É o fim dos multimercados?

Análises de: Jair Ribeiro e André Leite

Edição 388

Linha de frente
Depois de anos de resultados frustrantes, uma pergunta começa a ganhar espaço entre investidores: os multimercados vão acabar ou atravessam apenas uma fase ruim? A provocação não vem só do avanço da renda fixa, embora os juros elevados tenham tornado o CDI um concorrente difícil de superar. O ponto central é que muitos multimercados, mesmo tendo liberdade para atuar em diferentes classes de ativos – juros, moedas, bolsa, crédito, exterior e derivativos –, vêm entregando retornos abaixo do CDI de forma recorrente. Isso coloca em xeque a capacidade de geração de alfa de uma indústria que sempre vendeu flexibilidade, sofisticação e retorno absoluto. De um lado, críticos veem uma perda estrutural de atratividade, reforçada pela saída de recursos e pela absorção de boutiques por casas maiores. De outro, defensores argumentam que a classe não acabou: apenas enfrenta um ciclo adverso, no qual muitos gestores erraram leitura macro, timing e posicionamento.

 

Jair Ribeiro, especialista em investimentos de EFPC da UniAbrapp

Jair Ribeiro: Depois de anos de resultados frustrantes, uma pergunta começa a ganhar espaço entre investidores: os multimercados vão acabar ou atravessam apenas uma fase ruim? A provocação não vem só do avanço da renda fixa, embora os juros elevados tenham tornado o CDI um concorrente difícil de superar. O ponto central é que muitos multimercados, mesmo tendo liberdade para atuar em diferentes classes de ativos – juros, moedas, bolsa, crédito, exterior e derivativos –, vêm entregando retornos abaixo do CDI de forma recorrente.Os fundos de pensão (EFPC) são investidores profissionais importantes na gestão de recursos, sendo referência para as aplicações financeiras. Especialmente os Planos de Contribuição Definida (CD), atualmente representando mais de 50% da população previdenciária das EFPC, refletem bem o posicionamento em relação aos fundos multimercados (MM).
As alocações em MM sempre estiveram distantes do limite máximo legal de 15%, mesmo nos ciclos de taxa de juro em baixa.
Mas o desinteresse ficou mais claro nos últimos três anos. Nos estudos de desempenho da Aditus os Planos CD chegaram a alocar, em média, 7% do patrimônio em MM, declinando para 3% do patrimônio em junho de 2026.
As causas do desinvestimento têm fator primário e secundário. O fator primário está associado à alteração nas variáveis-chave de otimização de carteiras com a alta expressiva da taxa Selic e do rendimento real das NTN-B, fato que surpreendeu muitos gestores e desfigurou o chamado “kit Brasil” – uma das estratégias mais tradicionais dos multimercados.
O fator secundário está associado ao desempenho aquém do esperado da classe, com perdas consistentes para o CDI, e poucos gestores de MM têm gerado alfa para os investidores. O efeito da diversificação tática pouco funcionou e os fundos de fundos (FIC) decepcionaram devido à alta correlação entre os retornos.
A extinção dos MM nos parece um grande exagero, o segmento vai se acomodar e, nesse cenário mais ajustado, a alocação média dos fundos de pensão e dos Planos CD deverá permanecer relativamente baixa, talvez inferior aos atuais 3% nos próximos cinco anos ou enquanto permanecerem os fatores primário e secundário aqui citados.

 

André Leite, CIO da TAG Investimentos

André Leite: A guerra envolvendo o Irã, no fim de fevereiro, expôs uma fragilidade importante da indústria brasileira de fundos multimercados. Embora sejam vendidos como instrumentos de diversificação e gestão ativa, a maioria dos gestores estava posicionada de forma muito semelhante, concentrando apostas na queda da Selic, na valorização da Bolsa e na apreciação do real. Quando o choque geopolítico elevou o preço do petróleo, pressionou as expectativas de inflação e provocou uma forte abertura da curva de juros, os fundos sofreram perdas simultâneas. Mais do que a magnitude das perdas, chamou atenção a baixa dispersão dos resultados: mais de 70% dos fundos encerraram o período no vermelho, evidenciando que muitos carregavam, na prática, o mesmo risco.
Realizamos um estudo na TAG Investimentos que mostra que esse comportamento decorre do chamado crowded trade, quando diferentes gestores replicam essencialmente a mesma estratégia. Nessa situação, a prometida diversificação entre gestores perde efetividade, pois o investidor acaba adquirindo diferentes “embalagens” para uma exposição praticamente idêntica ao chamado “kit Brasil”. As simulações indicam que uma carteira passiva composta por ETFs representativos dos principais fatores de risco domésticos entregou, em horizontes relevantes, desempenho semelhante ou até superior ao Índice de Hedge Funds da Anbima (IHFA), com custos significativamente menores. Em outras palavras, parte relevante da indústria tem oferecido beta de mercado com preço de alfa, cobrando elevadas taxas de administração e performance por uma estratégia que pode ser replicada de forma muito mais eficiente.
A indústria de multimercados atravessa uma mudança estrutural, e não apenas um período de desempenho fraco. Em um ambiente de maior acesso a ETFs, estratégias quantitativas e gestão passiva de baixo custo, sobreviverão os gestores capazes de entregar retornos genuinamente descorrelacionados e fontes de alfa que não possam ser reproduzidas facilmente. A verdadeira diversificação não está na quantidade de gestores da carteira, mas na diversidade dos fatores de risco aos quais ela está exposta. É essa capacidade de oferecer fontes distintas de retorno – e não apenas versões diferentes da mesma aposta – que justificará o valor da gestão ativa nos próximos anos.