Portfólios por IA são confiáveis?

Edição 385

Tema em debate
A gestão de investimentos por fundos quantitativos, em que a velocidade de processamento de informações é determinante, já se mostra mais eficiente que a humana em diversas situações. Com o avanço da inteligência artificial, esse modelo começa a se expandir para além dos quants, alcançando a própria construção de portfólios. Já se fala em estruturar carteiras completas por IA, com modelos capazes de diversificar entre classes de ativos e alinhar rentabilidade às necessidades atuariais dos planos. Nesse cenário, em que o papel do gestor tende a migrar da tomada de decisão para a supervisão de modelos, como ficam as exigências de governança, transparência e responsabilidade fiduciária de fundos de pensão e RPPS?

Luiz Rodolfo Ribeiro, fundador e CEO da startup Realia

Luiz Rodolfo Ribeiro, fundador e CEO da startup Realia
Estamos no início da maior revolução tecnológica da história. A inteligência, que antes era restrita a poucos, passa a ser abundante e acessível. A pergunta deixa de ser quem tem acesso e passa a ser quem consegue usá-la melhor.
Assim como em outras revoluções, precisamos reinventar a forma de trabalhar. Usar Inteligência Artificial para construir portfólios não é só adotar uma nova ferramenta. É desenvolver um novo modo de pensar, em que humanos e máquinas colaboram de forma complementar.
Vejo isso de perto no MIT. Os profissionais que usam IA com excelência não se contentam com soluções genéricas. Eles constroem agentes de IA com contexto completo, alimentados por boas fontes de informação, conectados a ferramentas, com memória do que já foi feito e com regras claras sobre seus limites. Essa combinação torna a IA muito mais confiável.
Nas últimas décadas, empresas como a Renaissance Technologies, gestora mais bem sucedida da história com retorno bruto de 66% ao ano por décadas, já faziam uso intenso de dados e de modelos matemáticos complexos para se gerar retornos superiores e consistentes.
A diferença agora é que com a evolução dos modelos de linguagem e dos agentes de IA, gestores passam a interpretar performance dos ativos, dados macroeconômicos, resultados corporativos e o sentimento dos investidores com mais contexto e velocidade. A análise deixa de ser majoritariamente numérica e passa a incorporar narrativa e entendimento do cenário.
Lembro da época em que contribuía para a macroalocação de um grande fundo de pensão. Éramos um time pequeno com uma responsabilidade enorme. Ter uma equipe de IA confiável ao nosso lado teria transformado a construção e o rebalanceamento do portfólio.
Portfólios montados com apoio de IA são tão confiáveis quanto o desenho desses sistemas e a supervisão humana sobre eles. Não se trata de substituir o gestor, e sim de ampliar sua capacidade de análise, execução e disciplina. Isso porque a IA eleva o padrão do que é possível. Quem aprender a utilizá-la bem terá uma vantagem clara na construção de portfólios mais robustos, eficientes e consistentes ao longo do tempo.

 

Gustavo Ottoni, gestor sênior de Fundos de Fundos da BNP Paribas Asset Management

Gustavo Ottoni, gestor sênior de Fundos de Fundos da BNP Paribas Asset Management
A difusão das aplicações de inteligência artificial (IA) e o desenvolvimento acelerado de modelos mais eficientes suscitam um debate inevitável: a IA substituirá completamente o gestor humano na alocação de recursos das EFPCs? Embora os algoritmos processem enormes volumes de dados em milissegundos, ainda lhes falta sensibilidade para fatores qualitativos – como mudanças regulatórias, questões geopolíticas e as preferências dos participantes. Em conjunturas inéditas, como a pandemia de COVID‑19, os padrões históricos perdem validade e surgem respostas inesperadas, exigindo julgamento que vai muito além de modelos estatísticos.
Nessa perspectiva, a interação entre gestores experientes e IA mostra‑se essencial. A tecnologia automatiza tarefas rotineiras, gera análises de risco detalhadas e amplia a capacidade de testar cenários, liberando tempo para que o profissional avalie a conjuntura macroeconômica, dialogue com a entidade e ajuste a estratégia às necessidades específicas de cada EFPC. Essa geração de valor não elimina a responsabilidade ética nem a prestação de contas, que continuam sendo atribuições do gestor humano. Cada mandato possui particularidades, e podemos dizer que o contato direto com o cliente é fundamental para parametrizar a IA de modo que o modelo reflita as metas de longo prazo e a tolerância ao risco da entidade.
Não é prudente chegar a uma conclusão definitiva nesse tipo debate, pois ainda não conhecemos os limites do avanço das aplicações de IA. Mas, por enquanto, não podemos declarar a extinção do gestor humano da forma como o conhecemos hoje. Até porque a combinação humano‑máquina maximiza a produtividade e eleva a qualidade do serviço.
No contexto dessa discussão cabe a seguinte reflexão: Você voaria em um avião sem piloto? Deixaria seus filhos sob vigilância eletrônica exclusiva? Contrataria um gestor de recursos sem sequer entrevistá‑lo, confiando apenas no currículo enviado?