BNP prevê novo corte da Selic, mas economistas pedem cautela

Laiz Carvalho, economista-chefe do banco BNP Paribas

O Banco Central deve promover um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em meados de setembro, reduzindo a taxa dos atuais 14% para 13,75% ao ano. A projeção foi feita pela economista-chefe do banco BNP Paribas, Laiz Carvalho, em evento promovido pela asset da instituição nesta quinta-feira (10/9), em São Paulo.

Na mesma linha, a economista-chefe do BNP Paribas Asset Management, Andressa Castro, também projeta o corte de 0,25 pp na próxima reunião e a continuidade dos cortes, sempre em passos de 0,25 ponto, até a Selic chegar a 12,5% ao ano.

Mas ambas consideram que o Banco Central deveria interromper temporariamente o ciclo de redução dos juros por conta das numerosas incertezas do cenário. “Na nossa cabeça, o ideal seria a Selic se manter parada, pelo menos até o final do ano, para ver o que vai acontecer na reunião do Fed, como será a resolução do conflito com o Irã, quais os níveis do preço do petróleo, a duração do El Niño e o rumo das nossas eleições”, afirmou Laiz.

Embora trabalhem com a continuidade do ciclo de cortes como cenário-base, ambas consideram que seria prudente o BC fazer uma pausa em razão das atuais incertezas domésticas e internacionais. Mas a pressão exercida pelos juros elevados sobre pessoas físicas e empresas, hoje fortemente endividadas, deve levar o Copom a prosseguir com os cortes, analisa Taiz.

Andressa também reconhece que uma pausa permitiria à autoridade monetária avaliar melhor as incertezas, mas acredita que o BC continuará na sua política de redução da taxa. Segundo ela, a desaceleração da atividade econômica e do crédito, somada ao caráter ainda contracionista imposto pela taxa, justificariam na visão do BC a continuidade dos cortes de 0,25 ponto percentual por reunião.

Segundo Andressa, o Banco Central trabalha com um horizonte mais longo e projeta a aproximação da inflação à meta apenas no início de 2028, quando a inflação poderia alcançar entre 3% e 3,2%. Os efeitos inflacionários do El Niño e de outros choques de oferta já estariam parcialmente incorporados aos modelos da autoridade monetária, que seria suficientemente restritivo a ponto de conter a alta de preços mesmo mantendo os cortes da Selic.

Atividade – A perspectiva de novos cortes também se apoia na esperada desaceleração da economia a partir do ano que vem. O BNP Paribas projeta crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,9% neste ano e de 1,3% no próximo. O consumo das famílias surpreendeu negativamente no segundo trimestre deste ano, enquanto o mercado de trabalho e a concessão de crédito, embora ainda em expansão, já mostram perda de força. Os salários continuam crescendo em termos reais, mas o endividamento das famílias avança e aumentam os pedidos de recuperação judicial de empresas.

A inflação deve encerrar este ano em 5% e o próximo em 4,6%, na projeção do BNP Paribas. A inflação de serviços tende a perder força, mas os alimentos devem exercer pressão, especialmente se o El Niño se confirmar como um dos mais intensos da história. A previsão de mais chuvas no Sul e de seca na região do Matopiba (Mato Grosso, Tocantins, Piui e Bahia), Norte e Nordeste pode elevar os preços de hortaliças e frutas e reduzir em cerca de 5% a produção brasileira de grãos na próxima safra, pressionando a inflação de alimentos.