Edição 209
O otimismo com o mercado brasileiro está em alta entre os gestores de recursos, pelo menos no que se refere às expectativas para o próximo ano. Entre os ativos que na opinião das assets terão maior demanda em 2010, tiveram destaque os papéis de renda variável de empresas domésticas, seguidos por small caps, de acordo com resultados consolidados de uma pesquisa exclusiva feita por Investidor Institucional.
A demanda por esses papéis deve crescer devido à migração de recursos da renda fixa e da entrada de dinheiro novo tanto de investidores internos quanto externos.
Apesar da previsão de aumento da taxa Selic para 10,60% ao ano em 2010, segundo a média da pesquisa, os títulos públicos não devem segurar os investidores, sobretudo os fundos de pensão e demais institucionais, que terão que buscar aplicações com maiores ganhos e também riscos mais elevados para bater suas metas atuariais. “Mesmo com a alta da Selic, os juros reais ainda vão permanecer abaixo da média histórica e, por isso, as aplicações dos fundos tendem a migrar para riscos maiores, principalmente para ações e títulos privados”, prevê Alexandre Póvoa, sócio-diretor da Modal Asset.
Ele explica que em 2010 o mercado deve dar preferência para ações de empresas do mercado doméstico e small caps em relação às commodities, que devem se manter instáveis. “Os investimentos daqui vão concentrar maior volume que os de países desenvolvidos, pois o risco estará pela primeira vez a nosso favor”, revela Póvoa. Ele explica que os títulos de crédito privado também devem sentir um aumento de demanda como opção à renda fixa. Na pesquisa, os títulos privados ficaram com a terceira maior nota (3,11), logo após as ações de empresas domésticas (3,69) e small caps (3,25) – veja tabela na página ao lado.
Se por um lado as ações aparecem no topo da tabela da pesquisa, na outra ponta os ativos com menor demanda para 2010 devem ser Eubonds/Bradies (nota 0,72) e investimentos no exterior (0,94). O motivo é que a economia externa deve continuar mais instável que a interna.
Mesmo com permissão da legislação para as entidades fechadas realizarem investimentos no exterior, este tipo de aplicação ainda não está atraindo os gestores. Os juros do mercado interno são bem maiores que os lá de fora e a instabilidade dos mercados dos países desenvolvidos deve continuar muito alta no ano que vem. Por isso, a preferência deve ficar mesmo com renda variável e títulos privados, seguidos por fundos multimercado e outras opções estruturadas – como private equity e FIDCs.
As previsões valem para os fundos de investimentos em geral, e sobretudo para as entidades fechadas de previdência complementar. “Os fundos de pensão vão sofrer pressão cada vez maior para bater suas metas atuariais e, por isso, devem migrar suas aplicações para fundos mais agressivos e multimercados”, afirma Póvoa. Segundo ele, as entidades fechadas podem realizar tal movimento devido à capacidade de tolerar riscos maiores por trabalhar com perspectiva de prazo mais longo se comparado com outros tipos de investidores. Essa característica dos fundos de pensão é importante para enfrentar a volatilidade das bolsas, que deve continuar alta no próximo ano.
“Os fundamentos do mercado local vão muito bem e o País aponta crescimento. Tudo isso leva ao fortalecimento de empresas do mercado interno. Em 2009 já apostamos em ações do mercado local e vamos continuar olhando para a renda variável no ano que vem”, revela José Luís Lopez Veiga, gerente financeiro do Economus, fundo de pensão dos funcionários da Nossa Caixa. Ele explica que as aplicações do fundo devem migrar cada vez mais para renda variável e investimentos em fundos multimercado, private equity e venture capital.
Com uma meta atuarial de INPC+6% ao ano, comum a muitos fundos de pensão, o Economus está trabalhando com a previsão de uma taxa real de juros para 2010 que não deve sequer bater esse percentual. A previsão de juros médios reais é de 5,21%, portanto abaixo dos 6% da meta. “Não resta outra saída senão deixar investimentos mais conservadores e tradicionais, como os títulos públicos, para migrar para as ações e investimentos estruturados”, afirma o gerente de investimentos.
Preocupação com inflação – O resultado da inflação, obtida a partir da média das respostas da pesquisa, aponta para uma taxa de 4,51% para o IPCA em 2010. Até aí, nada de tão surpreendente. Mas uma análise mais aprofundada revela a preocupação do mercado com as pressões inflacionárias previstas para o segundo semestre do próximo ano. “Há um certo consenso no mercado que a inflação vai subir e deve ficar entre 4,5% e 5%. Não é uma inflação muito alta, mas qualitativamente é uma taxa ruim”, diz Alexandre Póvoa.
Ele explica que mais preocupante é a previsão de alta dos preços livres para algo em torno de 5,5%, o que ainda não será tão grave em 2010 pois os preços administrados devem ficar bem abaixo desse valor. Na média, a inflação do ano que vem não será tão alta, mas em 2011, os preços administrados também devem subir junto com os livres e a taxa inflacionária pode sair do controle.
No segundo semestre de 2010, a inflação pode ganhar ritmo mais intenso com o aquecimento do consumo no mercado interno. Daí vem a previsão do mercado de que o Banco Central deve elevar a taxa básica como forma de conter a alta inflacionária. “Por causa do aumento da inflação, para algo em torno de 4,8%, com aceleração no segundo semestre, a nossa expectativa para a Selic para o final do ano é de mais de 11%”, comenta Póvoa. As previsões dele ficam acima da média da pesquisa, que apontam uma Selic de 10,60% e inflação de 4,51%. Ainda segundo dados consolidados da pesquisa, o Ibovespa deve fechar 2010 em 78.900 pontos e o dólar a R$ 1,74. Confira todos os resultados a seguir.
Para entender a pesquisa – A pesquisa sobre tendências macroeconômicas e tendências de demanda de ativos refletem as projeções para 2010 de 41 assets ouvidas na primeira semana de outubro; – A pesquisa apresenta os resultados na forma de consolidado (pág. 15) e individualizados por asset (págs. 16 a 19); – No consolidado, apresentamos a média, a mediana e o desvio padrão, além dos nível mais alto e mais baixo encontrados para cada item; – Para medir a tendência da demanda de cada classe de ativos, usamos uma escala que vai de -5 a 5, sendo que -5 indica tendência de queda fortíssima e 5 tendência de alta fortíssima; – Na forma individualizada, o número em negrito representa a resposta da asset (em %) e os dois seguintes a variação em pontos em relação à média e à mediana, respectivamente;