Copom pode cortar Selic em 0,25 ponto, mas inflação preocupa

O mercado chega à reunião do Copom desta quarta-feira (17/6) dividido entre a expectativa majoritária de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,25% ao ano, e a avaliação de que o Banco Central pode optar por interromper o ciclo diante da piora do quadro inflacionário. Em comum, as casas destacam um ambiente ainda desafiador, marcado por inflação resistente, expectativas desancoradas, incerteza externa e cautela crescente da autoridade monetária sobre os próximos passos.

O Banco Daycoval é um dos que projeta corte de 0,25 ponto, para 14,25% ao ano. Para a instituição, embora o quadro inflacionário siga pressionado e as expectativas tenham piorado desde a última reunião, parte relevante dessa deterioração decorre do choque recente em alimentos e da perspectiva de um El Niño mais intenso no segundo semestre. Mas o banco também vê comportamento benigno do câmbio, desaceleração gradual da atividade e alívio no petróleo após o arrefecimento do conflito no Oriente Médio, fatores que, em sua leitura, abrem espaço para mais um ajuste moderado, sem afastar a manutenção de juros em terreno contracionista por período prolongado.

A Suno Research também trabalha com cenário-base de corte de 0,25 ponto, também para 14,25% ao ano, mas atribui probabilidade elevada, de 45%, à manutenção da taxa. A casa espera comunicado duro, sem sinalização explícita sobre os próximos passos e com balanço de riscos assimétrico, com viés de alta para a inflação. Na sua avaliação, o Copom enfrenta simultaneamente a piora qualitativa da inflação, a desancoragem adicional das expectativas, os efeitos do conflito no Oriente Médio, a possibilidade de um El Niño relevante no segundo semestre e os impactos de estímulos fiscais e parafiscais sobre a demanda.

A Multiplike também vê espaço para redução de 0,25 ponto, apoiada sobretudo na melhora do ambiente externo após o acordo de paz entre Estados Unidos e Irã. Para a casa, o Focus reforça a tese de juro elevado por mais tempo, sem alterar bruscamente a estratégia de carteira, e o principal ponto da reunião estará menos na decisão em si e mais na ata do Copom e no que ela dirá sobre a continuidade ou não do ciclo de cortes. Na leitura da instituição, o alívio recente do petróleo e do câmbio pode amenizar parte da pressão inflacionária.

Já a Ouro Preto Investimentos não apresenta uma projeção numérica fechada para a decisão, mas interpreta o cenário como de juros elevados por mais tempo e de ciclo de queda mais curto e menos intenso. Para a casa, a sequência de revisões para cima nas projeções de inflação e Selic apontados pelo boletim Focus, reforça a leitura de perda de tração do processo desinflacionário. Esse ambiente sustenta, segundo a gestora, uma postura mais defensiva nas carteiras, com preferência por renda fixa e crédito, mas com maior rigor na análise de risco.

Também a Azumi Investimentos não explicitou uma projeção fechada para a reunião, mas ressalta que a Selic elevada aumenta a seletividade no crédito e muda a forma de análise dos ativos estruturados, especialmente dos FIDCs. Segundo a gestora, juros altos ampliam a atratividade nominal do crédito privado, mas também pressionam o tomador, encarecem o capital de giro e exigem mais atenção à robustez das estruturas, à qualidade do lastro e aos mecanismos de proteção. Nesse contexto, a leitura sobre a Selic e o Focus serve menos como gatilho tático imediato e mais como sinal de um ambiente em que operações bem estruturadas tendem a se diferenciar.