Edição 228
A necessidade de instituir um veículo local para levantar recursos junto às fundações brasileiras acaba sendo, muitas vezes, um obstáculo para fundos de investimento estrangeiros interessados em captar por aqui.
Essa constatação levou Maria Helena Válio Icó a desenvolver o projeto de uma gestora que aguarda aprovação de registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Trata-se da RVI Gestão, um desdobramento da RVI Representações, empresa da qual Maria Helena é sócia há cerca de quatro anos.
A ideia da gestora começou a ser desenhada no fim de 2008, por conta da crise financeira internacional. “Os gestores estrangeiros teriam de diversificar geograficamente sua base de clientes por conta das perdas de capital nos países desenvolvidos. Por outro lado, os mercados acionários caíram muito lá fora, o que acabaria se traduzindo em oportunidades para os investidores brasileiros”, lembra Maria Helena. Com base nisso, ela passou a estreitar os laços com assets internacionais e a mostrar para essas casas o funcionamento e a dinâmica do mercado brasileiro de investimentos. Mais de dois anos depois, ela dá agora um novo passo com a criação da RVI Gestão.
Ao longo de mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro, Maria Helena manteve contato constante com instituições internacionais. Além de ter passado por bancos como WestLB, BMG e ABN Amro, ela foi, durante quase quatro anos, responsável pelas atividades do Superfund Financial na América Latina. “Acompanhei o desenvolvimento do mercado brasileiro de perto e sempre estive envolvida na construção dessa ponte entre o Brasil e o mercado externo. Conheci vários executivos e fundos diferentes. Para completar, conto com a experiência da minha sócia, Maria Alejo, que fica em Greenwich [Connecticut, EUA], onde estão os grandes hedge funds”, diz.
Por conta do período em que prestou serviços de assessoria a fundos estrangeiros que queriam conhecer o Brasil, Maria Helena acabou tendo acesso a estratégias de investimento que considerou interessantes e, por isso, pensou em estreitar o caminho entre assets e o investidor brasileiro.
Assim, a RVI Gestão terá apenas veículos locais que investem em cotas de fundos no exterior. “Cada fundo lá de fora terá um veículo correspondente no Brasil. Esse fundo local é que fica sob a responsabilidade da RVI”, explica, ressaltando que a asset não fará nenhum tipo de gestão ativa. “Não queremos fazer alocação. Teremos aqui uma caixinha para cada fundo selecionado no exterior.”
Parceria – Das cerca de seis assets estrangeiras que tiveram sua aproximação com o Brasil guiada pelas mãos de Maria Helena, duas são candidatas a estrear no País por meio de fundos da RVI Gestão. São elas as norte-americanas Baron Capital Management e Titan Advisors. “A Baron tem aproximadamente US$ 20 bilhões em ativos e é especializada em fundos mútuos de ações focados em empresas de crescimento. Já a Titan trabalha apenas com fundos de hedge funds com quatro focos: multiestratégia, long/short, global macro e de pequenos gestores que estão começando. Hoje a Titan tem cerca de US$ 3,5 bilhões sob gestão”, detalha Maria Helena. Para que haja uma percepção isenta da qualidade e da segurança desses fundos, a RVI Gestão contará com o trabalho da Aditus, consultoria fundada por ex-executivos da RiskOffice, grande conhecida dos fundos de pensão. “Eles farão a due diligence nos fundos estrangeiros. A ideia é que seja feito um trabalho in loco uma vez por ano, um acompanhamento mensal da carteira e uma análise mais aprofundada a cada trimestre. A Aditus conhece as preocupações do institucional brasileiro e as restrições dos fundos de pensão. É importante ter uma empresa independente para solicitar informações e pedir a abertura das carteiras. Sabemos que a falta de informação sobre os fundos estrangeiros é uma grande barreira para a diversificação dos investimentos”, comenta Maria Helena.
A executiva diz estar atenta a outro empecilho para que as fundações brasileiras invistam fora – o limite de 25% do patrimônio do fundo local estabelecido para as aplicações das entidades. “É importante que, para cada fundo, haja um volume de investidores suficiente para que os fundos de pensão possam entrar e sair do veículo sem se preocupar com desenquadramento”, constata. Tanto é que a intenção é não só atender a demanda das fundações por aplicações no exterior, mas também angariar recursos de multi-family offices. Para cuidar dos esforços de distribuição dos produtos, a RVI Gestão terá o apoio de Niels Haslund, que trabalhou por vários anos no ABN Amro e, mais recentemente, no Banco Modal. “Unimos o conhecimento de Brasil e a proximidade com os estrangeiros na gestão de feeders da RVI. Adicionamos a independência de análise da Aditus e a experiência do Niels Haslund em distribuição.
Acho que chegamos ao desenho certo”, confia Maria Helena.