Em busca de proteção

A expectativa de cortes modestos na Selic e a saída de recursos da bolsa limitam as apostas direcionais, enquanto a arbitragem surge como alternativa para buscar retornos acima do CDI

Edição 389

“Nesse ambiente de queda mais lenta da Selic, a bolsa não reage e fica difícil tomar posições em muito risco”, explica Fernando Lovisotto, da Vinci Compass

As incertezas provocadas pela guerra contra o Irã e pelas eleições brasileiras reforçam a busca por proteção nos fundos multimercados, embora as respostas variem conforme a estratégia. Na Vinci Compass, a combinação de turbulências externas, dúvidas sobre a trajetória dos juros e baixa disposição para assumir riscos recomenda posições conservadoras e movimentos táticos.
Para Fernando Lovisotto, sócio e head das estratégias de hedge funds e Investment Solutions da Vinci Compass, a melhor parte deste ano para a indústria de fundos terminou em abril, quando a preocupação com os efeitos da guerra começou a produzir mudanças nos diversos mercados. “Nos primeiros três meses do ano nossos fundos multimercados foram bem porque tínhamos pouca coisa em bolsa local e as posições em juros já estavam mais curtas. Tínhamos bastante alocação em NTN-B curtas porque na virada do ano projetávamos a inflação mais baixa e esses títulos foram muito beneficiados pela mudança nas projeções”, diz.
Nos ativos de crédito, os fundos também aproveitaram a expansão da indústria de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com uma seleção rigorosa das alocações. “Não é fácil essa escolha, mas temos uma carteira de FIDC bem pulverizada, de mais de 100 fundos e todo o tipo de risco”, explica.
Na avaliação de Lovisotto, as condições do mercado mudaram bastante do segundo semestre de 2025 para o primeiro de 2026. “A discussão fiscal global este ano levou à abertura das curvas longas de juros dos títulos de 30 e 40 anos nos EUA. No Brasil, o risco passou a ser de não vermos a curva da Selic fechar”, explica.
Apesar das turbulências globais e das incertezas eleitorais, ele ainda vê espaço para três cortes de 0,25 ponto percentual na Selic até dezembro. “Podemos fechar o ano com a Selic no patamar de 13,25% porque os dados da atividade econômica estão fracos”, avalia. A projeção da casa para a inflação brasileira neste ano é de 4,7%, já considerando o impacto do El Niño sobre a produção agrícola. “Além da incerteza provocada pelas eleições aqui no Brasil, há o impacto do cenário de guerra sobre o mercado, mas isso não deve impedir a continuidade do corte da Selic este ano”, analisa.
Lovisotto também estima que o Federal Reserve não elevará os juros americanos na reunião de setembro. Outro fator que sustenta sua aposta na redução dos juros domésticos é a avaliação de que a guerra contra o Irã, em si, não tem sido ruim para a economia brasileira. “Isso porque exportamos de 5% a 6% do nosso PIB em petróleo e o real tem se valorizado”, diz.
Essa visão mais positiva sobre o ciclo de flexibilização monetária encontra, entretanto, dois limites: o mercado projeta apenas mais uma redução da Selic neste ano, e os cortes esperados são de 0,25 ponto percentual, em vez de 0,50 ponto, como se previa antes da guerra. “Nesse ambiente a bolsa não reage e fica difícil tomar posições em muito risco”, afirma.
Diante desse quadro, os multimercados da Vinci Compass zeraram suas posições em NTN-Bs curtas e avaliam uma retomada gradual das compras, em função da janela de inflação. “Estamos super conservadores nessas compras, que passaram a ser exclusivamente táticas. Além disso, estamos apenas com um pouco de juro, dólar e bolsa e devemos continuar assim. O único movimento novo que está sendo avaliado é o possível retorno às NTN-Bs curtas”, diz.

Aversão ao risco – Na renda variável, Lovisotto vê um elevado grau de aversão ao risco, associado em parte à saída de investidores estrangeiros. “Os investidores estrangeiros estão vendedores este ano, já tiraram R$ 40 bilhões. Ao mesmo tempo, os fundos de pensão brasileiros atingiram um nível de alocação em bolsa muito baixo, em torno de 3% de seus ativos”, afirma.
Ele associa a saída de recursos à forte captação das grandes empresas de tecnologia, especialmente as ligadas à inteligência artificial. “Essas empresas têm recorrido tanto ao mercado de equities quanto ao de bonds (dívida) para financiar seus investimentos gigantescos, da ordem de trilhões de dólares”, avalia. Segundo Lovisotto, o dinheiro tem saído de mercados como Brasil e Austrália, cujas bolsas têm maior presença de empresas ligadas a commodities, e migrado para países com maior participação de companhias de tecnologia, especialmente a Coreia do Sul.
A contrapartida positiva desse movimento, observa Lovisotto, é que os investimentos podem impulsionar os preços das commodities brasileiras utilizadas pela indústria de IA. Para a bolsa brasileira, porém, a perspectiva permanece negativa: a expectativa é de que os estrangeiros não retornem antes das eleições. “Eles deram um passo atrás por enquanto, para esperar por notícias positivas. O corte do juro seria uma notícia positiva, mas não sei se seria suficiente para levar o investidor de volta à bolsa”, diz.

“Mesmo em cenário de ventos adversos para a classe (de multimercados), há destaques, como as estratégias de arbitragem”, diz Ronaldo Zanin, sócio e co-head comercial da AZ Quest

Arbitragem – Na AZ Quest, a arbitragem de distorções de taxas aparece como alternativa para buscar retornos com menor exposição à volatilidade. “O nosso fundo de low vol tem nomenclatura de multimercado, mas é muito diferente dos fundos tradicionais nessa classe porque usa estratégias específicas no mercado de derivativos e não assume posições direcionais”, explica Jean Marcondes, sócio e gestor da área de Arbitragem da AZ Quest Investimentos.
A estratégia utiliza operações com opções de compra e de venda de ações – calls e puts – para capturar distorções na volatilidade desses instrumentos, sem tomar riscos direcionais. “O fundo arbitra isso e olha sempre para essas operações em relação ao CDI e à taxa de juros”, diz.
Segundo Marcondes, esse tipo de estratégia já representa o maior volume de opções na B3. “Em ambiente de Selic e CDI elevados, o fundo tem conseguido entregar resultados acima do CDI e mostrar consistência, ele tem liquidez (D+1) e cumpre seus objetivos de retorno”, afirma. A arbitragem responde por 10% do total de recursos sob gestão da casa.
O desempenho da indústria de multimercados, entretanto, não tem sido uniforme, observa Ronaldo Zanin, sócio e co-head comercial da AZ Quest. “Mesmo em cenário de ventos adversos para a classe, há destaques, como as estratégias de arbitragem”, diz. Na avaliação de Zanin, os multimercados macro têm sofrido mais nos últimos anos, mas a definição do quadro eleitoral pode abrir oportunidades. “Estamos diante de uma bifurcação, um divisor de águas nessa classe, com a possibilidade de novos caminhos e oportunidades quando o cenário ficar mais claro, depois das eleições”, afirma.
Na AZ Quest, ele destaca que também os fundos long and short conseguiram bons resultados, tanto em retorno absoluto quanto relativo. Com R$ 36 bilhões em ativos sob gestão em diversas classes, a casa mantém uma interação próxima com as equipes internacionais do Azimut Group, ao qual está associada desde 2015. “Nossa grade é bem completa e oferece atualmente acesso a sete fundos internacionais, com estratégias diversificadas. Considerando o atual horizonte dos mercados, não há planos para ampliar essa oferta por enquanto”, conta.

Melhores gestores em Multimercados (arquivo em pdf)