A euforia registrada na Bolsa no primeiro pregão após o resultado do primeiro turno das eleições, quando o Ibovespa avançou 7,7% na segunda-feira (5/10), não decorreu necessariamente de uma seleção criteriosa de bons papéis. Refletiu, sobretudo, a percepção de que a oportunidade era ampla: a renda variável estava próxima dos menores níveis das últimas duas décadas, enquanto os juros reais permaneciam muito acima da média observada nos últimos 20 anos. Nesse cenário, independentemente da avaliação individual dos ativos, valeria a pena ampliar a exposição.
“Mercados descontados criam uma situação rara em que o investidor não precisa escolher entre preço e qualidade. É como encontrar uma garrafa de Bordeaux pelo preço do vinho da casa”, avalia o head de renda variável da Bradesco Asset, Rodrigo Santoro Geraldes. Segundo ele, “níveis reduzidos de alocação e valuations deprimidos criam uma combinação rara em que o potencial de retorno parece superior ao risco implícito nos preços”.
Geraldes escreveu um artigo para a revista Investidor Institucional avaliando se era o momento de o investidor voltar à Bolsa. O texto foi publicado na última edição, mas um erro de diagramação suprimiu os dois últimos parágrafos e deixou a tese sem conclusão. Por isso, reproduzimos abaixo a íntegra do artigo:
“Em ano eleitoral, a Bolsa costuma ser tratada como um plebiscito diário. Mas a decisão de investimento deveria começar pelo ponto de partida, e não pela tentativa de antecipar o vencedor. O papel do investidor é avaliar assimetrias, não prever o futuro.
Hoje, esse ponto de partida merece atenção. Após anos de resgates, a exposição do investidor local à renda variável está próxima do menor nível das últimas duas décadas. O mesmo ocorre com os investidores estrangeiros em mercados emergentes e, consequentemente, no Brasil. Ao mesmo tempo, mesmo após o início do ciclo de cortes, os juros reais seguem muito acima da média observada nos últimos 20 anos. O resultado dessa combinação é um mercado negociando a múltiplos deprimidos, com diversas oportunidades em empresas de qualidade.
Parte das más notícias já parece refletida nos preços. Nesse contexto, uma eventual migração de recursos, domésticos ou estrangeiros, pode provocar uma reprecificação relevante dos ativos. Permanecer totalmente à margem pode significar voltar quando as oportunidades já não são tão evidentes.
Isso não justifica, porém, um retorno indiscriminado à Bolsa. Quem assumir o país em 2027 poderá encontrar uma economia ainda absorvendo os efeitos de um longo período de juros elevados, enquanto setor público, famílias e empresas convivem com níveis de endividamento significativos. Como a política monetária atua com defasagem, essa combinação pode restringir consumo, crédito e investimento, limitando o ritmo de crescimento da atividade.
A resposta fiscal após as urnas será determinante para a trajetória dos juros e para o prêmio de risco dos ativos brasileiros. Uma mudança de direção pode fazer com que o mercado antecipe um cenário mais favorável, mesmo diante de desafios relevantes no curto prazo.
Nesse ambiente, selecionar companhias tende a ser mais importante do que tentar antecipar o comportamento do Ibovespa. Múltiplos baixos, por si só, não constituem uma tese de investimento se os lucros estiverem ameaçados. Devem ganhar prioridade empresas com balanços robustos, baixa necessidade de refinanciamento, forte geração de caixa, poder de precificação e histórico consistente de alocação de capital. Já companhias excessivamente alavancadas ou dependentes de uma queda acentuada dos juros exigem maior cautela.
Mercados descontados criam uma situação rara em que o investidor não precisa escolher entre preço e qualidade. É como encontrar uma garrafa de Bordeaux pelo preço do vinho da casa.
A conclusão é que o investidor não precisa esperar a certeza para estar posicionado. Níveis reduzidos de alocação e valuations deprimidos criam uma combinação rara, em que o potencial de retorno parece superior ao risco implícito nos preços. Ao mesmo tempo, o ambiente macroeconômico ainda recomenda seletividade e disciplina. Nesse contexto, faz sentido reconstruir exposição gradualmente, preservando liquidez para aproveitar momentos de volatilidade. A eleição pode ser o gatilho para uma reprecificação, mas o retorno de longo prazo continuará vindo da escolha das boas empresas.”