Gestoras aquecem os motores | Estrangeiros aproveitam mudanças no...

Edição 287

 

Quem se prepara antecipadamente para uma corrida tem grandes chances de ter uma performance acima da média em relação aos competidores. Esse tem sido o princípio de gestores que têm atuação no segmento de infraestrutura. Eles estão reforçando equipes e aproveitando a boa oferta de capital humano no mercado para estruturar novos fundos de investimentos de infraestrutura.
O setor passou a ser visto como uma promessa no atual cenário de redução da taxa básica de juros, por também ter sido alvo de um programa de concessões sob novas regras regulatórias, dentre as quais um modelo de financiamento mais dependente do mercado de capitais e menos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Apesar da expectativa positiva, que já elevou o número de consultas de investidores internacionais, a corrida do institucional local para ativos de infraestrutura deve ocorrer em médio e longo prazos – passado os leilões e estabelecida a trajetória de redução da Selic. Em um cenário como esse, as fundações precisarão garantir retorno para bater a meta atuarial com novos recursos arrecadados.
Os fundos de pensão, apesar dos problemas que possam ter tidos com o risco de Fips (Fundos de Participação em Investimentos) de infraestrutura, devem seguir em direção a eles quando o momento chegar, segundo os consultores Everaldo França e André Aloi, sócios da PPS. Os consultores têm recebido consulta de fundações que já buscam investimentos que gerem fluxo de caixa e não apenas valorização de capital, pensando no momento seguinte à queda dos retornos atrelados à taxa de juros.
“No médio e longo prazos, as grandes voltarão a olhar ativos em infraestrutura, após fazer uma limpeza nas carteiras com Fips que causaram problemas. É o que sempre digo: a culpa nunca é do veículo de investimento, seja Fip ou Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios). É preciso ter bons projetos e bons gestores”, afirma França.
Com investimentos em dois Fips de infraestrutura na carteira desde 2013 e 2014, a Fundação Copel é uma das entidades que continua estudando esse mercado, atenta ao fechamento da taxa de juros.
Hoje, dos R$ 9 bilhões de patrimônio, 2% estão alocados nesses veículos e o objetivo é que essa proporção alcance 3,5% da carteira, segundo José Carlos Lakoski, diretor financeiro da Fundação Copel.
“Determinamos uma política de investimentos e temos executado de forma gradual. Escolhemos gestores que diversificam nossa atuação em infraestrutura, com todos os cuidados e gerenciamento de riscos que essa classe de ativo demanda”, afirma.
Segundo Lakoski, hoje a fundação trabalha com sete gestores para cuidar do segmento de private equity, sendo dois deles apenas no setor de infraestrutura. “Devemos continuar esse processo de forma cautelosa, qualificando a equipe para buscar um prêmio extra que a taxa de juros não vai proporcionar em um momento próximo”, diz.

Termômetro – O termômetro das assets para a aposta em veículos de investimento de infraestrutura, por enquanto, é o apetite do investidor internacional – principalmente os Family Offices e Hedge Funds que não têm travas para investir em países sem grau de investimento.
Ainda assim, trata-se de um processo decisório de longo prazo, que deve se concretizar entre o primeiro e o segundo trimestre de 2017, segundo José Guilherme Souza, sócio da Vinci Partners, que já captou cerca de R$ 2 bilhões em dois fundos de equity e um de crédito privado, ambos com ativos de infraestrutura. Em abril, a gestora abriu um quarto fundo de investimento em participações de infraestrutura para captação, cuja maior demanda tem vindo do investidor internacional.
Esse movimento, segundo ele, não resulta apenas de expectativas otimistas em relação ao Brasil, mas também à busca de retornos. A estimativa de uma pesquisa realizada pelo Fórum Econômico Mundial é que US$ 16 trilhões de recursos de investidores internacionais estejam alocados em aplicações que remuneram com taxa zero ou negativa. “É um dinheiro que está queimando na mão de instituições financeiras. Quem não depende de grau de investimento para voltar a investir no Brasil está analisando oportunidades”, diz.
Souza conta que também está investindo na equipe para executar os projetos. Hoje, são sete profissionais dedicados ao setor de infraestrutura, private equity, crédito e regulação. “Trouxemos dois do ano passado para cá. Quando fecharmos a captação do fundo devemos agregar mais um ou dois profissionais”. O sócio da Vinci conta que o novo produto terá, em maior proporção, ativos que já estão em operação, com a menor parcela investida em projetos em desenvolvimento no setor de transmissão de energia.
Outra gestora que está reforçando equipes e estruturando um fundo de participações de infraestrutura é a TRX, que tem cerca de R$ 100 milhões investidos em quatro ativos nas áreas de logística e energia solar. Além de trazer para a sociedade Carlos Massaru Takahashi (ex-BB DTVM), a gestora dobrou a equipe desde 2015. “A aposta em pessoas é importante porque oportunidade de investimento e de capital não faltarão. O que vai faltar é capacidade de execução porque há poucas gestoras especializadas em infraestrutura. Estamos esquentando os motores antes de começar a corrida”, afirma Júlio Zogbi, sócio e responsável pela TRX Infraestrutura.
Segundo Zogbi, a gestora está levantando mais R$ 200 milhões de capital para 2017 e analisa ativos em operação e em estágio inicial de desenvolvimento dos setores de energia renovável e saneamento.
Apesar de institucionais terem ficado de certa forma traumatizados com Fips, o sócio da TRX lembra que o desempenho desse tipo de investimento depende de bons projetos, profissionais e de uma gestão ativa. “Colocamos capital do investidor no risco apenas quando o projeto tem licenças e está pronto para ser construído. Os fundos têm oferecido taxas de retorno acima de 25% ao ano, com prazo médio de cinco anos de maturação e expectativa de múltiplo de três do capital investido”, afirma.
A expectativa de mudanças no setor de infraestrutura já é sentida no lado do empreendedor e do investidor. Na ponta dos empreendedores, interessados nas concessões, aumentou o número de consultas na área de Project Finance do BNP Paribas, segundo Gaétan Quintard, gerente executivo da área no banco. “As consultas aumentaram e investidor internacional quer entender melhor o modelo proposto pelo governo. Nossa área ajuda a levantar recursos para a execução do projeto, apoiando garantias”, afirma.
Segundo Quintard, quando o BNDES financiava todo o projeto, esse perfil de investidor ficava fora das rodadas. Agora, com banco de desenvolvimento financiando uma parte do projeto ou à uma proporção menor de TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), será inevitável a emissão de debêntures para financiar os novos projetos que serão leiloados.
Atenta à necessidade do capital privado para o investimento em infraestrutura e nos próximos movimentos dos investidores, a BNP Asset Management está estruturando um fundo de crédito privado e debêntures de longo prazo com foco exclusivo nesse setor. Hoje a gestora tem um total de R$ 45 bilhões de ativos sob gestão. Destes, R$ 9 bilhões estão em crédito privado – que tem uma proporção de 65% em ativos de infraestrutura.
O veículo do novo fundo ainda não foi determinado, e poderá ser um Fip, Fidc ou de categoria da instrução 555 CVM, segundo Luiz Eugênio Figueiredo, responsável pela área de investimentos alternativos da BNP Paribas Asset Management. Ele avalia que após um período de desaceleração no mercado de debêntures, há um cenário propício para a retomada. “Em conversas com investidores, notamos que a busca pela diversificação em investimentos estruturados e retornos diferenciados está voltando. Quando a Selic baixar, eles precisarão buscar um retorno maior e a conta vai fechar. As debêntures de infraestrutura não precisarão pagar uma taxa tão elevada para atraí-los, o que será interessante para o financiamento do projeto. Vai ficar interessante para as duas pontas”, conclui.