Edição 213
Os fundos de pensão americanos deverão investir em torno de US$ 100 bilhões em títulos de dívida de países emergentes nos próximos cinco anos, de acordo com levantamento feito pelo JP Morgan ao qual Investidor Institucional teve acesso. Mudanças na legislação, acrescidas à crise financeira, vêm empurrando as fundações dos Estados Unidos para títulos de renda fixa e, em um cenário em que a expectativa é de redução drástica do rendimento dos títulos públicos americanos, os chamados treasuries, a alternativa que as entidades encontram é aplicar nos papéis de dívida dos países emergentes que, em grande parte, já são grau de investimento.O relatório, publicado em setembro de 2009 e divulgado recentemente pelo Financial Times, afirma que o JPMorgan vê “investimentos nos mercados emergentes como tendência estrutural de longo prazo, e não apenas como alocações de market timing.” Acrescenta-se a isso o fato de as fundações americanas terem baixa exposição a esses países. Segundo pesquisa da Pensions&Investments de setembro de 2008, do total de US$ 3,7 trilhões sob gestão naquelas entidades, apenas 0,3% estavam aplicados em títulos de dívida de emergentes. Ao incluir a exposição em ações, essa porcentagem aumentava para apenas 2,1%. “Considerando o tamanho das economias e mercados de capitais desses países, trata-se de uma alocação muito baixa”, afirma o documento do JPMorgan, no qual a pesquisa da Pensions&Investments é citada.Em 2008, entrou em vigor o Pension Protection Act, uma lei federal aprovada em 2006 como resposta às diversas quebras de corporações e fundos de pensão no início dos anos 2000. A norma obrigou as entidades de patrocinadoras privadas a ter mais previsibilidade em relação à rentabilidade de seus ativos no longo prazo tendo em vista suas obrigações futuras, o que provocou mudanças nos benchmarks. Dessa forma, as fundações passaram a migrar recursos antes aplicados na renda variável para a renda fixa, processo que se intensificou durante as turbulências de mercado, quando as perdas com ações provocaram aumento dos descasamentos entre ativo e passivo.De acordo com uma pesquisa da Watson Wyatt citada pelo relatório do JPMorgan, a média de alocação em ações para os planos de pensão americanos era de 57,5% em junho de 2008, enquanto 32,4% dos recursos das entidades estavam em títulos públicos. Em agosto de 2009, a fatia da renda variável caiu para 50,7% e a de títulos públicos subiu para 38,4%. “Esses fundos de pensão devem continuar sua realocação rumo à renda fixa: a média de aplicação em ações deve chegar a 47,8%, enquanto a de títulos públicos deve superar os 40,1%”, afirma o documento. Na opinião do JPMorgan, parte do portfólio dos fundos de pensão americanos passará a ser composta por ativos com as seguintes características: rating elevado; taxas de retornos mais altas; instrumentos de mais alta liquidez; e prazos mais longos. “Nós acreditamos que os títulos de dívida dos emergentes se encaixam em todos esses critérios.”
Diversificação geral – De acordo com Jerome Booth, diretor de pesquisa da Ashmore Investment Management, os bancos centrais do mundo todo estão diversificando suas reservas internacionais para sair do dólar. Isso intensifica a procura por títulos dos emergentes, o que, na expectativa do executivo, deve refletir em aumento de taxas na comparação com os treasuries. “Nós vivemos hoje em um mundo onde os problemas estão nos países desenvolvidos. O risco soberano dos Estados Unidos e da Europa aumentou significativamente, enquanto que países como Brasil não têm sido muito afetados, a não ser por um choque temporário de ausência de crédito internacional.” Booth lembra que os emergentes representam 85% da população e 50% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. “É onde está a maior parte da produção industrial, não se trata mais de periferia. São mercados muito importantes para a economia do globo”, declara Booth. “As decisões dos bancos centrais emergentes serão determinantes para ajustes de moeda.São eles que vão decidir o quanto de inflação vai ser exportado para os Estados Unidos e a Europa, o que é algo saudável para os países desenvolvidos, que estão enfrentando cenário de deflação”, acrescenta.O executivo salienta, no entanto, que o processo de migração de ativos por parte dos fundos de pensão americanos é lento, sendo que as tomadas de decisões podem ocorrer, em alguns casos, de três em três anos. “Esse processo está começando a ocorrer. As fundações norte- americanas estão mudando a alocação de ativos. Estão entrando em contato com consultores. Isso leva tempo, diversos meses.” Ele lembra que o risco dos treasuries aumentou fortemente nos últimos anos.Atualmente, em torno de US$ 8 trilhões estão nas mãos de bancos centrais do mundo todo. “Os BCs detêm 50% do mercado de treasuries. A maioria desses bancos é de países emergentes. Essa é uma das razões pelas quais concluímos que os títulos da dívida americana são arriscados.Porque se apenas alguns bancos centrais de médio porte no mundo começarem a vendê-los, o mercado pode fechar, ficar sem compradores”, endossa.
Emergentes mais fortes – Por isso que, na opinião de Booth, os investidores institucionais brasileiros não deveriam pensar em investir em Estados Unidos e países da Europa, por conta da elevação do risco soberano dessas nações. Segundo ele, a melhor opção é investir em outros emergentes, como China, Índia e países da América Latina e África.A tese do executivo se baseia na possibilidade de o dólar quebrar.“Os países emergentes demonstraram que têm reservas suficientes. Não há necessidade de acumular mais. Isso significa que essas nações podem parar de comprar dólares e permitir que suas taxas de câmbio se apreciem, inclusive o Brasil. A moeda brasileira tem que se apreciar em relação ao dólar.” Booth lembra que hoje o mundo está em uma situação em que o risco de países desenvolvidos é muito maior do que de qualquer país emergente. “O risco do Brasil nos próximos dez anos é bem menor do que o de Itália, Portugal ou Grécia. Até mesmo o risco de a Argentina dar default nos próximos anos é menor do que o da Grécia.” O executivo afirma que, por muitas décadas, o risco dos países desenvolvidos não foi precificado, apenas o dos subdesenvolvidos. “Ninguém investiu no Brasil, nos últimos anos, sem saber o risco que corria. As pessoas têm investido na Europa e nos Estados Unidos sem saber o risco que corriam. A grande lição que a crise deixou foi a mudança de percepção.” Para ele, ainda que os Estados Unidos e a Europa esbocem alguma recuperação nos próximos meses, mesmo assim os emergentes ainda serão um investimento melhor porque estão se recuperando mais rápido. “Mas se houver cenário de recessão – e lembre-se, nos anos 1930, o desemprego nos EUA subiu de 3% para 25% em três anos, na Europa, chegou a 30% –, há um grande risco de deflação nesses mercados, o que é muito grave, porque isso derruba a indústria. Nós tivemos operações bem sucedidas de resgate dos sistema financeiro, mas o problema é que nós tínhamos apenas uma bala e ela já foi usada.”