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Edição 266
Para enfrentar a concorrência na captação de recursos de investidores estrangeiros, principalmente de fundos de pensão e fundos soberanos, o Pátria Investimentos está ampliando a presença física na América Latina. O maior gestor de recursos de private equity brasileiro, que conta com associação com a global Blackstone, abriu um escritório em Bogotá, em junho deste ano e prepara a inauguração de nova unidade em Santiago para julho de 2015. Os motivos para a ampliação são basicamente dois: a disputa pelos recursos de estrangeiros, que preferem cada vez mais mandatos regionais, e não apenas para um país específico; e o fortalecimento da atuação em países com boas perspectivas para o private equity.
“Por um lado temos os investidores estrangeiros que cada vez mais olham para a região como um todo, deixando de lado a estratégia ‘country-specific’. Por outro, queremos reforçar a captação e os negócios em outros países da região como Colômbia e Chile”, diz Otávio Castello Branco, sócio-diretor do Pátria, responsável pela área de fundos de infraestrutura. Ele explica que antes os investidores preferiam escolher um país específico, mas que a partir da crise de 2008 e 2009, essa visão passou a dar lugar às estratégias regionais, ou seja, que focam em regiões como América Latina, Oriente Médio ou Ásia.
Neste sentido, o Pátria tem aproveitado a mudança para ampliar a atuação em direção a outros países latinoamericanos como por exemplo o Peru, onde o gestor já conta com uma empresa investida, a Latin America Power (LAP). O Pátria investe na empresa, que tem atuação no setor energético no próprio Peru, Chile e Panamá, através do P2 Brasil que é seu fundo de infraestrutura criado em parceria com a Promon (empresa do setor de engenharia). Outra investida na região é a Bioritmo que, apesar de brasileira, começou a atuar no México há pouco mais de dois anos com novas academias de ginástica. Contudo, além de investir em empresas, o Pátria resolveu dar um sinal claro aos investidores ao abrir novas unidades na região.
A unidade da Colômbia contará com oito a dez profissionais, comandados por Andrés O’Brien, que é um executivo local. Dois ou três executivos do Pátria no Brasil devem ser deslocados para passar uma temporada na nova filial de Bogotá. Já o escritório do Chile terá de 3 a 5 executivos, mas a equipe ainda não foi formada. Com isso, o gestor mostra que está em condições de brigar de igual para igual com os grandes gestores globais que atuam na região. A Advent, por exemplo, tem três escritórios regionais, o principal deles no Brasil, um no México e outro na Colômbia.
Segundo especialistas, os fundos de private equity voltados para a América Latina estão em uma segunda grande rodada de captações. A primeira ocorreu entre 2010 e 2011, quando foram captados cerca de US$ 12 bilhões para os fundos da região. Apesar do aumento da demanda em 2014, o volume de recursos já não é tão abundante quanto na rodada anterior. “Os investidores estão mais seletivos na verificação da estrutura e track record dos gestores”, comenta Castello Branco.
Disputa acirrada – Na disputa direta com o Pátria estão gigantes globais como o Advent e o Carlyle, além da concorrência com os gestores domésticos como Gávea e BTG Pactual. O Advent é um dos gestores que têm se destacado nos últimos anos na atuação na América Latina e acaba de captar o maior fundo da história para a região. O sexto fundo da Advent para a região, o Latin America Private Equity Fund (Lapef VI) fechou com US$ 2,1 bilhões, superando o maior até então, um fundo da Gávea Investimentos que havia captado US$ 1,9 bilhão em 2011. O Pátria mostra que não ficou para trás, com o fechamento da captação, em agosto deste ano, em US$ 1,8 bilhão para seu mais recente fundo de private equity.
“Tivemos uma demanda bem forte para o fundo 5, na verdade, houve até sobredemanda. Acredito que isso se deve à boa performance de nossos fundos 3 e 4”, diz Marco Nicola D’Ippolito, sócio-diretor do Pátria, responsável pela área de private equity. Outro destaque foi o tempo de captação de seis meses, considerado reduzido.
É o quinto fundo de private equity do Pátria, que tem mandato para investir não apenas no Brasil, mas em todos os países da América Latina. Além deste, o gestor tem mais dois fundos em fase de captação, um de infraestrutura e outro fundo de participações (FIP) de base imobiliária (ver nota). Atualmente, o gestor já possui US$ 8,6 bilhões de ativos sob gestão (R$ 22,1 bilhões ao câmbio de R$ 2,58), mostrando forte crescimento em 2014 – em dezembro de 2013, o gestor contava com R$ 15,1 bilhões de ativos sob gestão segundo dados do ranking Top Asset da Investidor Institucional.
Entre os investidores se destacam os fundos de pensão estrangeiros, que são responsáveis por entre 20% e 30% dos recursos do novo fundo. Os destaques ficam por conta dos fundos de pensão dos EUA, Canadá e Ásia. Já os fundos de pensão europeus apresentaram redução da demanda neste novo fundo do Pátria. Um outro tipo de investidor que reduziu bastante a participação foram os hedge funds.
“Os fundos de pensão estrangeiros são nossos parceiros históricos, eles gostam de investimentos alternativos de longo prazo. Eles possuem passivos de mais de 25 anos e os private equities se adaptam às suas necessidades”, comenta D’Ippolito. Já os fundos de pensão domésticos ainda não aparecem com forte presença nos fundos de private equity, tanto do Pátria, quanto de outros gestores em geral. O novo ciclo de abertura dos juros dos títulos públicos tem incentivado a redução dos estruturados das fundações domésticas.
Investimentos – O fundo 4 de PE do Pátria já está na fase final de investimentos. Nos últimos meses, foram realizadas dez aquisições e negócios, que envolveram R$ 954 milhões. Por isso, o gestor abriu a captação para o fundo 5, que deve começar a investir a partir de 2015. Os tíquetes médios das empresas investidas deve girar em torno de R$ 260 milhões a R$ 400 milhões (entre US$ 100 milhões e US$ 150 milhões), nos mesmos setores dos fundos anteriores, que são educação, saúde, moradia, segurança e logística. “Vemos que os preços de ativos estão mais favoráveis para se realizar investimentos no mercado brasileiro”, comenta o D’Ippolito.
O gestor comenta que o componente contra-cíclico dos private equities favorece a atuação em momentos de baixo crescimento e dificuldades da economia, como o Brasil vem enfrentando nos últimos dois anos. “As empresas estão com dificuldades de acessar crédito ou realizar IPOs no mercado brasileiro, por isso, há melhores oportunidades”, diz o executivo da área de private equity do Pátria. Empresas de outros países da região também estão no radar, principalmente na Colômbia, Chile e Peru. O México também está no foco do Pátria, ainda que o gestor não tenha presença na América Central.
Concorrência – A Advent aparece neste momento como um dos principais concorrentes do Pátria, pelo menos no que diz respeito à atuação na América Latina. É uma das poucas gestoras globais, além do Carlyle, que possui um time local experiente. A Advent conta com uma equipe de 40 pessoas nos três escritórios da região, com destaque para a unidade brasileira, que conta com 17 profissionais. A equipe no Brasil atua desde 1996. Desde então, já captou US$ 6 bilhões para fundos na região. “Fizemos 46 aquisições e investimentos e vendemos 33 negócios”, diz Mário Malta, diretor de gestão da Advent. O executivo começou na empresa como trainee em 2003, agora ocupa posição de diretor.
O sexto fundo da Advent para América Latina teve captação recorde, de US$ 2,1 bilhões, superior ao quinto fundo, que havia captado US$ 1,65 bilhão em 2010. O processo de captação do fundo mais recente foi considerado também muito rápido, cerca de seis meses desde a abertura até o fechamento em outubro passado. “O novo fundo deve ampliar os investimentos no Brasil em comparação com o fundo anterior”, diz Malta. Ele prevê que cerca de 60% dos recursos serão investidos no mercado brasileiro. No fundo 5, houve cerca de 50% dos investimentos no Brasil.
Algumas das investidas mais conhecidas no Brasil são Dudalina, Dufry, Kroton e Cetip, das quais em algumas já foram realizados desinvestimentos. “É um bom momento para comprar no mercado brasileiro. As empresas estão com dificuldades de acessar crédito e, por isso, acabam recorrendo aos fundos de private equity”, diz Malta. Quanto aos investidores, o sexto fundo manteve uma média de 60% dos recursos captados junto a fundos de pensão e fundos soberanos internacionais, sendo metade dos EUA, cerca de 25% da Europa e o restante espalhado entre Ásia e América Latina.