Capital externo sustenta bolsa

Edição 384

“O grande acerto foi não termos feito nada no final de 2024, quando a bolsa teve um desempenho negativo”, diz Marcos Peixoto, da XP Asset Management

O fechamento de 2025 registrou um desempenho acima do que muitos imaginavam para a bolsa brasileira, com valorização superior a 33,95% e um surpreendente fluxo de recursos de investidores estrangeiros alimentando a alta. “A forte alta foi um movimento que veio do exterior e continua agora em 2026 porque o mundo começou a querer diversificar seus investimentos depois do choque de tarifas do governo Trump nos EUA, o que favoreceu as bolsas dos países emergentes”, afirma Marcos Peixoto, sócio e portfolio manager da XP Asset Management, responsável pelos fundos de renda variável de gestão ativa da casa.

“O grande acerto foi não termos feito nada no final de 2024, quando a bolsa teve um desempenho negativo e o mercado estava muito volátil. Permanecemos calmos naquele momento, sem fazer mudanças na carteira, sem entrar em desespero, e o portfólio seguiu muito parecido em 2025”, diz o executivo. A composição da carteira contou com papéis de empresas do setor elétrico, bancos e outros ativos considerados mais “simples”, explica o gestor. Até que, no final do ano, veio o rali impulsionado pelo fluxo de recursos externos.

Este ano, que começou com uma entrada ainda mais forte de capital estrangeiro nos dois primeiros meses – mais de R$ 40 bilhões –, deve trazer novos desafios. “Não acredito que o ritmo de entrada de recursos internacionais vá se manter nessa velocidade, mas a situação geopolítica favorece o case do Brasil junto aos investidores globais”, observa Peixoto.

Para começar, o Brasil está fora da guerra envolvendo o Irã e é exportador de petróleo, lembra o gestor. Além disso, o país possui uma balança comercial que pode continuar performando bem. “Ainda que a bolsa não deva ter daqui para frente a mesma valorização que registrou até fevereiro – até porque o valuation já mudou desde o ano passado –, é preciso lembrar que a alocação nos mercados emergentes está próxima de mínimas históricas”, avalia.

Outro aspecto positivo é a forte concentração da bolsa brasileira em papéis de commodities, bancos e empresas da chamada “velha economia”. “O setor elétrico foi o maior destaque da nossa carteira no ano passado e segue relevante este ano. O fundo Investor 30, por exemplo, tem aproximadamente 30% nesse setor”, afirma.

A carteira reduziu a posição em bancos, mas aumentou a exposição a correlatos financeiros, como a B3. O setor de educação também esteve entre os destaques em 2025 e permitiu realizar ganhos. Os setores de construção civil e utilities são outros pontos fortes da estratégia, e houve aumento da posição em commodities.

“Este ano voltamos a ter posições em petróleo, que representam cerca de 10% da carteira”, conta Peixoto. Os reflexos da guerra no Irã ainda precisam ser avaliados, mas a expectativa é de que o conflito não se prolongue.

A gestão ativa é considerada um trunfo importante neste cenário. Na primeira etapa da entrada de capital estrangeiro, entre o final de 2025 e o início de 2026, as ações mais líquidas lideraram a alta. “A oportunidade agora é entender como será a segunda ‘pernada’ desse movimento e avaliar as empresas que ficaram para trás”, afirma.

A adição de risco no cenário global cria maior volatilidade, mas alguns movimentos podem acabar sendo exagerados, acredita Danilo Gabriel, gestor de fundos indexados e feeders internacionais da XP Asset. Ele explica que os fundos globais da casa oferecem acesso a mercados internacionais por meio de grandes gestoras e procuram montar uma grade diversificada e competitiva, atualmente com 15 parceiros globais.

Em 2025, as ações do setor de tecnologia, que têm peso relevante nessas carteiras, conseguiram navegar bem. Porém, o ambiente de maior incerteza para os mercados globais tem provocado migração crescente de capital para ativos reais, como commodities físicas, ouro e prata.

Infra, agro e commodities – O fluxo de recursos para a bolsa em 2025 – com investidores buscando no Brasil ativos diferentes dos disponíveis em outras economias – esteve ligado não apenas ao valuation atrativo, mas também a fatores microeconômicos relevantes, afirma Carolina Rocha, COO da Perfin. “Os setores de saneamento e rodovias criaram um ambiente propício ao crescimento da indústria de infraestrutura, pela combinação de diversos fatores”, diz.

“Os investidores acordaram para a necessidade de voltar à bolsa. Muito desse fluxo é externo e apenas uma pequena parte vem de recursos domésticos, mas há catalisadores importantes”, afirma a executiva.

Com quase 60% de seu portfólio alocado em ativos de infraestrutura, o fundo Foresight reflete os principais vetores de crescimento do mercado brasileiro. “O Brasil é infraestrutura, agro e commodities, que são basicamente os grandes motores do crescimento. A Suzano, por exemplo, tem gerado caixa e é uma fonte importante de geração de valor”, afirma Rocha. A carteira também inclui dois bancos, que registraram ganhos relevantes em operações de crédito.

Em 2026, um possível fechamento das taxas de juros pode gerar valor adicional para companhias mais alavancadas. “Bancos e commodities continuam relevantes, mas o núcleo principal da carteira segue sendo infraestrutura”, afirma.

Ativos ligados à segurança alimentar e à segurança energética estão entre as tendências globais de investimento, o que favorece o Brasil, aponta a gestora.

Infraestrutura ganha tração – A perspectiva difícil no início de 2025 e o tom negativo do mercado afetaram o setor de infraestrutura, e a forte alta observada no final do ano veio combinada com essa base deprimida, explica Marcelo Sandri, sócio e portfolio manager do fundo Perfin Infra Equity. “Mesmo com um cenário macro que tornava difícil a precificação dos ativos no início do ano, já era possível enxergar retornos prospectivos relevantes porque os fundamentos da indústria de infraestrutura vêm melhorando bastante no país”, afirma.

As reformas estruturais implementadas nos últimos anos ajudaram a impulsionar esse mercado, diz o gestor. “Em 2025 vimos o início de uma melhora, mas o custo de capital ainda estava muito alto”, observa.

Nos ativos de infraestrutura, a performance tem três principais vetores, explica Sandri. O primeiro está ligado ao setor de geração de energia. O segundo envolve teses relacionadas ao saneamento – que foi o principal contribuinte para a performance da carteira do Infra Equity, beneficiado pelo marco regulatório do setor e pelo ingresso de capital externo. E o terceiro vetor está nos transportes. A quinta rodada de concessões tem atraído novos players e projetos com perfis de risco mais favoráveis.

“A atual crise pode trazer desafios, com choques de oferta em algumas commodities, mas os pilares da infraestrutura ajudam os gestores a navegar com maior segurança, porque os fundamentos do setor seguem sólidos”, avalia.

Além disso, ele destaca que ainda existem retornos prospectivos relevantes nessas empresas. As mudanças na carteira do fundo foram pequenas neste ano. “Os grandes setores continuam, apenas mudam alguns nomes. Os ativos de energia seguem com oportunidades de reprecificação e há um upside importante nas curvas”, afirma.

No setor de transportes, houve uma rotação de ativos, mas o otimismo permanece. O mesmo ocorre no saneamento. “Apesar da mobilização do setor privado nos últimos três ou quatro anos, o Brasil ainda tem um gap significativo de infraestrutura de saneamento”, afirma.

A expectativa é que o fechamento da Selic leve investidores institucionais a enfrentar maior dificuldade para cumprir metas atuariais na renda fixa, o que pode impulsionar um novo ciclo de investimentos na bolsa.

“O setor de infraestrutura oferece retorno prospectivo elevado e cumpre também uma função social das fundações, ao ajudar a reduzir gargalos estruturais do país com risco menor do que a renda variável tradicional”, afirma Sandri.

Os investidores institucionais já representam cerca de um terço do fundo Infra e uma fatia um pouco menor do fundo Foresight, informa Carolina Rocha. Ainda assim, a casa enxerga amplo espaço para ampliar a participação desse público.

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