Gestão ativa em ano de incerteza

Edição 384

Segundo Ana Luísa Rodela, CIO da Bradesco Asset Management, a asset segue muito atenta à qualidade do crédito das empresas, pressionadas pela geração de caixa e pela instabilidade de um ano eleitoral

Depois de três anos marcados por eventos negativos que atingiram empresas classificadas como high grade, o mercado de crédito reforça a importância da qualidade da análise e da seleção de ativos, bem como da disciplina na alocação, enfatiza Ana Luísa Rodela, CIO da Bradesco Asset Management.

“Para nós, o principal foi termos feito compras relevantes quando o ano começou negativo e os spreads estavam se abrindo. Já entre agosto e setembro começamos a reduzir essas posições. Esses dois movimentos, que foram contrários aos do mercado, fizeram diferença nos resultados dos fundos”, diz a executiva.

Em 2026, a asset segue muito atenta à qualidade do crédito diante da situação das empresas, pressionadas pela geração de caixa e pela instabilidade de um ano eleitoral, afirma. “Ter convicção do momento certo para aumentar ou reduzir posições, independentemente do humor do mercado, que anda ruim novamente, é sempre um desafio. Mas é importante não se deixar contaminar e manter uma análise fria”, diz Rodela.

O ano exige atenção aos fluxos, ainda que não haja perspectiva de muitos resgates, porque no universo do CDI os preços estão relativamente comportados. “É nesse segmento que estamos mais positivos”, afirma. Quanto às empresas, o efeito cumulativo dos juros altos ao longo dos anos exige que a gestão ativa consiga fazer uma boa seleção de nomes e definir com precisão os momentos de compra e venda. “A cada ano temos aumentado a nossa movimentação no mercado secundário”, conta.

Para a gestora, uma ferramenta que ainda faz falta ao mercado brasileiro de crédito é a possibilidade de posições short (venda a descoberto), pois a chance de ficar vendido daria maior dimensão e profundidade ao mercado. “Essa será, contudo, uma mudança gradual porque, mesmo que o instrumento exista, será preciso uma adequação importante na indústria, incluindo ajustes nos regulamentos”, admite.

Ela vê um cenário positivo para a renda fixa, que opera com a perspectiva de queda dos juros a partir de março, mas que pode ser contaminado por uma série de eventos e ruídos, entre eles a questão eleitoral. Nesse ambiente, continua a valer muito do que foi feito em 2025 na renda fixa: administrar bem o orçamento de risco para aproveitar distorções quando o mercado estressar.

O ano é muito tático e, por enquanto, a eleição não deve ser vista como um fator determinante para a alocação, porque tudo ainda é muito incerto. “Só deverá ocorrer uma reprecificação perto de outubro, quando a situação estiver mais definida. Neste momento, temos que evitar antecipar isso”, afirma.

A nova fonte de incerteza trazida pela guerra no Irã, com o fechamento do estreito de Ormuz, pode significar um impacto expressivo na inflação e na economia global, observa Rodela. “Os reflexos serão sentidos em todos os mercados, seja de renda fixa ou de renda variável, o que exige atenção particular dos gestores para ajustar o nível de risco nas carteiras”, afirma.

“A duração da guerra vai ser o fator mais relevante. Se esse período passar de vinte dias, já produzirá um impacto extremo no fornecimento de alguns produtos. As informações chegam confusas e filtradas, e o humor do mercado pode mudar muito”, observa. “Estamos preparados para reduzir o risco, o que é difícil de balancear porque os preços do petróleo não voltam aos níveis anteriores de uma hora para outra. Por isso, é preciso acompanhar de perto”, diz.

Na asset, há mais de vinte analistas acompanhando os mercados de crédito, ações e macroeconomia. “Na renda variável, estamos atentos para mudar rapidamente o call de commodities, que era negativo antes do início da guerra devido os preços do petróleo. Fizemos um ajuste para reduzir o nível “under” da nossa posição em commodities”, explica Rodela. “No mercado de juros, é preciso ajustar posições à medida que os movimentos da economia ficarem mais claros e seja possível fazer correções marginais de reprecificação”, afirma.

Com parte dos recursos adicionais de investidores estrangeiros se direcionando também para outras geografias, a evolução da bolsa brasileira reflete a presença de muito capital externo em fundos passivos. “Essa tendência permanece porque o excesso de concentração nos Estados Unidos e no dólar vinha incomodando os investidores globais. Em 2025 tivemos muito desse ajuste nos fundos passivos. Agora é preciso saber dosar essa oportunidade de valuation dos papéis e não deixar o bonde do mercado passar”, afirma.

Proximidade com RPPS – A seleção criteriosa de emissores de crédito, com exposição nula a ativos que apresentaram eventos de crédito ao longo do ano passado, foi um dos fatores para a performance consistente dos fundos de crédito privado da Caixa Asset, afirma Ricardo Rios Araujo, diretor-presidente da instituição. “Os fundos de crédito privado apresentaram performance consistente em 2025, especialmente aqueles voltados ao público institucional”, diz.

“Para 2026 esperamos estabilidade nos spreads, o que torna o ano mais desafiador para os fundos de crédito”, diz Ricardo Rios Araujo, diretor-presidente da Caixa Asset

Outro vetor relevante para o desempenho foi a estratégia de encurtamento gradual da duration dos fundos, à medida que os spreads foram se comprimindo ao longo do ano.

Esse resultado, avalia Araujo, “reforça a importância de um processo de gestão estruturado e consistente, que busca equilibrar liquidez, retorno e gestão disciplinada de riscos — aspectos particularmente relevantes para investidores institucionais”.

Entre esses investidores, muitos RPPS utilizaram em 2025 os fundos de crédito privado de baixo risco para obter ganhos adicionais em relação ao CDI e, assim, cumprir suas metas atuariais com estratégias pós-fixadas. “Para 2026 esperamos estabilidade nos spreads, o que torna o ano mais desafiador para os fundos de crédito, devido ao carrego que já está baixo em relação ao CDI”, afirma.

Um dos riscos monitorados é um eventual movimento de abertura nos spreads, que pode ser acentuado por eventos específicos de default de emissores ou por mudanças nas expectativas para a trajetória da Selic. “Neste contexto, a geração de valor passa a depender ainda mais da qualidade da análise de crédito e da gestão ativa das carteiras, processos que conduzimos com uma equipe extremamente qualificada”, afirma Araujo.

Ele observa que a demanda de investidores institucionais por crédito privado também passa a ser influenciada pela evolução do arcabouço regulatório dos RPPS, especialmente com a publicação da Resolução CMN nº 5.272. “A norma, que busca fortalecer a segurança e a governança das alocações, estabelece requisitos adicionais para o acesso a determinados fundos, o que deve reduzir a demanda por crédito privado neste ano”, acredita.

Segundo Araujo, a asset tem buscado ampliar a proximidade com o segmento de RPPS para oferecer soluções alinhadas às necessidades específicas de cada cliente e às exigências regulatórias.

Na classe de fundos de ações, uma das decisões de gestão mais relevantes para capturar ganhos em 2025 foi elevar a exposição da carteira ao setor da construção civil, com maior concentração em incorporadoras do segmento econômico. “É um grupo de empresas que apresentou evolução consistente em lançamentos e vendas, impulsionadas pelo programa Minha Casa Minha Vida, com reflexos diretos em receitas e lucratividade, o que ajudou a sustentar a performance em um ambiente de melhora gradual do mercado”, afirma.

O mercado de renda variável já começou o ano registrando um movimento mais claro de diversificação global, com realocação de recursos em direção a mercados emergentes. “O Brasil está bem posicionado para capturar parte desse fluxo, apoiado principalmente por quatro fatores. O primeiro deles é que os valuations ainda estão descontados”, afirma. Além disso, segundo ele, as empresas estão, em geral, com estruturas de capital mais sólidas, há crescimento de resultados em diversos setores e existe a perspectiva de início do ciclo de corte de juros.

Esse movimento já se refletiu na dinâmica de mercado, com a B3 registrando cerca de R$ 42 bilhões de fluxo estrangeiro acumulado no ano até fevereiro. “Entendemos que essa tendência pode continuar dando suporte ao desempenho dos ativos de renda variável no Brasil. Em paralelo, seguimos atentos ao cenário internacional e aos riscos geopolíticos, buscando manter os portfólios preparados para capturar oportunidades com disciplina na seleção de empresas e consistência na estratégia”, afirma.

A Caixa Asset pretende intensificar este ano o uso de estratégias quantitativas para ampliar a diversificação e as possibilidades de geração de valor para os investidores.

Para Claudio Pires, diretor de investimentos da MAG, “há espaço para o juro cair para 12% em 2026 e recuar até 10%, no mínimo, em 2027”

Peso da geopolítica – A geopolítica, que já teve forte influência em 2025, ganhou ainda mais peso em 2026, provocando uma rotação significativa nos portfólios globais, afirma Claudio Pires, diretor de investimentos da MAG Investimentos.

“O presidente Donald Trump traz volatilidade aos mercados e seus ataques ao Fed, o banco central dos Estados Unidos, fragilizaram o dólar, incentivando uma maior diversificação global de investimentos. O Brasil recebeu um influxo significativo de capital desde o ano passado e, nesses dois primeiros meses de 2026, vimos uma valorização forte da bolsa e do real”, diz.

Ele lembra que a bolsa brasileira saiu na frente de outros ativos. Embora os investidores locais não tenham se posicionado com a mesma intensidade, os estrangeiros dominaram o movimento. “Do lado doméstico, a perspectiva macro ficou clara quando o Banco Central escreveu abertamente que o ciclo de queda dos juros teria início em março, algo que já estava precificado”, afirma.

Mas a guerra no Irã atrapalha essa perspectiva ao provocar um choque nos preços do petróleo, com dificuldades de extração e transporte da commodity e maior pressão inflacionária. “O cenário mudou desde o início da guerra, com mais risco e moedas desvalorizadas. Talvez isso diminua o apetite do Banco Central brasileiro para iniciar um ciclo mais forte de redução dos juros, mas acreditamos que pode haver um corte de 0,5 ponto percentual, levando a Selic a 12% no final do ano”, afirma.

Ainda assim, a questão central no cenário doméstico em 2026 continua sendo o ciclo de queda da Selic. “Há espaço para o juro cair para 12% em 2026 e recuar até 10%, no mínimo, em 2027. Com a atividade econômica não tão aquecida, um ciclo de queda mais relevante pode significar um prêmio de risco interessante. Vale a pena ficar tanto em taxas pré-fixadas quanto pós-fixadas de médio prazo”, diz.

Na carteira de crédito privado, a asset manteve uma postura conservadora em 2025 porque o cenário não foi favorável às empresas. “Essa cautela foi excelente porque houve diversos eventos de crédito e nós passamos ao largo de todas as empresas que tiveram estresse”, afirma Pires.

Para 2026, a intenção é manter essa postura até que o patamar de juros seja mais favorável, já que 12% ainda representaria uma taxa muito elevada, equivalente a cerca de 8% de juro real para as empresas. “É muito alto esse custo para a saúde financeira das companhias. Não é hora de buscar emissores que não tenham solidez financeira”, afirma. Os papéis de crédito bancário, segundo ele, tendem a continuar performando bem, como ocorreu em 2025, e hoje têm maior presença na carteira high grade da asset.

Com R$ 18 bilhões em ativos sob gestão, a MAG Investimentos tem mais de 50% desse total vindo de investidores institucionais – EFPC e RPPS –, 30% de plataformas e cerca de 20% da seguradora. Aproximadamente 65% do portfólio estão alocados em renda fixa, sendo 35% em fundos de crédito privado. Outros 25% estão em fundos multimercados e o restante em renda variável e estratégias offshore.

Segundo Pires, em 2026 pode ocorrer uma reversão parcial da concentração em renda fixa, com aumento gradual da alocação em renda variável e multimercados. “À medida que começarmos a enxergar uma Selic menor, ficará mais viável essa migração, até porque os percentuais investidos em fundos de ações e multimercados estão em mínimas históricas. A nossa abordagem continuará sendo de gestão ativa em todos esses mercados”, afirma.

“A análise ESG nos ajuda bastante na escolha dos emissores, principalmente no caso da governança, que é um elemento fundamental para a gestão de riscos” explica Aquiles Mosca, CEO da BNP Paribas Asset Management no Brasil

Os bons e os maus – As taxas de juros elevadas fizeram de 2025 mais um ano favorável à renda fixa no Brasil, com captação positiva para essa classe de fundos. Ao mesmo tempo, houve diversos eventos de crédito e uma compressão significativa dos prêmios, analisa Aquiles Mosca, CEO da BNP Paribas Asset Management no Brasil. “O trabalho do gestor foi muito desafiador porque a diferença de preços entre um bom e um mau emissor é muito pequena”, afirma.

Segundo o executivo, a adoção de critérios ESG tem sido uma ferramenta importante nesse processo de seleção, especialmente no aspecto de governança. “A análise ESG nos ajuda bastante na escolha dos emissores, principalmente no caso da governança, que é um elemento fundamental para a gestão de riscos”, diz.

Como resultado, a carteira da asset não estava exposta a papéis de nenhuma das empresas que passaram por problemas desde o caso da Light. “A análise ESG nos fundos de crédito tem ajudado a aumentar nossa convicção nos demais papéis”, afirma.

Os spreads de crédito seguem comprimidos e, mesmo com a guerra, continuam relativamente comportados. “Isso aumenta ainda mais a dificuldade de seleção. Diante dos efeitos da guerra no Irã, o processo de queda dos juros pode ser afetado porque o preço do petróleo pode retardar ou até comprometer esse ciclo, além de provocar novos eventos de crédito”, afirma.

Diante desse cenário, a recomendação é manter atenção redobrada à qualidade dos emissores. Nos fundos de ações, Mosca observa que praticamente nenhum investidor local – pessoa física ou institucional – conseguiu capturar a alta da bolsa brasileira em 2025. Mesmo nos primeiros meses de 2026, apenas o investidor estrangeiro aproveitou parte desse movimento.

“Recebemos um fluxo importante vindo do exterior. A questão é saber se ele terá fôlego para continuar este ano com a queda dos juros, mas isso depende do apetite por risco, que está sendo colocado em xeque pelo aumento das incertezas globais”, diz.

A economia dos Estados Unidos, que já era um fator de instabilidade no ano passado, ganhou novos contornos em 2026 com o conflito no Oriente Médio. No cenário doméstico, soma-se a isso o ambiente eleitoral. “É preciso acompanhar muito de perto, no dia a dia, para avaliar se haverá redução da tensão no Oriente Médio e normalização da produção e transporte de petróleo – e se isso resultará em maior fluxo de recursos para o Brasil”, afirma.

Apesar das incertezas, a visão da asset para a bolsa brasileira permanece positiva. Entre os destaques estão as estratégias de small caps, consideradas de alta convicção. Neste momento, contudo, a casa privilegia setores mais defensivos, como empresas ligadas ao setor público e exportadoras. Segundo as projeções da asset, a Selic deve encerrar o ano em 12% e o potencial de valorização da bolsa pode chegar a pelo menos 20%.

Atualmente, a asset administra cerca de R$ 84 bilhões, dos quais 21% estão alocados em crédito privado – a classe que mais cresceu nos últimos três anos.

Ranking – Data base 31/12/2025 (arquivo em pdf)
Fundos analidados em 12 / 24 / 26 meses (arquivo em pdf)
Performance geral dos gestores (arquivo em pdf)
Melhores gestores em Renda Fixa (arquivo em pdf)
Melhores gestores em Multimercados (arquivo em pdf)
Melhores gestores em Ações (arquivo em pdf)
Gestoras participantes (arquivo em pdf)