Nova bolsa do Rio desafia a B3

Controlada pela Mubadala, a Base Exchange inicia a etapa final de testes regulatórios, aguarda licenças da CVM e do BC no primeiro semestre de 2027 e prevê operar no fim do ano

Edição 390

Todos os testes, toda a discussão e conexão entre nós e a B3 estão fluindo bem”, afirmo o CEO da Base Exchange, Francisco Gurgel

A Base Exchange, nova bolsa de valores que operará a partir do Rio de Janeiro, está entrando na fase final de testes de seus sistemas. Controlada pela Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi, a Base começou a ser desenvolvida a partir da Flowa Technologies (antiga ATG), empresa de tecnologia para negociação eletrônica que atua no mercado brasileiro há 16 anos. Segundo o CEO da Flowa e da Base Exchange, Francisco Gurgel, a nova bolsa deve entrar em operação no fim de 2027, para quebrar o monopólio da B3 no mercado de ações, que já dura 26 anos.
A companhia está na fase dos testes regulatórios, última etapa do processo de autorização por parte dos órgãos reguladores. Eles envolvem a conexão com os serviços de liquidação, compensação e depositária da B3, que a bolsa foi obrigada a oferecer aos novos entrantes. “Todos os testes, toda a discussão e conexão entre nós e a B3 estão fluindo bem”, afirmou o executivo.
Os pedidos de autorização de funcionamento junto ao Banco Central e à CVM foram protocolados em 2023 e, segundo Gurgel, completam agora três anos. Ele atribui a demora à complexidade e ao ineditismo do caso, já que a Base será a primeira bolsa aprovada no país, e avalia que as licenças devem sair no primeiro semestre de 2027.
A Base deve operar, inicialmente, ações, ETFs (fundos de índice), FIIs (fundos imobiliários) e serviço de aluguel de ações. Os ativos serão os mesmos já listados na B3, ou seja, as empresas que fizeram IPO na B3 passarão a ser negociadas também na Base. Em uma segunda etapa, a nova bolsa passará a listar novas empresas e a operar BDRs (recibos de ações estrangeiras), mas a data ainda não está definida. Derivativos também estão no horizonte, igualmente sem prazo.
A proposta é operar com taxas menores do que as da B3. Para isso, a empresa aposta em tecnologia proprietária, construída do zero, e em uma estrutura enxuta. A equipe cresceu de 40 para 190 funcionários e deve chegar a 250 no início da operação, contra cerca de 2 mil da B3. Toda a diretoria e a equipe de gestão estão montadas há mais de um ano, incluindo executivos que vieram da B3, como os superintendentes de risco e de operações.
Gurgel diz que a oportunidade está em entregar um serviço melhor, atender demandas que a B3 não atende e ter uma estrutura de custos bem inferior para cobrar menos do investidor. Ele evita críticas diretas à B3 e ressalta que ela cumpre seu papel como única bolsa de uma economia do tamanho da brasileira.

Novas regras – A criação da Base só foi possível depois de uma disputa regulatória no Cade, o órgão que regula a concorrência. Quando o projeto surgiu, não havia no Brasil regras para a criação de novas bolsas, e a B3 negava aos novos entrantes o acesso aos serviços de liquidação, compensação e depositária, exigidos pela regulação. A Base denunciou a B3 ao Cade por atos anticompetitivos e, em 2019, o órgão reconheceu o mérito da denúncia, determinou que a B3 prestasse esses serviços a novos entrantes e pediu à CVM que revisse as regras do setor.
A CVM colocou o tema em audiência pública ainda naquele ano e, em junho de 2022, editou novas regras que entraram em vigor naquele mesmo ano. A nova norma reuniu num só texto as regras dos mercados regulamentados, incluindo a constituição, a organização e o funcionamento das entidades administradoras de mercado organizado, ou seja, das bolsas. Com ela, passou a existir um caminho formal para que uma nova bolsa peça autorização à CVM. O Banco Central também atualizou suas regras para a pós-negociação, etapa que engloba a compensação e a liquidação das operações. “O monopólio foi tecnicamente quebrado”, diz Gurgel.
Pouco depois da nova norma da CVM para a criação de outras bolsas, a Mubadala se interessou pela operação. Em 2023 o fundo comprou a antiga ATG (Americas Trading Group), empresa carioca pioneira que já fornecia infraestrutura e conectividade para o mercado de capitais e que tinha começado o desenvolvimento da nova bolsa. A operação passou a ser controlada majoritariamente pelo fundo de Abu Dhabi e foi separada em duas frentes complementares, a Flowa (ex ATG) e a Base Exchange. Parte dos antigos sócios permaneceu, em posições minoritárias.
Hoje a Flowa é a principal ponte da Base com o mercado de capitais. A empresa atende 100% das corretoras e cerca de 350 gestores de recursos por meio de uma tela de negociação multi-broker, e aproximadamente 8% do volume de ações negociado na B3 passa por seus sistemas. Segundo Gurgel, os atuais clientes da Flowa são os futuros clientes da Base.

Mercado carioca – O lançamento da Base promete ser o retorno da negociação de ações à cidade do Rio de Janeiro, onde deixou de acontecer após uma das maiores crises da história das bolsas brasileiras. Em 1989, a Bolsa do Rio foi abalada por um esquema de compras alavancadas de ações pelo então megainvestidor líbano-brasileiro Nagi Nahas. Como as negociações eram liquidadas cinco dias após a operação, no modelo D+5, Nahas e várias corretoras que operavam em seu nome compravam gigantescos lotes de ações, principalmente de Petrobras, Vale e Paranapanema, inflando seus preços. Com base numa valorização artificial que essas compras proporcionavam, Nahas tomava dinheiro emprestado dos bancos para cobrir os cheques dados em pagamento das operações e depois vendia os papéis com lucros enormes para quitar os empréstimos.
O esquema funcionou até que os grandes bancos, preocupados com a alta artificial das ações, que tinham subido mais de 1.000% em um ano, pararam de financiar as operações. Sem esse dinheiro, os cheques de Nahas começaram a voltar, quebrando várias corretoras. A crise durou vários anos, até que, em 2000, a negociação de ações passou a se concentrar em São Paulo, na Bovespa (atual B3), e a Bolsa do Rio desapareceu.