
Edição 283
Fundações brasileiras com exposição a fundos europeus acompanham atentamente os desdobramentos da saída do Reino Unido da UE
A decisão do Reino Unido de sair da União Europeia deve trazer impactos para a economia global no longo prazo, com alterações no crescimento dos países da região, porém os especialistas acreditam que se trata de um processo que deve durar alguns meses, ou até anos. Até por isso, ao menos em um primeiro momento, a postura dos fundos de pensão brasileiros que iniciaram a alocação em ativos no exterior é de cautela, sem movimentos de resgate ou de incremento na exposição internacional.
“Acredito ser muito cedo para tirarmos alguma conclusão de forma definitiva. Ainda existem diversos eventos intermediários a partir do ponto em que estamos. Tentar estimar o tamanho das consequências é prematuro”, afirma Jorge Simino, diretor de investimentos da Funcesp. Apesar da constatação de que faltam elementos para uma projeção do cenário à frente de maneira mais consistente, Simino avalia também que as consequências do ‘Brexit’ não devem estar no campo positivo.
Após reduzir sua exposição em fundos no exterior no início de 2016 em aproximadamente 25%, o fundo de pensão acumula atualmente cerca de R$ 270 milhões em ativos fora do país. Desse montante, 10% estão alocados especificamente em empresas negociadas nas bolsas europeias. E por enquanto não há nenhuma ação em curso para alterar esse investimento. “Tomar decisões logo após ocorrido o evento não é uma postura adequada. Acho prematuro qualquer movimento em uma ou outra direção”, avalia Simino, que ressalta que, a partir do momento em que as entidades começam a investir em ativos globais, aumenta consideravelmente o escopo de análise de sua carteira de investimentos. “Monitorar os eventos globais passa a ser um desafio permanente dos fundos de pensão quando se começa a investir em ativos no exterior”.
Impacto positivo – A falta de um direcionamento mais claro sobre os efeitos do ‘Brexit’ para a economia global, aponta o dirigente da fundação, fica ainda mais evidente pelas primeiras reações após a decisão dos britânicos na própria região. Ele lembra que, desde a votação, que surpreendeu o mercado que apostava na permanência do Reino Unido no bloco, começaram a surgir no mercado hipóteses de que a decisão dos britânicos pode até trazer alguns impactos positivos, à medida em que os bancos centrais devem fazer novas injeções de capital para prover a liquidez necessária aos investidores. “Temos de tomar cuidado com essas reações positivas do mercado. É preciso uma certa tranquilidade para não fazer movimentos muito rápidos reagindo por instinto. Ainda tem muita coisa para acontecer e muita informação para ser divulgada até podermos tomar uma decisão de forma mais consciente”, alerta Simino.
“A notícia da saída foi surpreendente até para os vitoriosos”. Outro exemplo da falta de uma direção para seguir por um ou outro caminho, aponta o dirigente da Funcesp, foi a própria desistência do ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, de concorrer ao cargo de primeiro-ministro após a renúncia de David Cameron. Johnson, do mesmo Partido Conservador de Cameron, era apontado como um dos favoritos ao posto. “Nem mesmo os que defendiam a saída tem disposição para encarar as tarefas que vão ser necessárias agora, para dar uma noção do tamanho da confusão que é esse evento”, pontua Simino. “Vamos ter de esperar algum tempo para enxergar uma linha de tendência para esse negócio”.
No Brasil, o reflexo inicial em resposta ao ‘Brexit’ foi a valorização do real frente ao dólar por conta da percepção de uma maior liquidez nos mercados. “Se o BC não tivesse feito os leilões de compra de moeda o câmbio já teria caído abaixo de R$ 3,20”, estima o diretor da Funcesp. No entanto, ele avalia também que essa tendência não deve servir como uma baliza para guiar os agentes, uma vez que se trata de um movimento que deve ficar limitado ao curto prazo. “Essa foi a consequência inicial, com a leitura de que os juros vão continuar baixos no mundo tudo por muito tempo. Já os próximos impactos, sobre o quanto o comércio internacional vai cair, ou o próprio PIB global, ainda demoram um tanto para sabermos o quanto essa decisão vai nos custar”.
Sem resgates – Na BB DTVM, Marcelo Pacheco, gerente executivo dos fundos multimercado e offshore, ressalta que não houve por parte dos investidores um movimento de resgate dos fundos com exposição à Europa após a saída do Reino Unido da UE. E justamente pela falta de informações sobre qual a postura mais adequada para adotar após esse evento. “Existe uma grande incerteza em relação aos verdadeiros impactos do ‘Brexit’”, afirma Pacheco. “Além disso, o perfil dos investidores fundos de pensão é de longo prazo, e esse evento não alterou a decisão de investimento deles”.
Embora tenham registrado quedas nos dias seguintes à decisão do Reino Unido, poucos dias depois as bolsas europeias já reverteram a tendência negativa, ainda que também não tenham chegado a apresentar uma trajetória firme de valorização, recorda o executivo da gestora do BB. “Hoje as bolsas europeias estão em patamares semelhantes aos que estavam antes da decisão pelo Brexit. Nos últimos dias novas preocupações aumentaram a volatilidade das bolsas na região, mas de maneira geral o impacto não foi tão relevante quanto se poderia imaginar anteriormente”, afere Pacheco.
Em relação aos feeders da BB DTVM em parceria com gestores globais, Pacheco ressalta que, dos sete atualmente ofertados pela asset, somente um, o Schroder Europa, é totalmente voltado para as bolsas do velho continente. “Esse sofreu um pouco mais”, admite o executivo. No entanto, os sete feeders apresentaram retorno negativo em junho, ainda que o da Schroder focado em Europa tenha registrado a maior queda no período, com uma desvalorização de 17,31%.
A melhor performance em junho foi do fundo da Aberdeen, que perdeu “apenas” 10,4%. No acumulado de 2016 até junho, o Schroder Europa também é o que apresenta a maior depreciação, de 26,14%; o veículo que tem a menor queda de janeiro a junho é o da Nordea, com baixa de 13,83%. Em termos de Patrimônio Líquido (PL), o Schroder Europa tem R$ 67,8 milhões, o quinto em volume. O maior é o da BlackRock, com R$ 302,1 milhões, e o menor é o da Aberdeen, com R$ 3,9 milhões.
Embora todos os feeders estejam com desempenho negativo, esse é um reflexo principalmente da valorização do real frente ao dólar, que ocorreu por fatores externos, mas muito também por conta de eventos domésticos, principalmente no âmbito político, ressalta o gerente da BB DTVM. “O impacto fundamental nos últimos meses não teve relação com o ‘Brexit’. Quando se extrai a variação da moeda, a influência da renda variável é muito pequena”, diz.
Exceto o fundo da Schroder voltado para Europa, os seis feeders restantes tem como benchmark o MSCI World, que tem em sua composição uma parcela de 24,5% em ativos europeus. O maior peso do benchmark vem dos Estados Unidos, que responde por quase 60% do total. “As bolsas americanas voltaram a patamares anteriores à decisão”. Pacheco destaca também que a maior parte dos feeders já vinha com uma exposição em Europa abaixo do sugerido pela composição do MSCI World, como uma forma de proteção aos investidores.