Edição 294
A recessão econômica brasileira dos últimos dois anos promete manter aquecido, provavelmente ainda por um bom tempo, o mercado de créditos podres. Os grandes bancos, assim como gestores de recursos, vêm aumentando sua participação nesse segmento, colocando cada vez mais carteiras de créditos podres à venda. A empresa de investigação e recuperação de ativos Localize deve lançar um FIDC, em parceria com uma gestora, para comprar até R$ 300 milhões em créditos podres no mercado, os chamados ‘distressed debts’.
Segundo o CEO da Localize, Rafael Nogueira, por questões contratuais o nome da gestora ainda não pode ser divulgado. “Com os recursos que pretendemos levantar vamos comprar alguns bilhões em dívidas”, afirma Nogueira. Ele diz que o foco do fundo serão dívidas de grande monta, que giram na casa dos R$ 20 milhões a R$ 30 milhões.
Basicamente, a atividade da Localize é prestar serviços para bancos e outras instituições financeiras, recuperando suas carteiras podres. De acordo com Nogueira, o processo de venda de carteiras podres dos bancos comerciais teve uma queda nos últimos meses, porém aumentou a demanda por parte de gestoras que começaram a fazer uma análise mais minuciosa de suas carteiras inadimplentes para tentar obter algum retorno. Além delas, Nogueira dizque as fundações também estariam demandando essa modalidade de serviço através de bancos e gestoras. A empresa quer passar a atender diretamente as entidades.
Outra empresa que atua nesse segmento de recuperação de créditos podres é a Canvas Capital. Rafael Fritsch, sócio da empresa, conta que nos últimos meses o mercado de créditos podres movimentou um volume “bem aquém do que poderia ser”, tendo em vista o ambiente econômico ainda fragilizado internamente, com uma série de recuperações judiciais e bancos ainda com uma postura restritiva na liberação de créditos. “Esperamos um volume bem maior para o segundo semestre”.
Um caso recente no qual a Canvas investiu na compra de títulos vencidos foi o da Eneva, atual nome da antiga MPX que pertencia ao empresário Eike Batista. “Conseguimos investir um volume razoável de caixa na Eneva, fizemos um desembolso relevante. Nosso foco não é o investimento pelo valor de face dos papéis, mas o valor que conseguimos desembolsar em um ativo em que enxergamos bom potencial de recuperação”.
A Canvas tem atualmente cerca de R$ 1,2 bilhão distribuídos em três diferentes fundos de ‘distressed’, sendo que a maior parte desse montante ainda está disponível para comprar carteiras estressadas no mercado nos próximos meses. A composição dos recursos dos fundos se concentra principalmente em investidores profissionais e institucionais, tanto locais como também estrangeiros.
Fritsch nota que as fundações começam, ainda timidamente, a considerar opções para atuar mais no mercado de créditos ‘defaultados’. “Os fundos de pensão têm buscado mais os gestores para ajudar na recuperação das carteiras próprias, e um movimento subseqüente que esperamos que seria ainda mais interessante é a venda parcial das carteiras, fazendo licitações, processos públicos, com a monetização de créditos que hoje estão marcados à zero”.