Volatilidade inesperada | Renda fixa e variável foram prejudicada...

Edição 220

 

Depois de dois anos classificados como pontos fora da curva, a expectativa dos gestores era de finalmente navegar em águas tranquilas em 2010. O ano passado foi marcado pela rápida recuperação nos mercados, depois de um 2008 fortemente abalado pela crise financeira internacional. Para este ano, não se esperava grandes ganhos, mas também não se via perdas no horizonte. Na prática, porém, não foi isso que aconteceu nos primeiros seis meses de 2010. Turbulências na Europa –principalmente na Grécia –, indefinição sobre a capitalização da Petrobras e alta acima do esperado na inflação, com incertezas sobre a ação do Comitê de Política Monetária (Copom) em relação à taxa de juros, trouxeram turbulências para o mercado de gestão de recursos.
Na avaliação da gerente de Clientes Institucionais da Luz Engenharia Financeira, Viviane Werneck, o cenário de 2010 não chegou a ser de crise, mas sim nebuloso. Dessa forma, houve uma grande dificuldade para que os gestores montassem estratégias mais agressivas, uma vez que os conceitos utilizados como embasamento para os investimentos não estavam claros. Nesse cenário mais turbulento que o esperado, algumas estratégias específicas foram as vencedoras. Na renda variável, os ganhadores apostaram em papéis fora dos índices, enquanto na renda fixa os títulos atrelados a inflação, junto com posições em crédito, garantiram navegação mais tranquila. “No primeiro semestre houve meses em que a Bolsa ficou positiva para, no mês seguinte, entregar tudo o que tinha ganho. É natural que o gestor vá um pouco mais para a passividade se os fundamentos não estão claros”, analisa Viviane.

Renda fixa – A executiva diz que a primeira metade do ano se mostrou difícil na renda fixa para que os gestores conseguissem bater o CDI, com poucos fundos com rentabilidade acima do benchmark. Segundo ela, algumas assets estavam com apostas mais agressivas na elevação da Selic já em março, com alocações em derivativos e na curva de juros.
Entretanto, a alta veio a acontecer apenas em abril. “A renda fixa sofreu um pouco por conta dessas apostas na curva de juros. Alguns gestores perderam um pouco em estratégias mais agressivas. Dissemos que eles erraram um pouco a mão”, afirma.
Essas apostas provocaram algumas mudanças nas posições das assets. De acordo com Viviane, alguns gestores de grandes conglomerados, que possuíam mais fundos com classificação verde, viram uma queda para a faixa amarela e alguns até para a faixa vermelha. Como as apostas feitas anteriormente não vingaram, uma vez que 2010 se mostrava diferente do esperado, aquelas casas com uma estrutura maior, sem tanta mobilidade na hora de realizar mudanças na estratégia, acabaram penalizadas pelo movimento que o mercado teve.
Nesse cenário, o primeiro trimestre foi especialmente ruim para a renda fixa, com praticamente todos os vértices que se tem para trabalhar em situação complicada. Segundo a gerente, os fundos indexados a inflação, que mostraram uma boa rentabilidade ao longo do semestre, sofreram nesse início de ano, com a alta acima do esperado do índice de preços. “A curva de juros foi uma surpresa, a inflação real veio alta e esses papéis não andaram bem”, recorda. No período entre abril e junho, no entanto, já foi possível constatar uma recuperação. “Em alguns meses, os papéis indexados a inflação tiveram uma rentabilidade excelente e se recuperaram”, completa. A gerente explica que, no segundo trimestre, a inflação começou a desacelerar, o que deu um alívio para os gestores. A rentabilidade desses papéis começou muito boa e aos poucos foi se normalizando, com o Copom divulgando a expectativa para o restante do ano, o que deixou o cenário mais claro sobre como se direcionar. Segundo Viviane, esse é um segmento em crescimento, e vem se mostrando uma estratégia vencedora há algum tempo. “Vemos uma procura grande por fundos IMA, e a tendência é de que haja um crescimento grande”, opina.
Além disso, a executiva também destaca a estratégia de crédito como outra que garantiu uma melhor rentabilidade para os gestores, apesar de ter sofrido com uma volatilidade maior, como é característica do segmento.
A dificuldade apresentada pelo cenário fez ainda com que muitos gestores realizassem apostas mais conservadoras. “Pelas incertezas do momento, os gestores estavam fazendo praticamente a mesma aposta que um fundo referenciado DI, esperando o que iria acontecer.” Para a gerente, a expectativa é de que a renda fixa se recupere no segundo semestre, para encerrar o ano equilibrado. “Para o institucional, eu diria que o equilíbrio é um ponto ótimo”, indica.

Renda variável – Em relação à renda variável, Viviane diz que os gestores que fizeram apostas mais específicas, diferentes da estratégia dos índices de ações, se saíram melhor. Segundo ela, o melhor segmento de aplicação nesse período foi o de consumo interno. No entanto, não foram todos os papéis que apresentaram boa performance. “Como apenas algumas ações do setor andaram bem, gestores que apostaram em papéis específicos foram favorecidos”, conta. Para a executiva, essa escolha dos papéis foi determinante para o sucesso dos fundos, ao contrário do ano passado, quando a Bolsa como um todo estava performando bem e não era necessário que o gestor fizesse grandes movimentos para ter boa rentabilidade. Segundo ela, apenas o gestor que contava com uma aposta mais pontual e consolidada conseguiu manter a posição do ano passado.
No caso dos fundos mais tradicionais – como os indexados ou IBX ativo e Ibovespa ativo, por exemplo –, a executiva vê a capitalização da Petrobras como um “evento determinante”. “A expectativa de como ficaria a oferta de ações da companhia e toda a indefinição que cercou o assunto afetaram bastante a rentabilidade de alguns gestores”, recorda.
Segundo ela, cerca de 90% dos gestores de fundos de renda variável preferiram fica passivos no índice. “Houve alguns destaques, como de gestores que, mesmo com o Ibovespa batendo – 11% no semestre, conseguiram uma rentabilidade positiva”, aponta. Para Viviane, na dúvida entre fazer uma aposta agressiva e ter que explicar a decisão para a entidade e para os respectivos conselhos ou ficar passivo no índice, muitos preferiram a primeira opção. Segundo a gerente, já é possível notar um processo de diversificação das carteiras de renda variável. No entanto, antes de partirem para investimentos mais agressivos, as entidades, principalmente aquelas de pequeno e médio porte, estão explorando os segmentos em que já investem para, aos poucos, buscar novas opções.
“Por exemplo: a fundação possui um fundo de renda variável indexado ou IBX ativo. A partir disso, começa a abrir o leque, a buscar um investimento estruturado como um multimercado mais agressivo. Então, parte para um fundo de ações livres.” A executiva diz que antes de buscar investimentos diferenciados, é preciso ter um processo de amadurecimento da fundação, começando com a educação financeira da entidade e dos participantes. Eles precisam, antes, entender esses produtos e estar preparados para a volatilidade maior que os fundos trazem. “Se começa com poucos recursos nessas aplicações, como forma de teste. Vê como trabalha o gestor, pega um pouco mais de confiança, aumenta um pouco a alocação e começa a diversificar. É todo um processo de evolução.”

Fundos Multimercado – Nos fundos multimercados multi-estratégia, a executiva viu uma tendência de migração para a renda fixa, como forma de preservação de capital. “Muitos gestores tomaram essa opção, esperando a oportunidade de voltar para a renda variável, o que levou a uma rentabilidade bem próxima da renda fixa pura.” Já os multimercados macro, diz ela, como possuem uma estratégia diferente, acabaram mais penalizados. “Pouquíssimos gestores batem o CDI. No entanto, como a estratégia é de longo prazo, fica difícil comparar um período curto como o de seis meses”, contemporiza.
Neste ranking de melhores fundos para institucionais, elaborado por Investidor Institucional em parceria com a Luz, foram classificados como verdes um total de 164 fundos, um crescimento em relação à edição anterior (117 fundos verdes) e ao levantamento referente ao perído de doze meses encerrado em junho do ano passado (91 fundos).
Segundo dados da Associação Nacional das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o patrimônio total de fundos chegou a R$ 1,52 trilhão em junho deste ano, montante 22% superior ao registrado no mesmo mês de 2009. A coordenadora do subcomitê de Base de Dados da entidade, Luciane Ribeiro, aponta que o CDI no período teve uma alta de 8,8%. “O crescimento do patrimônio líquido total foi bastante expressivo, como mostra a comparação”, aponta.
Segundo ela, os fundos que apresentaram maior alta foram os off-shore, com 106% de avanço para R$ 55,6 bilhões, e os multimercados, com crescimento de 26% para R$ 350 milhões. “Houve um retorno de capital aos fundos multimercados, que perderam muito patrimônio durante a crise. Já os fundos off-shore são uma excelente opção para estrangeiros adquirirem ativos no País, que está em uma situação macroeconômica excepcional”, justifica.
A renda fixa, no período, apresentou uma alta de 21%, chegando a um total administrado de R$ 427 bilhões. Para Luciane, a alta foi natural, uma vez que a taxa de juros no País ainda é elevada. “Além disso, a Bolsa esteve flat, o que intensificou os investimentos nessa área”, analisa. Para a coordenadora, a expectativa é que o patrimônio líquido dos fundos deva continuar em trajetória de alta, com destaque para os fundos imobiliários e os de participações. “O setor imobiliário está em crescimento, o que permite a securitização desses ativos e impulsiona o setor. Com os FIPs acontece a mesma coisa – ou seja, há um interesse de caminhar mais para o setor produtivo e ser acionista ou ter participação em empresas, o que tem ajudado o segmento”, conclui.