



Edição 240
O semestre não foi nada fácil para os gestores de recursos. O ano começou bem nas bolsas, mas o mercado reverteu os fortes ganhos dos dois primeiros meses do ano e o IBovespa encerrou o período com recuo de 4,23%. Por outro lado, embora a disposição do governo em estimular a economia tenha ocorrido em várias frentes, a medida mais significativa para o mercado financeiro foi, certamente, o forte recuo das taxas de juros. Além da conjunção desses desafios, as gestoras de recursos tiveram que enfrentar a campanha da presidente Dilma Rousseff contra o custo das taxas de administração e a intervenção do banco Cruzeiro do Sul, uma instituição com forte presença na criação de ativos para fundos de crédito. Nem mesmo a mudança das regras da poupança, para tornar os fundos mais competitivos, foi favorável ao setor, pois as captações líquidas da poupança mantiveram excelente desempenho nos meses de maio, junho e julho.
Nas Bolsas, o desempenho foi resultado da incerteza em relação à crise europeia, aliada à percepção de aumento da ingerência do governo nos bancos – utilizando BB e Caixa para induzir queda das taxas cobradas – e na Petrobras – com manutenção do preço dos combustíveis nas bombas para conter a inflação. Tanto que a participação de investidores estrangeiros, os mais avessos a esse tipo de situação, encolheu 3,11% nos últimos seis meses, para R$ 112,6 milhões. A parcela desse investidor no total da indústria caiu de 5,23%, em dezembro do ano passado, para 4,73% em junho deste ano.
Além da poupança, o setor enfrentou concorrência de outros ativos financeiros. “A expansão do crédito no ano passado e neste ano aumentou a concorrência dos fundos com CDBs (Certificados de Depósito Bancário) e Letras Financeiras”, destaca a diretora-executiva da asset do Grupo Santander Brasil, Luciane Ribeiro.
Crescimento – Mesmo com um cenário pontuado por desafios por todos os lados, o total de recursos administrados registrou crescimento de 7,68% no semestre e de 13,71% nos últimos 12 meses, atingindo a marca de R$ 2,381 trilhões, segundo o ranking Top Asset, da revista Investidor Institucional. O levantamento, que envolveu 171 gestoras de recursos, traz uma fotografia detalhada do setor até 30 de junho, mostrando a expansão (ou encolhimento) de cada uma das carteiras ao longo do semestre e dos últimos 12 meses.
No ranking geral, não houve alteração no posicionamento das cinco maiores gestoras, cada uma mantendo sua posição. “Nosso desempenho está ligado à força da nossa distribuição”, comenta Carlos Massaru Takahashi, o diretor-presidente da líder absoluta do ranking, a BB DTVM. Ele destaca que a indústria de fundos de investimentos segue um modelo de distribuição altamente dependente de grandes redes de varejo, tecnologias e canais de disseminação de produtos.
Outro ponto relevante para a indústria, destaca Takahashi, é a distribuição do patrimônio líquido, atrelado ao número de cotistas. “A indústria conta com 10 milhões de cotistas e cerca de 2 milhões estão concentrados no BB. Os três maiores bancos possuem 70% do total de cotistas, com liderança do Bradesco. Se olharmos a base de clientes bancarizados no BB, temos 60 milhões de correntistas, o que aponta um forte potencial de expansão”, avalia Takahashi.
Entre as líderes, a gestora do Itaú-Unibanco manteve seu posicionamento no ranking, como líder do segmento privado. De acordo com o diretor de clientes institucionais e produtos da asset, Roberto Nishikawa, isso ocorreu devido à adoção de uma estratégia focada para cada segmento de clientes. “Contamos com um canal exclusivo de distribuição de produtos para o segmento institucional, por exemplo, com estratégias focadas. No mercado de fundos de pensão, seguradoras e RPPS temos mais de 40 fundos na prateleira”, comenta.
O destaque de crescimento da carteira nos primeiros seis meses do ano, no entanto, ficou a Bradesco Administradora de Recursos (Bram). No semestre, a gestora viu sua carteira de fundos administrados exibir expansão de 14,13%, o maior entre as cinco primeiras. O crescimento nos últimos meses também surpreendeu, com 20,7%. Com o desempenho, houve redução da diferença entre Itaú-Unibanco e Bram. A gestora do Itaú-Unibanco, por sua vez, superou o Banco do Brasil em fundos abertos.
Segundo o diretor superintendente da gestora, Joaquim Levy, o crescimento das carteiras foi resultado de uma série de motivos, como o forte crescimento (53%) no segmento corporate, a conquista da folha de pagamento dos funcionários públicos do Rio de Janeiro e a maior aplicação de recursos do próprio banco comercial na gestora. “Neste ano, vários bancos decidiram trocar aplicações em alguns tipos de ativos por fundos de investimento. É um movimento que será cada vez mais corriqueiro. Mas cada banco conta com seus impactos não operacionais. No ranking institucional, por exemplo, algumas assets contam com os recursos de suas fundações próprias. Não é o caso do Bradesco, mas pode ter impacto para instituições que compraram bancos públicos, por exemplo”, defende o presidente Levy.
No caso da Caixa, conta a diretora executiva da área de gestão de ativos de terceiros da Caixa Econômica Federal, Alexsandra Camelo Braga, a estratégia de diversificação de produtos para atender investidores reduziu a concentração das carteiras em fundos de renda fixa e títulos públicos. “Ampliamos o foco para FIDCs e Fundos Imobiliários (investimentos estruturados). Os fundos imobiliários tiveram bom crescimento já que fazem parte do DNA da Caixa”, diz.
A executiva conta que a gestora registrou bom crescimento em clientes RPPS, fundos de pensão e no segmento corporate. “Mantivemos a prioridade para o segmento de RPPS, mas tivemos crescimento em fundos de pensão, um segmento mais concorrido. São clientes com necessidades similares (bater a meta atuarial) e, por isso, acabam tendo sinergia”, afirma. Assim como em outro segmentos, Alexsandra acrescenta que a Caixa apresentou bom crescimento entre clientes corporate devido à sinergia com outros produtos e serviços do banco comercial, como linhas de crédito para empresas e serviços como folha de pagamento de salários.
Dez maiores – Se no topo as posições foram mantidas, é crescente a movimentação entre as dez maiores. Dentre os destaques desta edição, está a gestora de recursos do Credit Suisse Hedging Griffo, que passou a figurar no ranking das dez maiores administradoras de recursos, na oitava posição. O posto era anteriormente ocupado pela gestora do banco J Safra. A gestora do banco Votorantim ficou com a nona posição, enquanto a BNY Mellon desceu um posto, para a décima posição no ranking geral.
Paciência – Para o segundo semestre, segundo os gestores entrevistados, o cenário já está dado e as futuras estratégias não serão muito distintas das já adotadas. A expectativa é de chances de ganho na bolsa com estratégias focadas em small caps, dividendos e infraestrutura e busca por maiores doses de risco na renda fixa. Segundo Luciane, da asset do Santander, o novo cenário macroeconômico vai exigir nova postura do investidor, uma espécie de reeducação financeira. “Ele vai precisar estar mais bem preparado para assumir riscos, principalmente de crédito”, diz, lembrando que a indústria começa a registrar o retorno do investidor em fundos de renda fixa e multimercados, mas ainda com dispersão.
Já Levy, o líder da Bram, avalia que será possível manter o nível de risco se o investidor aceitar maior carência para as aplicações. “Estamos ajustando as carências, lançando produtos de crédito exclusivos, com carência entre três e seis meses. Em seis meses, se resolve a maior parte dos problemas de gestão”, defende. Segundo o executivo, o investidor não vai precisar radicalizar, abrindo mão por completo da liquidez para atingir maior rentabilidade. “Não é preciso ser mais realista do que o rei. No exterior, percebeu-se que os prazos, até mesmo de hedge funds, eram exagerados. É complicadíssimo quando um fundo capta recursos por dez anos e você só sabe que vai receber a rentabilidade prometida, ou perder dinheiro, quando estiver às vésperas do vencimento”, defende.
Takahashi, diretor-presidente da BB DTVM, também avalia que a carência dos investimentos terá que mudar, diante da busca de maior rentabilidade. Por esse motivo, conta, uma grande revisão do portfólio da gestora está em curso. “É um estudo mais detalhado e criterioso do que geralmente fazemos e nosso foco é simplificar o portfólio tendo em mente a necessidade dos clientes em relação à liquidez. Na renda fixa, a questão do prazo será um diferencial”, avalia. Segundo ele, a BB DTVM tem hoje sob gestão mais de 400 fundos. “Não conseguimos fechar fundos, mas a ideia é ter uma oferta mais focada e ainda mais transparente para nossos consultores trabalharem melhor”, diz. A revisão do portfólio deve ficar pronta até o mês de outubro.
Luciene, do Santander, destaca que a diversificação dos investimentos vai levar investidores para fundos que buscarão diferentes estruturas de crédito privado. “Na renda fixa, devemos participar mais do mercado primário de debêntures. Também vamos lançar nosso primeiro fundo imobiliário”, conta. A executiva afirma também que a instituição conseguiu dois mandatos novos de RPPS no semestre e está em processo de road show para capturar clientes institucionais nos EUA, Ásia e Europa. “Temos uma equipe cuidando de clientes offshore e fundos competitivos.”