
Ieda Gomes Yell, nova conselheira da Vale
A Previ não conseguiu eleger seu indicado para a vaga aberta no Conselho de Administração da Vale, mas teve o apoio dos acionistas para o nome que apoiou ao comando do colegiado. Em Assembleia Geral Extraordinária (AGE) realizada nesta quarta-feira (22/7), Ieda Gomes Yell derrotou José Maurício Pereira Coelho, candidato do fundo de pensão, enquanto Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie, foi escolhido para a presidência do conselho.
Participaram da assembleia acionistas detentores de aproximadamente 3,5 bilhões de ações, equivalentes a 82,4% do capital votante da Vale.
Ieda recebeu 2,4 bilhões de votos e ocupará a cadeira deixada por Daniel Stieler, que renunciou aos cargos de conselheiro e presidente do colegiado em 6 de julho. Coelho, ex-presidente da Previ e do próprio Conselho de Administração da Vale, recebeu 628,5 milhões de votos favoráveis e 152 milhões contrários. Acionistas detentores de 2,7 bilhões de ações se abstiveram de votar em sua indicação.
Com a eleição de Ieda, a Previ passa a ter apenas um indicado no conselho da mineradora, o atual presidente da fundação, Márcio Chiumento. Stieler havia chegado ao colegiado em 2021, quando ainda comandava o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.
Para a presidência do conselho, Ollie recebeu 1,977 bilhão de votos e derrotou o atual vice-presidente do colegiado, Marcelo Gasparino, que obteve 1,065 bilhão. Apoiado antecipadamente pela Previ, Ollie já integrava o conselho e exercia a função de lead independent director (LID), responsável por coordenar a atuação dos conselheiros independentes.
“É com profundo orgulho, respeito e senso de responsabilidade que assumo a presidência do Conselho de Administração da Vale”, afirmou Ollie em nota divulgada pela companhia. Segundo ele, o colegiado manterá o compromisso com o planejamento estratégico de longo prazo, a disciplina na alocação de capital e a “retomada sustentável e consistente do protagonismo global da Vale”.
Ollie tem mais de 45 anos de experiência internacional em finanças corporativas e estratégia no setor de mineração, com passagens por grupos como Anglo American e De Beers. Ao anunciar seu apoio ao executivo português, a Previ afirmou que sua eleição contribuiria para fortalecer a governança e melhorar a gestão estratégica da mineradora.
Pedido da Previ – A AGE foi convocada após a Previ encaminhar, em 11 de junho, pedido para destituir Stieler do conselho e substituí-lo por Coelho. Os dois executivos são ex-presidentes da fundação: Coelho comandou a entidade entre 2018 e 2021, enquanto Stieler esteve à frente da Previ de junho de 2021 a fevereiro de 2023.
Coelho também presidiu o Conselho de Administração da Vale entre 2019 e 2021 e atualmente integra o conselho do Santander Brasil. A Previ classificou sua candidatura como técnica e destacou sua experiência em finanças e governança, além do conhecimento acumulado sobre a mineradora e seus desafios estratégicos.
Como Stieler, além de conselheiro, também presidia o colegiado, sua eventual destituição abriria uma segunda disputa, pela presidência do conselho. Por isso, a Previ informou desde o início que apoiaria Ollie para o posto.
A administração da Vale reagiu ao movimento. Ao convocar a assembleia, o conselho recomendou aos acionistas que rejeitassem a destituição de Stieler e, após sua renúncia, apresentou Ieda como alternativa a Coelho para a vaga de conselheiro, além de aceitar a candidatura do vice-presidente do Conselho, Gasparino, à presidência.
Stieler inicialmente tentou resistir ao pedido de substituição. Na reunião em que o conselho analisou a iniciativa da Previ, acusou a fundação de “falsidade ideológica administrativa” nas justificativas apresentadas e de “abuso do direito de voto”. Pouco depois, porém, renunciou aos dois cargos. Com isso, a proposta de destituição perdeu o objeto e não chegou a ser votada na AGE.
Experiência em energia – Ieda Gomes construiu carreira internacional de mais de 35 anos nos setores de petróleo, gás, energia e infraestrutura. Foi presidente da Comgás e ocupou diferentes posições de liderança na BP, entre elas a presidência da companhia no Brasil e vice-presidências nas áreas de novos negócios, gás, energia solar e assuntos regulatórios.
Engenheira química, com mestrado em Energia pela Universidade de São Paulo (USP) e formação em Engenharia Ambiental pela Escola Politécnica Federal de Lausanne, Ieda também acumulou experiência em conselhos de empresas internacionais, entre elas Saint-Gobain, Bureau Veritas, Exterran e Prumo Logística.
Capital pulverizado – A controvérsia em torno do conselho expôs novamente as disputas de influência na Vale, que desde 2020 opera como uma corporation, sem acionista controlador e com o capital pulverizado. A Previ é a principal acionista individual brasileira da mineradora e detém diretamente cerca de 7,3% das ações. A fundação também participa indiretamente da companhia por meio da Litel e da Litela. Entre os acionistas estrangeiros relevantes estão as gestoras BlackRock e Capital World Investors e o conglomerado japonês Mitsui.
Com mais de 70% das ações dispersas entre investidores minoritários, mudanças no Conselho de Administração dependem da formação de maiorias nas assembleias. O resultado desta quarta-feira mostrou essa dinâmica: a Previ foi derrotada na tentativa de eleger Coelho, mas conseguiu formar apoio suficiente para levar Ollie à presidência do colegiado.
Segundo a entidade, seu pedido de renovação das lideranças faz parte do aperfeiçoamento da governança da Vale e não representa “julgamento ou demérito” a qualquer profissional. A fundação também declarou que, na eleição geral do colegiado prevista para abril de 2027, não pretende indicar presidentes para o conselho e voltará a apoiar um candidato independente para o comando do órgão.