Edição 224
O memorando de entendimento assinado entre a gestora de recursos Claritas e a Bats Global Markets para a criação de uma nova bolsa de valores no Brasil promete esquentar a disputa por mercado no País. A Bats Brasil planeja concorrer com a Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros (BM&FBovespa), atualmente único player no segmento de negócios com ações no Brasil, atacando em três frentes: preço, tecnologia e serviços.
Apesar de o entendimento entre Bats e Claritas estar em uma fase inicial, ainda sem a divulgação de detalhes sobre como deverá funcionar essa nova bolsa – como prazos ou o valor a ser investido –, o vice-presidente sênior de Desenvolvimento de Negócios e Marketing da Bats, Ken Conklin, afirma que a visão da empresa é de criar soluções para ser um sério competidor, baseada em sua experiência internacional, com operações nos Estados Unidos e Europa.
“Nós olhamos para a tecnologia e acreditamos que podemos agrupar o modo como a infraestrutura do mercado funciona. Aprendemos muito em termos de serviço nos locais em que estamos presentes e confiamos que temos serviços superiores. Nosso objetivo é eliminar fricções existentes em preço, tecnologia e serviços para alcançar um negócio mais direto para o consumidor, com uma estratégia similar à dos outros mercados em que operamos”, compara Conklin. Em relação aos preços, ele vê as margens excessivamente altas como desnecessárias e típicas de uma situação de monopólio, como acredita ser o caso brasileiro.
A BM&FBovespa se defende. “Temos uma estrutura integrada verticalmente. Os preços cobrados atualmente se referem aos custos totais de trading e pós-trading. A Bolsa, atualmente, é bastante competitiva na precificação”, assegura o diretor-executivo financeiro, corporativo e de relações com os investidores da companhia, Eduardo Guardia.
Para o diretor presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, a Bolsa está pronta para a competição. “Desde 2007, quando saiu a instrução que nos permitiu fazer a desmutualização e abrir o capital, estamos cientes e preparados para essa situação”, declara. Para enfrentar a concorrência, a Bolsa deve “trabalhar com eficiência”. “Nosso foco é fortalecer nosso negócio e dar condições de inovação para que ele possa se diferenciar.
Para disputar mercado no País, a régua de investimento é alta. Espero que eles estejam fazendo essa conta”, afirma Edemir Pinto.
Pronta para a disputa – Sem revelar detalhes da estratégia, Conklin, da Bats, dá a entender que está preparado para iniciar operações no Brasil e enfrentar as barreiras de entrada no mercado, como o alto investimento inicial. A empresa estaria de olho neste mercado há alguns anos, tendo iniciado conversas mais sérias para efetivar a presença há seis meses.
“Nesse período, fizemos uma pesquisa significativa e conversamos com muitos participantes do mercado de capitais como um todo no Brasil.
Acreditamos que teremos sucesso”, declara. Sobre a possibilidade de se associar à Bolsa de Valores de Bahia, Sergipe e Alagoas (Bovesba), que já possui licença para operar, o executivo diz que está “em conversas com participantes” e não pode falar sobre o assunto.
Em relação ao mercado brasileiro, a expectativa é de crescimento, principalmente com uma plataforma de negócios mais barata. O executivo acredita que a Bovespa, por estar na situação de “um monopólio real”, onere demais seus clientes, com cobrança de taxas em excesso. “Com a dose correta de competição, acredito que o volume de ações negociadas irá aumentar. Estamos criando as soluções necessárias para ser um sério concorrente no mercado.” A BM&FBovespa hoje possui cerca de 500 empresas listadas. Em 2010, a companhia alcançou lucro líquido de R$ 1,59 bilhão, com expansão de 29,6% sobre o resultado de 2009. Edemir Pinto acredita que o interesse de um novo participante pelo mercado brasileiro mostra o potencial de crescimento do setor. “Porém, é importante manter as regras de transparência e o arcabouço regulatório para permitir a entrada de um novo participante”, considera.
O executivo se disse ainda surpreso com o modelo de negócio que a Bats Brasil deve adotar. Ele lembra que a possível concorrente hoje atua apenas na negociação de ativos e, no País, seu plano é adotar um modelo parecido com o da Bovespa, compreendendo a negociação, liquidação e custódia dos ativos. “No entanto, nossa bolsa é uma das poucas do mundo que controla a posição individualmente por cliente. Isso muda toda a estrutura e modelo de negócios e, para o acompanhamento de risco sistêmico, é fundamental”, ressalta.
Conklin, da Bats, defende que a entrada de um novo player no País pode fortalecer o mercado e servir como forma de atração para o ingresso de outros participantes. “É uma maneira de haver mais bolsas interessadas em atuar no País”, finaliza.