedicados ao segmento, cobrindo praticamente todas as classes previstas na Resolução CMN nº 5.272. Além disso, a asset destaca o trabalho técnico com relatórios personalizados, que permitem identificar desenquadramentos e apresentar soluções de realocação, e também o uso de fundos espelho com gestores parceiros, sempre sob critérios rigorosos de risco, liquidez, compliance e governança.  

Adequação regulatória – Na Banrisul Asset, o diagnóstico é de que, além do juro elevado, o novo arcabouço regulatório dos RPPS passou a restringir ainda mais a diversificação fora dos títulos públicos. Marcus Staffen, diretor-presidente da Banrisul Asset, observa que, com os atuais níveis da Selic e das taxas pagas pelas NTN-Bs, o incentivo ao risco fora da renda fixa soberana segue muito baixo no curto prazo. Ao mesmo tempo, a guerra aumentou a percepção de que os juros não cairão como se esperava, afetando as decisões de investimento. A gestora chegou a trabalhar na readequação de um fundo de crédito privado para esse segmento, que seria seu primeiro produto de crédito adaptado aos RPPS, mas o projeto foi interrompido porque, com a mudança nas exigências do Pró-Gestão, o fundo passaria a atender apenas um grupo muito restrito de institutos – no Rio Grande do Sul, base da asset, apenas dez RPPS estariam enquadrados a partir do nível II.

Staffen reconhece que a Resolução CMN nº 5.272 trouxe avanços importantes, especialmente depois do caso Banco Master, embora ressalte que o prazo de adaptação às novas restrições foi curto e provocou retração nas novas alocações. A Banrisul Asset encerrou 2025 com R$ 21,8 bilhões em ativos sob gestão, crescimento de 16% no AuM total e de 21% nos recursos de RPPS. O fundo Absoluto, cuja carteira tem 70% do patrimônio líquido formado por recursos desses institutos, investe 100% em títulos públicos e cresceu 3% no primeiro trimestre deste ano. Classificada como S2 na segmentação do sistema financeiro nacional, a casa avalia ter sido beneficiada pelas exigências mais altas, mas entende que os RPPS ainda precisam se readequar rapidamente. Por isso, o mercado acompanha agora o trabalho do grupo montado para estudar ajustes regulatórios, enquanto a gestora defende algum nível de flexibilização nos critérios do Pró-Gestão e prazo maior de adequação para os institutos.

Por Segmentos (arquivo em pdf)