Novas oportunidades | Saída de grandes bancos da administração de...

Edição 295

 

A restrição de grandes bancos em fechar negócio com gestores independentes para fazer a administração fiduciária de fundos estruturados abriu uma oportunidade para casas menores surgirem e se especializaram nesse tipo de fundo. Esse é um movimento que têm sido visto nos últimos três anos por conta das constantes denúncias de Fundos de Investimento em Participações (FIPs) e Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (Fidcs) com problemas no mercado. Por conta disso, os administradores maiores reduziram bastante a aceitação desses produtos em suas carteiras, a menos que eles participem da estruturação do fundo. “Dificilmente os grandes players têm aceitado produtos de terceiros, até porque pela Comissão de Valores Mobiliários, eles acabam respondendo por isso”, diz o sócio da consultoria I9, Jordanno Santos.
A saída para os gestores é buscar administradores menores e mais flexíveis em relação a esses veículos de investimento. E as assets, que até então se deparavam com uma dificuldade em encontrar um administrador para seus fundos estruturados, têm conseguido lançar seus produtos junto a esses players. Esse é o caso da Integral Investimentos. Segundo o sócio-diretor da gestora, Bruno Amadei Júnior, havia uma visão de que esse mercado estava bem restritivo, mas agora há o aparecimento de algumas alternativas de players que mudam o viés da indústria de estruturados. “Como usuário de serviços fiduciários, estou vendo outras casas entrarem no mercado para criar um contraponto para esse serviço”, destaca.
O gestor explica que isso é um bom sinal, já que quando a economia começar a apresentar um ciclo mais positivo de negócios, de alguma forma o prestador de serviço fiduciário acaba avaliando que risco quer tomar e o gestor vê as oportunidades de lançar seus fundos de acordo com essa disponibilidade. “O atual ciclo de negócios é de recuperação. Vimos do ano passado para cá a entrada de novos players no mercado, o que dá uma visão de que há um trabalho com seleção de oportunidades. As plataformas estão melhor estruturadas e mais seletivas, então é possível trabalhar com essas transações de maneira mais segura”, salienta.
O diretor da Riviera Investimentos, Márcio Guimarães, compartilha da mesma visão. Para ele, os pequenos administradores estão ocupando um mercado que estava mais restritivo, e isso é positivo. “Nós, como gestores, estamos incentivando a entrada desses novos players, apostando nisso, pois o mercado não é feito só de grandes”, diz. O executivo complementa que enquanto os grandes bancos estão optando pela administração exclusivamente de seus próprios fundos, quem é puramente administrador de carteira vai criar seu mercado.
E uma das casas que têm aproveitado as oportunidades com administradora de fundos é a Socopa. O diretor de administração fiduciária da instituição, Daniel Doll Lemos, salienta que em função da saída dos grandes bancos desse mercado, restaram poucos players, e o crescimento do Socopa foi expressivo nos últimos três anos por conta disso. “Em 2015, tínhamos R$ 6 bilhões sob administração de recursos de Fidcs. Hoje temos R$ 12 bilhões”, destaca. A casa conta com mais 200 Fidcs em sua carteira. Para Lemos, o mercado não deve ficar restrito por muito tempo, e outras casa devem surgir oferecendo esse tipo de produto. “Vamos ver, com a queda da taxa de juros, um mercado com mais operações estruturadas”, opina.

Especialização – Jordanno Santos destaca que o fato dos administradores menores estarem entrando nesse mercado com mais força mostra uma especialização do segmento de investimentos estruturados. “Às vezes os menores dão um direcionamento até maior para esse produto, pois eles têm uma parcela em administração financeira menor do que os grandes bancos, então podem se focar mais nesse tipo de estratégia”, complementa.
Bruno Amadei Júnior corrobora a visão do consultor e diz que, conforme novos players surgem no mercado, há mais projetos com uma finalidade específica. “Plataformas são criadas para melhorar a gestão do risco, o que faz com que a visão ruim em relação ao mercado não seja verdade. O mercado está tentando buscar alternativas”, destaca.
Por outro lado, investidores institucionais podem ter limitações para trabalhar com um administrador pequeno, enquanto os privados não possuem nenhuma restrição. Ainda assim, Márcio Guimarães acredita que há diversos benefícios em se trabalhar com administradores que estão entrando nesse mercado. “Administradores mais novos são mais ágeis, possuem sistemas de inteligência e atendimento melhor, e são mais focados”.

Retorno – Mas os grandes bancos não devem ficar fora desse mercado por muito mais tempo. Daniel Lemos, da Socopa, destaca que algumas decisões judiciais relacionadas a responsabilidade dos administradores em relação às fraudes ocorridas em alguns fundos foram julgadas positivas no sentido de que a responsabilidade não pode ser dada ao administrador. “Se as decisões continuarem com esse viés, ao longo do tempo o administrador e custodiante voltarão a esse mercado”, opina.
A decisão mais recente em relação a esse tipo de fundo foi a do Fidc do Trendbank. O novo administrador do fundo vinha buscando o ressarcimento das perdas dos investimentos realizados em uma carteira de créditos fraudulentos, e uma decisão judicial avaliou que os antigos administradores e custodiantes não tinham relação com o dano causado ao fundo, cumprindo com as obrigações que lhes cabiam à época. A decisão ainda deve passar por outras instâncias mas para Amadei Jr., da Integral, a notícia é positiva e demonstra um indicativo que se essa interpretação for levada a outras instâncias, o mercado estará mais resguardado.
Jordanno Santos, da I9, complementa dizendo que além dessas decisões de fato estarem surgindo, o mercado não poderá generalizar por muito mais tempo um produto em função de um problema que ele deu eventualmente. “Os fundos estruturados são importantes. Eles de fato demandam um tempo específico para estruturação e controle, mas não necessariamente isso é negativo”.
Daniel Lemos ressalta que ao olhar a quantidade de fundos que estão no mercado, os que deram problemas ainda são poucos. “A visibilidade desses fundos quando há algum problema é maior do que quando outros instrumentos também têm problema. E se olharmos as carteiras dos Fidcs com um volume de transações em um prazo não muito longo, o percentual que deu problema é abaixo de 1%. O que atrapalha a indústria é esse 1%, mas a ferramenta e o normativo trazem proteção aos investidores”, complementa.
Bruno Amadei Júnior salienta que há discussões mais estruturais ocorrendo no momento no sentido de que o mercado deve encaminhar agendas de melhorias desses fundos aos órgãos reguladores. “Está sendo discutido como tratar certos riscos e encaminhar soluções para esse mercado. Mas isso é uma agenda de longo prazo. Por enquanto, gestores devem buscar transações com menor risco, e tantos as assets como os administradores e investidores devem saber o que fazer para se proteger”, complementa.