Alfa nas carteiras | Com forte alta da Bovespa em 2017, assets de...

Edição 297

 

Com a valorização próxima de 25% do Ibovespa no acumulado de 2017 até meados de outubro, e com as ações se apresentando como uma das principais alternativas no radar dos fundos de pensão para 2018, as assets de gestão ativa na renda variável se preparam para um aumento da demanda dos investidores e buscam identificar os papéis na Bovespa que devem ser as melhores apostas para agregar alfa às carteiras dos clientes. Com a retomada econômica, que os especialistas esperam que se acelere em 2018, o setor de consumo tem aparecido com recorrência na preferência das assets.
A Apex Capital é uma delas. A asset teve nos últimos meses uma alocação importante em empresas que melhor conseguiram aproveitar os ciclos da economia doméstica, se beneficiando da retomada da atividade econômica. “Investimos em algumas companhias endividadas que, por conta do crescimento dos lucros, apresentavam perspectiva de redução desse endividamento, além de empresas que ganharam market share por conta de uma boa gestão”, conta o CEO da Apex Capital, Diney Vargas. Segundo ele, entre as ações que tiveram contribuição importante para o retorno dos fundos da Apex em 2017 aparecem B2W, CVC, Estácio, Lojas Americanas e Cyrela. “Houve uma combinação de elementos positivos nesse segmento de empresas cíclicas locais”.
De acordo com Vargas, a carteira da Apex acabou tendo uma descorrelação expressiva em relação aos principais benchmarks da bolsa quando optou por privilegiar papéis que se beneficiam da retomada da atividade local, em detrimento a papéis mais ligados à economia global ou mesmo os financeiros e defensivos.
Para os próximos meses, levando em consideração que a retomada do crescimento ainda parece ser impulsionada mais pelo consumo do que pelos investimentos, o especialista entende que a estratégia adotada nos últimos meses tende a se manter para 2018. Ele ressalta, contudo, que as eleições tendem a trazer volatilidade para os ativos, podendo levar a algumas alterações na composição da carteira.
Vargas entende que, devido ao provável aumento da volatilidade que o mercado deve viver no ano que vem em função das eleições, o fundo long bias, por suas características que permitem um perfil mais defensivo com maior alocação em caixa, tende a ir melhor que a média do mercado. No entanto, o executivo tem notado no momento um interesse maior dos institucionais pela estratégia long only. “Se o mercado seguir na direção de alta, o long only tende a andar mais que o long bias”, prevê o especialista.
De acordo com Vargas, a carteira dos fundos de ações da Apex esteve mais pulverizada recentemente, com um número de papéis que variou de 20 a 25. Além de enxergar boas oportunidades a serem capturadas, o gestor comenta também que a falta de liquidez em alguns dos papéis na Bovespa leva a tomada de posições menores, mas em maior quantidade de ativos.

Benchmark alto – Para o gestor responsável pelas carteiras de renda variável da Pacifico Gestão, Carlos Eduardo Ramos, os gestores costumam ter mais dificuldade de bater os referenciais do mercado em anos de forte alta do benchmark, como em 2017. Ramos ressalta, contudo, que no longo prazo a gestão ativa tem demonstrado seu valor, com capacidade de entregar aos investidores retornos mais destacados do que a gestão passiva. Segundo ele, desde sua fundação em 2011 a Pacífico tem entregue aos clientes uma rentabilidade média anual de 22%, contra 10% do Ibovespa no período analisado.
De acordo com Ramos, hoje o gestor ativo tem muito mais facilidade para operar no mercado de ações brasileiro na comparação com 15 anos atrás. “Temos agora o Novo Mercado, com uma preocupação muito maior das empresas e dos investidores com governança, e a liquidez também aumentou bastante. São fatores que ajudam na gestão ativa de ações no mercado brasileiro”, diz o profissional. Além disso, o gestor ressalta que existem hoje na Bovespa setores que não eram encontrados no mercado local anos atrás, como é o caso de educação e saúde.
Ele conta que, com a mudança de governo e a chegada de Temer ao poder no ano passado, juntamente com uma equipe econômica respaldada pelo mercado, a asset alterou sua carteira, que vinha mais conservadora, e aumentou sua aposta em empresas que sofrem maior intervencionismo do Estado e que estavam com preços atrativos. “Nunca tinha investido em Eletrobras, e entendemos no ano passado com a troca de governo que seria o momento adequado de entrar”, pontua Ramos, que aponta também a Petrobras como um caso semelhante.
Segundo o gestor da Pacifico, a gestão ativa de um fundo de ações exige coragem para entrar e sair de determinadas posições que às vezes fogem do consenso do mercado. “E essa coragem vem do acompanhamento diário das empresas, por meio da análise fundamentalista”, explica. Segundo ele, a asset acompanha um universo de 120 empresas, das quais apenas 20 entram na carteira.
Em meados deste ano, com sinais mais claros de retomada da economia, a Pacífico promoveu uma mudança importante em seu portfólio, com o incremento da exposição em companhias do segmento de varejo. “Essas empresas tendem a se beneficiar do crescimento mais forte esperado para os próximos meses”, prevê Ramos.

Oportunidades – Peter Taylor, gestor da Aberdeen Asset, ressalta que, em sua avaliação, é incorreto dizer que a bolsa brasileira rompeu sua máxima histórica, já que, apenas corrigida pela inflação a bolsa teria de estar bem acima do atual patamar no qual se encontra. Contas de especialistas indicam que o Ibovespa, de 2008 até agora, corrigido apenas pela inflação do período, ‘deveria’ estar sendo negociado ao redor dos 130 mil pontos frente aos 75 mil observados atualmente. “Seguimos construtivos em relação ao mercado acionário do Brasil”, diz Taylor.
Devido a essa leitura, o especialista da Aberdeen entende que ainda há bastante espaço para a bolsa seguir em sua recente trajetória ascendente ao longo dos próximos meses. E a principal aposta da Aberdeen no mercado acionário brasileiro também é no setor de consumo, que tem puxado a retomada econômica, e “que provavelmente continuará sendo assim em 2018”, prevê Taylor, que espera por um prosseguimento na melhoria já esboçada nos resultados corporativos das companhias de capital aberto na Bovespa.
O especialista lembra ainda que os investidores institucionais estão com uma exposição próxima da mínima histórica no mercado acionário, e que a simples volta desse público à bolsa já será driver importante para dar fôlego adicional para os ganhos registrados até agora.
Como de praxe, o gestor da Aberdeen cita, como todos os gestores do mercado, o risco político como um fator a ser monitorado e que contrasta com o otimismo reinante no mercado acionário do país. “Esperamos um forte aumento da volatilidade por conta das eleições, a menos que um candidato pró mercado comece a despontar na frente, o que não parece ser o caso ao menos até agora”. Taylor ressalta, contudo, que a questão política é um tema que atrai muito mais a atenção dos investidores locais, enquanto os estrangeiros atentam mais para os resultados corporativos que têm sido divulgados. Caso esses números continuem vindo positivos, os estrangeiros devem dar sustentação para a valorização da bolsa nos próximos meses, pondera o especialista da asset, que ressalta que é esse o cenário base com o qual a casa trabalha.