Edição 286
As empresas negociadas em bolsa já fizeram os ajustes para atravessar uma das piores recessões econômicas que o país sofreu, e a perspectiva de uma recuperação do PIB em 2017 deve fazer com que essas companhias tenham ganhos importantes nos próximos meses. A análise é de Luiz Augusto Candiota, sócio-fundador da Lacan Investimentos, que foi diretor de política monetária do Banco Central quando Henrique Meirelles era o presidente da autoridade monetária, no primeiro mandato do presidente Lula. O especialista, que também foi diretor executivo do Citibank, e atua como membro do conselho de ética da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), fala também sobre sua visão sobre as ações de companhias estatais e sobre oportunidades no segmento de estruturados. Leia a seguir a entrevista exclusiva concedida à Investidor Institucional.
Investidor Institucional – Qual sua avaliação da Bolsa doméstica?
Luiz Augusto Candiota – Quando você olha o cenário macro do Brasil, que vem passando por uma turbulência política e econômica nos últimos anos e olha o cenário micro, das empresas cotadas em bolsa, e o cenário global, colocando todos esses riscos numa panela, parece que há uma oportunidade na bolsa brasileira. Grande parte de boas empresas brasileiras cotadas em bolsa fizeram ajustes severos de custos, e estariam prontas para retomar resultados expressivos mesmo que numa recuperação cíclica da economia nos próximos anos.
II – O pior já ficou para trás entre as empresas negociadas na Bolsa?
LAC – A crise econômica prejudicou muito os resultados das empresas, sem dúvida nenhuma, mas elas estão na lei de sobrevivência e tiveram que se ajustar. As empresas já se ajustaram, e portanto irão se beneficiar de uma recuperação cíclica nos próximos anos. Por isso acho que o incremento da alocação em renda variável deveria começar a ser feito o quanto antes. Diria que as empresas fizeram ajustes à frente do governo. O governo tem ajustes por fazer e, por isso, o prêmio de risco do governo deverá seguir ainda elevado. Mas as empresas já o fizeram.
II – Qual o perfil de empresas que os institucionais devem mirar na bolsa?
LAC – Empresas de baixa alavancagem financeira, porque o custo de capital no Brasil é muito elevado, empresas com capacidade de alavancagem operacional, o que significa que ela é capaz de escalar seu negócio sem incrementar muito o custo, então ela aumenta a margem, empresas líderes nos seus segmentos, de boa governança, e geradoras de fluxos de caixa consistentes. E nós entendemos que hoje é possível garimpar um universo de vinte empresas que estão nesse hall de oportunidades, que preenchem esses requisitos.
II – Bancos têm recolocado as ações de estatais como a Petrobras em suas carteiras de recomendações para os investidores. Qual sua avaliação sobre empresas com esse perfil?
LAC – As estatais sofrem um tipo de oscilação que vai além do fundamento econômico das empresas. Nós não fazemos alocações em empresas estatais, não porque possam ser bom ou mau negócio, é porque há um componente na gestão da empresa estatal que nós não controlamos, que é um componente político. Certas horas esse componente político está mais ativo, certas horas esse componente político está menos ativo. E portanto ele pode estar em conflito ou não com o interesse do minoritário. Envolveria uma capacidade de adivinhação de como a empresa será utilizada politicamente, e isso acho que não é recomendável. É um risco que não dá para correr
II – Além da renda variável, quais são outros mercados com oportunidades a serem aproveitadas?
LAC – Acreditamos no mercado florestal, em certos nichos do mercado imobiliário, e nesse caso são realmente alguns poucos nichos, porque houve muito investimento no mercado imobiliário, e alguns deles estão saturados para os próximos anos. Mas há certos nichos em que pode haver ainda demanda reprimida, e talvez projetos na área no uso de energia renovável, mas a definir ainda.
II – A Lacan avalia lançar novos produtos em alguns desses mercados citados?
LAC – A casa sempre está de olho em produtos de longo prazo com forte geração de fluxo de caixa em bons projetos. Esse é o nosso nicho para as entidades de previdência, fundos de ações, fundos florestais e fundos imobiliários cujas empresas sejam geradoras de resultado e de fluxo de caixa.