Brasil, o país da sustentabilidade | O envolvimento dos signatári...

Marcela: envolvimento dos brasileiros com os princípios chama a atençãoParticipação - Divisão entre os signatários da iniciativa - em %Princípios para o Investimento ResponsávelFonte: PRIEdição 237

 

O encontro “PRI in Person”, que já foi sediado em Genebra (Suíça), Seoul (Coreia do Sul), Sidney (Austrália), São Francisco (Estados Unidos) e Paris (França), acontecerá no Rio de Janeiro (RJ) nos dias 28 e 29 de junho, poucos dias depois do encerramento da Rio+20 – Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.

“O timing também foi perfeito”, lembra Marcela Zonis, gerente da rede brasileira do PRI, ao comentar sobre a proximidade entre os dois eventos. Ela conta que é a primeira vez em que a conferência anual do PRI acontece na América Latina. Como o PRI é uma iniciativa global, a intenção é que esse evento sempre faça um percurso itinerante, sendo sediado cada ano em um continente diferente.

“É uma oportunidade para signatários do mundo todo trocarem informações sobre as melhores práticas e os avanços em investimento responsável em cada país. Além disso, temos o objetivo de discutir os motivos que impedem o investimento responsável de se tornar algo padrão e como essas questões podem ser adotadas por mais instituições”, detalha Marcela. Ela revela ainda que o encontro é exclusivo para signatários do PRI, mas está abrindo-se a exceção para a participação de fundos de pensão brasileiros que estão interessados em aderir à iniciativa. “Na conferência, esses representantes de fundos de pensão poderão ter uma noção da dimensão do movimento”, diz ela.

Marcela conta que é justamente na categoria de fundos de pensão que o Brasil apresenta um certo diferencial em relação aos outros países. Isso porque, segundo ela, o segmento que mais cresce em termos de número de signatários tem sido o de gestores de investimentos. Na base brasileira, apesar de os gestores estarem em maior número, também é possível verificar uma elevação na adesão de entidades fechadas de previdência complementar. “O Brasil é um dos países com maior proporção de fundos de pensão em relação ao total de signatários locais”, aponta ela.

Política de investimentosProva disso é que um dos quatro grupos de trabalho do PRI estabelecidos no Brasil está diretamente ligado ao segmento de fundos de pensão. Trata-se do grupo de política de investimentos, cujo objetivo é buscar formas de incorporar as questões de ESG (Environmental, Social and Corporate Governance, sigla em inglês para ambientais, sociais e de governança corporativa) às políticas elaboradas todos os anos pelas fundações.

A ideia do grupo de trabalho é estabelecer como essas premissas podem ser observadas dentro de cada segmento de aplicação das entidades fechadas de previdência complementar, tendo como base a Resolução número 3.792 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que trata das regras para os investimentos das fundações. “Estamos começando pelo segmento de ações, e em seguinda devemos passar para os outros, como renda fixa e fundos de participações, por exemplo”, cita Marcela. Resumidamente, a intenção no fim deste trabalho é chegar a um “passo a passo” que auxiliará os fundos de pensão, na hora de escrever a política para o ano seguinte, a incluir o investimento responsável no texto.

Outro grupo destacado por Marcela é o de engajamento, que se encontra em fase de encerramento de um ciclo de disclosure cujo objetivo é aumentar a transparência das empresas brasileiras. Ela explica que, inicialmente, este grupo fez uma “ação de massa” tendo o disclosure como foco. “O primeiro passo era que as informações fossem disponibilizadas. Nos concentramos nas empresas listadas em bolsa, tomando como base as companhias que compõem o IBrX-100. Enviamos cartas para elas e as convidamos para workshops”, recorda Marcela. Já na segunda fase do engajamento, que é a que está se completando agora, o trabalho foi um pouco mais específico. “Dentro do IBrX-100, cada membro do grupo de trabalho escolheu uma ou duas empresas em que ele investe ou está interessado em investir e que ainda não publicavam relatório no padrão GRI [Global Reporting Initiative, um modelo global de relatório de sustentabilidade]. Foram feitas reuniões tête-à-tête com cada uma dessas empresas, com a participação não só do investidor que ficou responsável por elas, mas de todos os membros do grupo de trabalho”, afirma Marcela.

Ela revela que foi contratada uma pessoa pelo PRI para fazer um diagnóstico de todas as empresas selecionadas para esse trabalho. Assim, os investidores já chegavam na reunião com dados para conversar com as companhias. “A ideia era mostrar para a empresa, de acordo com os indicadores de GRI e diante das informações disponíveis no site, no relatório social e em tudo o que a companhia publica, o que ainda estava faltando em termos de prestação de informações. E isso foi super bem recebido pelas empresas”, garante Marcela.

Ela informa que agora, depois de ter trabalhado a questão do disclosure por quase dois anos e meio, o grupo decidiu que era hora de partir para um engajamento um pouco mais profundo, de não só discutir a existência ou não da informação publicamente. “A intenção é passar um pouco mais para gestão, vendo como a empresa está gerenciando essas informações dentro do seu negócio. Como será um engajamento setorial, o grupo tem de escolher um setor para fazer o trabalho. E então será o mesmo processo: cada membro escolhe uma ou duas empresas em que investe ou tem interesse em investir e conta com o apoio do grupo no contato”, adianta Marcela. Além desses dois grupos de trabalho, o PRI no Brasil ainda conta com o de recrutamento (que trabalha para a adesão de novos signatários) e o de investimento (antes chamado de integração, trata de formas de incorporação das questões sociais, ambientais e de governança corporativa aos investimentos).

Questionário Outra novidade do PRI em 2012 diz respeito ao questionário que é preenchido todos os anos pelos signatários. Marcela lembra que, normalmente, os questionários são aplicados de janeiro a março e compilados pelo PRI para, entre junho e julho, ser lançado um relatório agregado falando do avanço em relação ao ano anterior. Este ano, no entanto, está em curso uma alteração da ferramenta – e, por isso, o relatório não será elaborado.

“Estamos elaborando um questionário piloto que vai ser implementado entre junho e julho de 2012. Estamos fazemos ajustes finais em algumas perguntas porque revimos completamente a ferramenta, e no ano que vem tudo volta a ser como antes: de janeiro a março é aplicado o questionário e entre junho e julho vai ser lançado um relatório com base no novo formato”, revela ela.

Marcela explica que a indústria de investimento responsável avançou muito e o questionário precisava avaçar junto. Além disso, existia a intenção do PRI de prover aos signatários a possibilidade de mostrar os resultados para seus pares – sejam eles clientes ou, no caso dos fundos de pensão, participantes.

“Era hora de encontrar uma forma de os signatários mudarem um pouco sua percepção em relação ao questionário, que é sempre visto como um peso, uma coisa chata para fazer e onerosa para a instituição. Reformulamos o questionário de maneira que ele próprio vai ser muito mais útil para quem está preenchendo, uma vez que trará não só um diagnóstico, mas também um relatório em um formato que será possível apresentar resultados para outras pessoas. O fundo de pensão vai receber um relatório que poderá ser mostrado para os seus beneficiários, assim como a gestora terá acesso a um relatório para mostrar aos clientes. Queremos, além de capturar melhor o envolvimento dos signatários, aumentar a utilidade do questionário para quem está respondendo”, reforça ela.

Brasil –A gerente da rede brasileira do PRI conta que o comprometimento dos signatários brasileiros com a iniciativa e a forma ativa como eles têm atuado nos grupos de trabalho chama a atenção do board do PRI. “É muito grande a penetração da iniciativa no mercado brasileiro. Talvez o País não conte com um número tão alto de signatários, mas com certeza possui uma representatividade muito relevante em termos de ativos que eles têm sob administração. O Brasil também é destaque em volume de engajamentos, na participação dos signatários nos eventos e nos grupos de trabalho e no comprometimento das pessoas que aderiram ao PRI em implantar mudanças”, enumera Marcela.

Ela conta ainda que há cerca de dois ou três meses o PRI criou, no mundo todo, uma nova “categoria” de signatários. Até então, poderiam aderir à iniciativa fundos de pensão, gestores de investimentos e prestadores de serviços financeiros. Recentemente, porém, foi aberta a porta para os “apoiadores da iniciativa”. “Criamos uma categoria para formalizar o apoio que já recebemos de várias associação e entidades de classe. E acabamos de receber a informação de que a Abrapp formalizou essa relação de apoio”, diz Marcela, referindo-se à Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp). Ela acrescenta que a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap) também confirmou o seu apoio ao PRI.

Vale lembrar que o PRI é uma iniciativa que reúne grandes investidores institucionais de todo o mundo. Os princípios foram lançados oficialmente em abril de 2006 na Bolsa de Nova York e, em seguida, em Paris. A ideia foi reunir uma série de premissas que deveriam nortear as aplicações dos investidores institucionais sempre com o pensamento de que as questões sociais, ambientais e de governança corporativa vão impactar positivamente o retorno de seus investimentos no longo prazo. No Brasil, o lançamento aconteceu em maio daquele ano, na sede da Previ, no Rio de Janeiro (RJ). O maior fundo de pensão do País estava envolvido com o PRI desde antes, contribuindo inclusive com as discussões para elaboração do conjunto de princípios. Hoje em dia, o PRI reúne globalmente 1052 signatários, que juntos somam o montante de US$ 35 trilhões em recursos sob os seus cuidados.