Gestores limitam resgates de fundos de crédito privado nos EUA

Os dois maiores nomes do mercado global de crédito privado, BlackRock e Blackstone, começaram a impor limites aos resgates em alguns de seus principais fundos nos Estados Unidos, em meio ao aumento da cautela dos investidores e à pressão sobre um setor que movimenta trilhões de dólares. O movimento reacendeu discussões sobre os riscos de liquidez desses veículos e levou parte do mercado a traçar paralelos com as tensões que antecederam a crise financeira de 2007-2008.

A BlackRock, maior gestora de recursos do mundo, limitou os saques em seu HPS Corporate Lending Fund, veículo de cerca de US$ 26 bilhões especializado em empréstimos privados a empresas. Investidores já solicitaram resgates equivalentes a 9,3% do patrimônio do fundo neste trimestre, acima do limite de liquidez previsto no regulamento, mas a gestora permitiu retiradas de apenas 5% do valor dos ativos, aproximadamente US$ 620 milhões, conforme as regras do produto.

Esse limite existe porque os ativos do fundo — empréstimos corporativos negociados de forma privada — não podem ser vendidos rapidamente sem perdas significativas. A própria BlackRock afirmou que a restrição faz parte da estrutura de liquidez do fundo, criada para alinhar investimentos de longo prazo com a possibilidade de resgates periódicos.

Já a Blackstone, maior gestora global de ativos alternativos, enfrentou forte demanda por saques em seu fundo de crédito privado BCRED, com US$ 82 bilhões em ativos. Investidores já pediram cerca de US$ 3,7 bilhões em resgates neste trimestre, até o momento, o que levou a gestora a elevar temporariamente o limite de retiradas e a injetar cerca de US$ 400 milhões de recursos próprios e de executivos para atender às saídas.

Segundo analistas, o aumento dos pedidos de retirada reflete um clima mais cauteloso entre investidores, que passaram a questionar a qualidade de alguns créditos privados e o nível de transparência desse mercado, que cresceu rapidamente na última década.

Pressão em todo o setor – A tensão não se limita às duas gigantes. Outras gestoras também enfrentam pressões semelhantes. A Blue Owl Capital, por exemplo, chegou a suspender temporariamente resgates em um de seus fundos e vender ativos para levantar liquidez e pagar investidores que queriam sair.

A preocupação está ligada ao próprio modelo desses produtos. Fundos de private credit costumam oferecer resgates periódicos — trimestrais ou mensais — enquanto investem em ativos altamente ilíquidos, como empréstimos diretos a empresas de médio porte. Quando muitos investidores pedem saída ao mesmo tempo, os gestores podem ser obrigados a limitar resgates ou vender ativos com desconto.

Reação dos institucionais – Apesar do aumento da cautela, os grandes investidores institucionais — como fundos de pensão e seguradoras — continuam, em grande parte, comprometidos com o setor. Esses investidores usam o crédito privado como alternativa para obter retornos superiores aos da renda fixa tradicional em um ambiente de juros mais baixos.

Ainda assim, o aumento dos pedidos de resgate em fundos voltados ao varejo de alta renda sugere uma mudança no sentimento do mercado. Alguns analistas afirmam que o setor entrou em um momento de “teste de estresse”, no qual investidores passam a exigir maior liquidez e transparência.

Comparações com 2008 – O episódio também reacendeu comparações com a crise financeira global de 2008. Naquele período, vários fundos estruturados e veículos de crédito tiveram de restringir saques ou suspender resgates quando investidores tentaram retirar recursos ao mesmo tempo.

Analistas destacam, no entanto, que existem diferenças importantes. Ao contrário de 2008, grande parte do crédito privado hoje é financiada por capital de longo prazo de investidores institucionais, e não por financiamento bancário altamente alavancado. Além disso, as perdas efetivas em empréstimos privados ainda permanecem relativamente contidas, mesmo com o aumento de defaults observado em alguns setores.

Ainda assim, o episódio serve como alerta para um mercado que cresceu rapidamente. O crédito privado já soma cerca de US$ 2 trilhões em ativos globalmente, tornando-se uma das áreas mais importantes — e também mais debatidas — das finanças internacionais.