Sob nova dose de cautela

Estratégias descorrelacionadas, reforço de caixa e seleção de empresas orientam as carteiras, enquanto a retomada das alocações de fundos de pensão em ativos de maior risco fica adiada

Edição 389

“Trabalhamos para aumentar o carrego das carteiras frente ao estresse do mercado”, diz Fernando Cavallete, head da área de Portfolio Specialists da Itaú Asset

A guerra dos Estados Unidos contra o Irã alterou as expectativas de inflação e juros e reduziu o espaço para a tomada de risco nos investimentos. Com o fechamento do estreito de Ormuz e as restrições ao fornecimento de energia, a perspectiva de um conflito breve deu lugar à preocupação com efeitos mais duradouros sobre os preços e a atividade econômica. Nesse ambiente, as decisões de alocação passaram a exigir maior flexibilidade, controle de riscos e atenção aos preços de entrada e saída dos ativos.
Na Itaú Asset, Fernando Cavallete, head da área de Portfolio Specialists, avalia que a duração do conflito comprometeu a tese favorável aos ativos de risco. “Se os ativos estão estressados e o choque será mais demorado, a inflação entra de modo mais permanente nos cálculos, como os preços de fretes, por exemplo, e os bens de produção. Isso significa que a inflação não vai se dissipar rapidamente e a tese do risco foi por água abaixo”, afirma.
Já na avaliação da BB Asset, o cenário permanece moderadamente favorável à tomada de risco, mas com menor convicção para posições de longo prazo. “A visão ainda é mais otimista pró-risco, mas, à medida que a incerteza aumenta, o viés fica mais tático e mais ligado aos preços porque as análises passaram a ser mais perecíveis”, diz Guilherme Engracia Novaes, gerente executivo de Fundos Multimercados e de Ações. Para fundos de pensão e RPPS, ele observa uma migração para alocações mais defensivas.
Na Bradesco Asset Management, a resposta combina diversificação, seleção de crédito e maior controle das posições. “O nome do jogo para a gestão de investimentos no atual cenário é disciplina, com muito controle de riscos e acessibilidade porque a guerra no Irã impactou todas as mesas. O trabalho dos gestores ficou mais desafiador”, afirma Maria Isabel Mattos, head da Distribuição Atacado, Institucional & Internacional.

Menos correlação – Cavallete, da Itaú Asset, destaca o contraste entre os dois últimos semestres. “Do ano passado para cá, vivemos duas situações totalmente diferentes nos mercados porque o segundo semestre de 2025 foi positivo e construtivo para a tomada de risco, apesar de toda a agenda política e econômica dos EUA, com as suas tarifas”, diz.
As medidas anunciadas pelo governo Trump afetaram as projeções no primeiro semestre de 2025, mas os mercados acomodaram a situação na segunda metade do ano, sem uma disparada da inflação para patamares muito distantes das metas. “As tarifas dos EUA também acabaram não produzindo uma desaceleração razoável da atividade global, que continuou forte até pela tese de inteligência artificial, que fez investimentos monstruosos e puxou o crescimento global como um todo”, afirma.
No início de 2026, as perspectivas de cortes de juros em vários países, incluindo o Brasil, estimularam o otimismo e os fluxos para emergentes, impulsionando a bolsa brasileira. A guerra interrompeu esse movimento. Com a passagem pelo estreito de Ormuz comprometida, cerca de 20% da oferta mundial de petróleo e gás foi afetada, pressionando o abastecimento e as perspectivas de inflação, inicialmente no leste asiático. “O choque de energia, com o estrangulamento do fornecimento de petróleo e gás, leva os preços da energia para cima e impede os cortes de juros”, observa.
O novo quadro dificultou o desempenho dos multimercados que operam globalmente. “O nosso multimercado Artax conseguiu desempenho acima do CDI, e os fundos da família Global Dinâmico também, mas essa indústria como um todo sofreu muito este ano, aliás os multimercados têm sofrido desde 2021, é uma indústria que está encolhendo”, afirma. Para Cavallete, a adoção de processos semelhantes tornou os fundos muito correlacionados e contribuiu para as dificuldades dos últimos anos.
A Itaú Asset tem se preparado para a evolução desse modelo por meio de sua plataforma multigestor e multiestratégia, que reúne R$ 159 bilhões em alocações de renda variável, renda fixa e multimercados. “O modelo multiestratégia/multigestor é personificado aqui pela família Global Dinâmico”, explica.

Cautela no crédito – No crédito privado, a maior volatilidade exige atenção adicional. “O investidor tende a acreditar que o risco é baixo no crédito, mas este ano houve muitos casos de empresas com dificuldades financeiras”, observa Cavallete. Embora não identifique um efeito sistêmico nesses episódios, que atribui a problemas específicos de gestão, ele aponta repercussões sobre o restante do mercado, especialmente pela marcação a mercado. “Esses eventos colocam um prêmio de risco no mercado de crédito e vimos um grande vaivém de spreads, o que produz um cenário não muito bom”, afirma.
As estratégias da Itaú Asset sentiram esses efeitos e tiveram alguns resgates, mas em proporção pequena do patrimônio, segundo Cavallete. A casa mantém uma mesa de crédito core, com R$ 550 bilhões sob gestão, e outra de private markets, com R$ 80 bilhões em estratégias mais estruturadas e garantias customizadas.
Para Cavallete, o crédito tornou-se o terreno mais difícil de navegar, exigindo cautela para que as análises das carteiras de dívida não deixem riscos de fora. Nesse contexto, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) ganharam relevância pela diferenciação entre cotas, com as subordinadas, detidas por investidores profissionais, absorvendo os impactos de forma distinta. “Isso ajuda a mitigar o impacto da volatilidade e não assusta tanto o investidor”, explica. “Aumentamos muito a oferta de FIDCs nas duas mesas de crédito.”
Nos fundos de crédito corporativo, a casa mantém um pouco mais de caixa para lidar com o aumento dos prêmios de risco. “Trabalhamos para aumentar o carrego das carteiras frente ao estresse do mercado”, diz.

“O preço passou a importar mais como ponto de entrada e saída nas diferentes classes de ativos”, afirma Guilherme Engracia Novaes, gerente executivo de Fundos Multimercados e de Ações da BB Asset

Preço e convicção – Na BB Asset, Novaes lembra que o início do ano foi marcado por expectativas mais favoráveis à política monetária e aos riscos geopolíticos. “O ano de 2026 deveria ter sido de ‘virada de chave’ para a tomada de risco nos investimentos”, afirma.
Os fundos multimercados e de ações começaram o período alongando a duração das posições e ampliando o risco em renda variável. “Os meses de janeiro e fevereiro foram um céu de brigadeiro, com a entrada de fluxo forte na bolsa brasileira, mas no final de fevereiro o início da guerra dos EUA contra o Irã teve um efeito claro sobre os mercados. As convicções não mudaram tanto, mas o investimento de risco deixou de ser tão estrutural para ser mais tático”, analisa.
A principal mudança entre o primeiro e o segundo semestres foi o peso atribuído às condições de negociação. “O preço passou a importar mais como ponto de entrada e saída nas diferentes classes de ativos. Para os fundos de pensão e os RPPS, a migração foi para uma alocação mais defensiva”, diz.
Nos multimercados da BB Asset, o risco total está mais baixo do que no primeiro semestre em todos os portfólios. “Mas o juro e a bolsa seguem como nossas preferências para tomar risco. Em renda variável, os mandatos estão mais ativos e temos acertado porque eles estavam mais líquidos, com mais caixa, e o debate sobre as definições eleitorais, a partir de agora, poderá trazer mais oportunidades, com preços mais atrativos e a possibilidade de fazer stock-picking”, afirma.
Entre as EFPCs, ficou frustrada a expectativa de aumento da exposição à renda variável e de alongamento da duração das carteiras. “O ano de 2025 foi ótimo para a renda variável, o que reforçou a expectativa favorável da classe nas carteiras dos fundos de pensão, acreditava-se que elas começariam a ampliar sua alocação média, o que não veio”, observa.
Os RPPS, por sua vez, passaram a lidar com restrições decorrentes da nova legislação, acrescentando uma preocupação à escolha dos produtos, segundo Novaes. “Em relação aos institucionais, em especial EFPC e RPPS, o que deveria ter acontecido este ano talvez tenha sido postergado para 2027”, avalia.

Eleições e IA – Nos fundos multiclasses, o debate diário se concentra em três questões. A primeira é a eficácia da política monetária e o patamar da Selic. “Acreditamos que essa política está funcionando, mas o ritmo não tem sido tão rápido como o mercado enxergava lá atrás, principalmente por conta da guerra no Irã e pelo choque no fornecimento de energia, que tem um mecanismo forte de transmissão de preços”, afirma Novaes.
A intensificação do conflito é o segundo ponto de atenção e mantém o investidor em compasso de espera. “A nossa visão aqui é levemente mais otimista para o juro e para a bolsa brasileira, mas mantendo a preocupação”, diz.
O terceiro fator é a situação fiscal brasileira, refletida nos prêmios das NTN-Bs. “É preciso lembrar que os resultados fiscais levam vários exercícios para aparecer e fazer efeito. Além disso, teremos a eleição e o impacto que o mercado poderá perceber de seu resultado sobre as políticas do governo”, observa. Por isso, Novaes não espera um fator capaz de provocar, no curto prazo, uma redução rápida da Selic ou uma disparada da bolsa.
“Seguirá a visão mais tática e um corte mais lento da Selic. Nossa estimativa é de 13,5% no final deste ano e de 12,5% no final de 2027, com um valuation dos ativos bastante atrativo. O gestor precisará equilibrar a exposição nos portfólios porque não se sabe qual será o fator capaz de disparar o fechamento da curva de juros”, afirma. Na sua avaliação, os fatores que podem impulsionar os juros são locais, enquanto os da renda variável são mais globais e ligados à inteligência artificial.
Apesar da volatilidade associada às eleições, a BB Asset mantém uma visão positiva sobre as oportunidades de compra na bolsa. “O comportamento do investidor estrangeiro é um fator importante e depende do setor de IA. Há uma série de IPOs nos emergentes, Ásia principalmente, e nos EUA, independentemente do valuation das empresas”, diz.
A casa acredita na tese da inteligência artificial e espera que ela continue presente no debate sobre investimentos nos próximos anos. No curto prazo, porém, Novaes vê possibilidade de algum esgotamento dos preços. “Será uma conversa permanente, mas neste segundo semestre acredito que haverá uma pequena saturação de preços nessa tese, com uma queda no fluxo de recursos para essas companhias”, afirma.
Se isso ocorrer, outros mercados acionários poderão se beneficiar da redistribuição dos recursos, criando um estímulo à bolsa brasileira. “Estamos alocados porque o mercado local talvez consiga dar o suporte necessário para o valuation andar”, diz.

“A demanda do investidor foi por carteiras mais diversificadas e com risco menor”, conta Maria Isabel Mattos, head da Distribuição Atacado, Institucional & Internacional da Bradesco Asset Management

Diversificação e risco – Na Bradesco Asset, a mesa de crédito privado atingiu R$ 540 bilhões sob gestão, dentro de um patrimônio total de R$ 1,2 trilhão. “Capturamos bem o movimento de migração do investidor para a renda fixa, com destaque para as alocações em IMA-B e IMA, além do crédito high grade. A demanda do investidor foi por carteiras mais diversificadas e com risco menor”, afirma Maria Isabel Mattos.
As políticas dos Estados Unidos, as decisões do Federal Reserve e as perspectivas para a inteligência artificial tornaram o trabalho de alocação mais desafiador. “Atuamos de forma mais tática e controlada devido à falta de clareza do cenário externo e também com a incerteza do cenário eleitoral local”, diz. Na renda variável, a busca por proteção favorece ações de valor e empresas boas pagadoras de dividendos.
O investidor institucional também está mais exigente em relação aos processos e à governança, observa Rafael Gruner, head de crédito high grade da Bradesco Asset. “Na área de crédito, temos visto bastante fluxo recebido de outras classes. Em 2026, o juro muito elevado por mais tempo impactou o custo do capital para as empresas e tornou ainda mais importante para nós selecionar os ativos de crédito para identificar aqueles de melhor retorno”, afirma.
A preferência por empresas financeiramente mais saudáveis permitiu rentabilizar as carteiras e evitar os episódios problemáticos do mercado, segundo Gruner. “Saímos ilesos e não tivemos nenhum desses casos graças à disciplina na escolha”, diz.
A casa ampliou a equipe de crédito high grade e também tem investido no crédito estruturado, considerado importante inclusive para a originação de operações. As duas mesas atuam de forma integrada, explica Gruner.
A participação no mercado secundário também aumentou. O volume de operações atingiu R$ 42 bilhões em 2026 até o momento, ante R$ 59 bilhões em todo o ano de 2025. “Isso nos permite fazer um giro de carteira mais adequado ao cenário macro, com todas as incertezas da guerra, do El Niño e da inflação”, afirma Mattos.

Ranking – Data base 30/06/2026 (arquivo em pdf)
Fundos analidados em 12 / 24 / 26 meses (arquivo em pdf)
Performance geral dos gestores (arquivo em pdf)
Melhores gestores em Renda Fixa (arquivo em pdf)
Melhores gestores em Multimercados (arquivo em pdf)
Melhores gestores em Ações (arquivo em pdf)
Gestoras participantes (arquivo em pdf)