Edição 295
Segmentação por Investidores (em pdf)
A previdência aberta e os investidores estrangeiros foram as duas categorias de investidores que mais cresceram no mercado nos doze meses encerrados em junho, com alta de 21,12% e 21,84%, respectivamente. No caso da previdência aberta, os gestores explicam que contribuiu para o crescimento as discussões impostas pelo governo sobre a reforma do setor, que gerou um incremento no fluxo de interessados em garantir uma aposentadoria extra sem precisar ficar na dependência do INSS. Em relação aos estrangeiros, a avaliação é de que, embora acompanhem a situação do país, eles não vivem o dia a dia como os investidores locais, e portanto não estão tão preocupados quanto os brasileiros sobre os rumos políticos e econômicos da região. Além disso, o Brasil está na carteira voltada para emergentes desses investidores, que sabem que o risco desse portfólio é maior, e até por isso cobram mais prêmio em comparação com os mercados desenvolvidos.
Já os fundos de pensão tiveram um crescimento mais limitado nos doze meses encerrados em 30 de junho, de 12,96% no período, pois se trata de um segmento que apresenta dificuldades para crescer em novas frentes – o avanço apresentado se deve mais à boa rentabilidade apresentada pela renda fixa do que pela criação de novas entidades. Em linha semelhante estão os RPPS, com incremento de 15,32% da base de investidores, contida até pelas dificuldades fiscais do governo que não trabalha na expansão dos institutos, e em alguns casos até atrasa os repasses.
Bruno Bonini, head de distribuição institucional da Itaú Asset, lembra que o período sob análise, de proposição de reformas estruturantes que visam a solução do problema fiscal do país no longo prazo, foi o principal responsável pela evolução dos ativos dos institucionais, tanto dos fundos de pensão quanto dos RPPS. “Posições vendidas em dólar tiveram rentabilidades muito boas, assim como as posições compradas em renda variável, mas destacamos o desempenho da renda fixa, até porque a grande maioria dos mandatos dos institucionais tem algum tipo de benchmark atrelado ao IMA ou são mandatos de gestão mais ativa”.
Ainda que tenha notado nos últimos meses um aumento da demanda por ativos pré-fixados por parte dos institucionais, que no período promoveram um alongamento de suas carteiras para tirar o maior benefício possível do cenário que se desenhava à frente de queda das taxas de juros, o gerente de portfólio da Itaú Asset, Rodrigo Noel, ressalta que, mais importante que movimentações táticas, os investidores precisam ter uma análise precisa de seus passivos e de suas obrigações ao longo do tempo para se posicionarem da melhor maneira no mercado.
Noel entende que, no ambiente de juros mais baixos, os multimercados estruturados, até pelos bons resultados recentes relacionados ao fechamento dos juros e a valorização do real, tendem a ser mais demandados pelos fundos de pensão nos próximos meses. “Foi uma demanda relevante que sentimos dos investidores nos últimos doze meses que acredito que deve prosseguir, até porque são produtos bem flexíveis, que conseguem se sair bem em diferentes cenários”.
RPPS – Daniel Sandoval, gerente nacional de investidores corporativos da Caixa, afirma que o crescimento de 19,03% na gestão de recursos de RPPS nos doze meses encerrados em junho teve importante contribuição da valorização dos ativos dos clientes já na carteira do banco. “Mesmo porque a Caixa já tem como clientes praticamente todos os RPPS do país”, diz Sandoval. O bom desempenho da renda fixa nos últimos meses, beneficiada no período pelo fechamento das taxas de juros diante da queda da inflação e do ritmo fraco de retomada da atividade, ajudou na rentabilidade dos institutos, que em média tem posição em pré-fixados e em índices de preços importante em suas carteiras, segundo o especialista.
O gerente da Caixa conta ainda que, embora a valorização dos ativos dos RPPS que já são clientes tenha representado parcela relevante do crescimento no segmento, de janeiro a julho foram captados pelo banco outros R$ 3,5 bilhões em recursos novos desse perfil de investidor. Desse montante, contudo, foram apenas dois novos institutos que passaram a ter relacionamento com a Caixa no período, com o restante oriundo da base de clientes que optou por aportar recursos adicionais.
Alterações na 3.922 – Sobre as discussões que têm ocorrido no mercado recentemente sobre uma eventual alteração na Resolução 3.922, que reduz as possibilidades de investimentos dos RPPS em estruturados, Sandoval diz que esse debate tende a manter os institutos em certo compasso de espera, principalmente no segmento de estruturados e mesmo no de ações, no aguardo das eventuais alterações para poderem então se posicionar de maneira mais convicta no mercado. “A tendência é que a nova resolução seja mais restritiva. O mercado tem interagido bastante com o regulador para que essa proteção que estão querendo dar aos recursos dos RPPS seja de uma forma que não puna o mercado e nem o investidor”. A demanda por parte do mercado é que as atuais alternativas sigam disponíveis aos institutos, mas com uma diligência maior no momento da escolha das assets e dos produtos, e também na tomada de decisão do próprio gestor quando da aquisição de determinado ativo, afirma Sandoval.
Previdência Aberta – Os clientes da previdência aberta foram destaque na carteira da Bram, sendo ela a maior gestora de ativos da previdência aberta segundo o ranking. De acordo com o diretor superintendente da asset, Vinicius Albernaz, o dinamismo grande dentro da indústria de fundos e um ambiente favorável à discussão das questões relativas à previdência e poupança de longo prazo ajudaram no crescimento, que deve se manter nos próximos anos. “Isso reflete já uma posição muito forte do Bradesco no segmento de previdência. É a continuidade do processo de presença forte no segmento. Faz sentido ter recursos na previdência e esse segmento deverá demonstrar um dinamismo grande e forte nos próximos anos”, salienta.
Albernaz destaca ainda que o tema previdência está na ordem do dia conforme a população vai criando mais consciência em relação à importância da poupança de longo prazo. “Não acredito que discussão da reforma por si só tenha tido um efeito relevante nos últimos tempos sobre esse setor, mas o tema previdência e a necessidade do planejamento financeiro de poupança de longo prazo para a aposentadoria é um tema que vai se tornar mais frequente, até porque temos naturalmente visto um processo de aumento da longevidade, custos associados à saúde, etc. o que chama atenção para essa necessidade”, destaca.
Vinicius Albernaz complementa dizendo que o segmento de investidores institucionais, fundos de pensões, seguradoras, etc. é um setor que a Bram vai buscar maior presença. “É nosso foco para gestão de mandato. Esse é um setor no qual vimos crescimento bastante robusto, tanto em 12 meses quanto em seis meses, já tendo o HSBC na base, e do ponto de vista de crescimento, a previdência fechada é uma indústria que já é mais madura do que a previdência aberta. Mas em ambos os casos colocamos muitos esforços para sermos um dos gestores de escolha. No caso dos fundos de pensão, há um dinamismo menor e maturidade maior, por ser mais antigo, mas também é uma área de foco nossa”.
Em relação à tipo de investimento que esses clientes procuram, Albernaz destaca o interesse por estratégias mais sofisticadas, com menos renda fixa. “Lançamos um fundo multimercado com aceitação boa dos nossos clientes, e temos estratégias com mais risco. Acredito que ao longo de 2017, as estratégias com maior risco começaram a atrair a previdência aberta também”.
Plataformas – A Rio Bravo, com R$ 2,05 bilhões captados via distribuidores, acredita no potencial dessa opção. “Temos focado há algum tempo nossos esforços junto aos distribuidores, com destaque para os multi-family offices, private banking, alocadores de fundos de fundos e plataformas eletrônicas”, afirma Scheila Lofrano, sócia-diretora comercial da Rio Bravo.
Para se alinhar ao perfil dos investidores das plataformas, a Rio Bravo reduziu o ticket médio de alguns de seus fundos de R$ 10 mil para R$ 1 mil. “Temos uma pulverização enorme do nosso passivo, temos um fundo com aproximadamente 500 cotistas, o que evita um impacto significativo se algum cliente decide sair”.
Com a aquisição do controle da Rio Bravo pelo grupo chinês Fosun em agosto do ano passado, a gestora passou a avaliar com mais atenção a estratégia de internacionalização de suas operações, principalmente na região da América Latina. “Esse é um dos nossos desafios, colocar a Rio Bravo num espectro mais global”, pondera a sócia-diretora. Em uma segunda etapa, a intenção é levar os fundos da Rio Bravo para serem distribuídos em outros países. A executiva destaca que para esse trabalho de expansão além das fronteiras a Rio Bravo conta com o auxílio das diversas empresas que fazem parte do grupo, com plataformas espalhadas ao redor do mundo em diferentes segmentos de atuação. “A nossa intenção e a da Fosun é, através do Brasil, nos estabelecer na América Latina”. A expectativa é que nos próximos três anos a asset tenha presença relevante nos países vizinhos.
Estrangeiros – Em relação aos investidores estrangeiros, Marc Forster, da Western Asset, ressalta que eles têm uma visão um pouco distanciada do mercado brasileiro em comparação com o investidor local, por não viverem o dia a dia do país, e, por isso, não ficam tão preocupados com a situação da região. “Os estrangeiros sabem que se trata de um mercado emergente, que vai eventualmente apresentar problemas, assim como Rússia, Turquia, Coréia do Sul e diversos outros países. Mas as notícias que eles têm recebido do Brasil não são suficientes para gerar uma grande alteração de postura”. O pregão de 18 de maio, que tornou público o encontro entre Michel Temer e Joesley Batista no palácio do Jaburu, na visão dos estrangeiros foi só mais um dia nos mercados emergentes, pontua Forster. “Por isso os prêmios cobrados pelos investidores nos mercados emergentes é maior do que nos desenvolvidos”. No máximo, pondera o diretor da Western, os estrangeiros promovem um rebalanceamento de sua carteira voltada para emergentes quando entendem que a dinâmica de determinado país realmente se deteriorou demais, mas dificilmente zeram sua exposição ao nicho de mercado.
O diretor da Western lembra ainda que as taxas de juros ao redor do mundo, e nas economias desenvolvidas principalmente, seguem em patamares bastante comprimidos, o que mantém a atratividade da Selic, ainda que em queda, ao olhar do estrangeiro. “Ou eles ficam nos treasuries americanos próximos da estabilidade, ou vão para outros emergentes que também tem problemas. Esse cenário impede uma debandada dos estrangeiros do mercado brasileiro”.