Edição 196
Investidores de fundos em capital semente mostram que é possível transformar boas idéias em grandes negócios
Eles estão sempre na busca de um projeto inovador e enfrentam os riscos de investir em empresas em estágio inicial que ainda não apresentam ganho, ou que tenham faturamento limitado. Os investidores em capital semente, também chamado seed money, ajudam na capacitação gerencial e financeira do empreendimento. O objetivo é validar o modelo de negócios e dar o primeiro passo com a empresa, para que ela possa se tornar lucrativa e, mais tarde, tenha condições até de acessar a Bolsa, além de alimentar a indústria de venture capital.
Considerada a primeira vertente da cadeia de venture capital e private equity, o capital semente vem ganhando mais espaço no mercado brasileiro. Trata-se de investimento em empresas inovadoras, que muitas vezes ainda nem saíram do papel, mas que apresentam boas perspectivas de retorno.
Apesar do risco ser maior neste tipo de investimento, a perspectiva de retorno é alta. Segundo dados da Thompson Reuters, nos últimos 10 anos o mercado de seed capital nos Estados Unidos gerou retorno líquido de 37,9% ao ano para o investidor. De acordo com informações da Thompson Financial & National Venture Capital Association, só no primeiro semestre deste ano 29 fundos de capital semente norte-americanos movimentaram US$ 2,8 bilhões.
Muito utilizado no exterior, o capital semente ainda é incipiente no Brasil e não conta com regulação específica na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O governo, por meio do BNDES e da Finep, por exemplo, já tem programas de estímulo ao seed money, o que demonstra o reconhecimento de que é preciso investir em tecnologias nascentes para gerar desenvolvimento.
A Finep conta com iniciativas como o Seed Fórum, por meio do qual empresas, após passarem por um processo de seleção, têm a oportunidade de apresentar seus planos de negócios a potenciais investidores. Há ainda o Programa Inovar Semente, que já está na terceira chamada, procura selecionar novos fundos de seed money e pretende, em seis anos, aplicar R$ 300 milhões em cerca de 24 fundos, além do recente Prime (Programa Primeira Empresa Inovadora), projeto de subvenção econômica para as empresas nascentes de caráter inovador.
Através dele, a Finep planeja, até 2011, liberar R$ 1,3 bilhão para cerca de 1.800 empresas por meio das incubadoras, que ficarão responsáveis pela seleção dos empreendimentos e repasse da verba estatal.
Já o BNDES injetou R$ 80 milhões no Criatec, fundo de capital semente criado pelo banco, lançado em novembro de 2007. O fundo é gerido por um consórcio formado pela Antera Gestão de Recursos S.A. e o Instituto Inovação S.A e pode fazer investimentos de até R$ 1,5 milhão em empresas inovadoras com foco em TI, biotecnologia, agronegócio, nanotecnologia e novos materiais. O investimento acontece por meio da compra de ações do empreendimento, visando obter lucro com a venda futura das participações. Até agora o Criatec já recebeu 450 propostas e conta com sete investimentos aprovados e três aportes realizados.
Em abril o Criatec realizou o primeiro investimento. Foram aportados cerca de R$ 1 milhão na Rizoflora, empresa sediada em Viçosa que desenvolve soluções biológicas contra o nematóide, uma praga agrícola responsável por prejuízos anuais de US$ 100 bilhões no setor agrícola mundial. A Celer, empresa de Belo Horizonte que faz equipamentos de análises clínicas com robótica, e a Subsin, empresa incubada no IME – Instituto Militar de Engenharia, com atuação em engenharia oceânica de petróleo e gás, química e petroquímica, também foram recentemente investidas pelo fundo.
Em quatro anos, o Criatec vai aplicar um total de R$100 milhões em cerca de 50 empreendimentos promissores. “O edital do fundo exige isso, e também queremos alavancar a ciência nacional. É o tipo de capital virtuoso que ajuda a desenvolver a tecnologia”, declara Robert Binder, gestor nacional do Criatec. O fundo tem um gestor geral e gestores regionais, com foco inicialmente nas regiões que envolvem as cidades de Florianópolis, Campinas (incluindo a capital paulista), Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza e Belém, sendo esta, na opinião de Binder, a que representa o maior desafio. “A idéia é percorrer o Brasil onde jamais imaginou ter capital de risco”.
Frutos – Em relação à perspectiva de retorno do investimento, Binder declara: “podemos comparar o capital semente com uma tecnologia ‘zero km’, que pode quebrar ou bombar. Respeitamos o risco, mas temos que correr e fazer o investimento. Cada mês temos que aprovar um aporte”.
Risco é uma palavra que não deve ser temida pelos investidores. Carlos Eduardo Guillaume, diretor executivo da Confrapar, gestora de seed money de Minas Gerais, conta que trabalha com estatísticas. Ele diz que de dez empresa investidas, duas têm ganhos muito altos, três não trazem retorno e cinco crescem à taxa Selic. “O risco é maior, pois a empresa pode não ir à diante, mas o valor investido é menor e o retorno compensa”, afirma.
A Confrapar S.A recentemente fundiu os seus negócios com a também gestora mineira de capital semente Estufa. O objetivo é tornar a Confrapar a maior fornecedora nacional de projetos para fundos de venture capital e private equity. “Para lidar com retorno de longo prazo a empresa tem que estar bem estruturada, e a Estufa viu na Confrapar um modelo preparado para lidar com ciclo de maturação lento e, do nosso lado, a fusão é boa pela qualidade da equipe da Estufa”, afirma Guillaume. Com a fusão, os três sócios fundadores da Estufa se unem à Confrapar e, juntos, passam a administrar cerca de R$ 90 milhões.
Com cerca de 300 propostas analisadas, a Confrapar recebe de três a quatro planos de negócios por semana. Para a prospecção, Guillaume conta que freqüentemente visita as universidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. “Em seed não basta conhecimento financeiro porque o que conta é o conhecimento do mercado em que o projeto está inserido”, diz.
A Confrapar possui em operação o fundo HorizonTI (enquadrado dentro do programa Inovar Semente da Finep), com foco em TI e comunicação e volume de R$ 20 milhões. A gestora também já estruturou mais dois fundos, o NascenTI, com foco no Rio de Janeiro e patrimônio de R$ 25 milhões, e o BandeiranTI, que vai investir em projetos em São Paulo, com R$ 30 milhões. Fora do fundo, a Confrapar realizou, há dois anos, aporte na Via 6, empresa de comunidade profissional na internet idealizada por dois empreendedores paulistas da USP. Quando investida, a empresa não tinha receita e hoje já conta com 350 mil usuários. Já a Estufa era co- gestora do fundo Rotatec, focado em TI e eletrônica, administrado em conjunto com a FIR Capital, apoiado pela Finep e com R$ 12 milhões para projetos na região sul de Minas.
Fundações – O venture capital norte-americano teve grande crescimento quando os fundos de pensão foram autorizados a investir no setor. Eles foram responsáveis por mais de 50% dos recursos aportados nas últimas décadas. No Brasil, os fundos de pensão começaram a investir em VC nos últimos dois anos, e este setor, em especial o seed money, por ainda ser incipiente, representa grandes riscos às fundações.
“Efetivamente entendemos ser o setor de capital semente muito arriscado, mesmo que ele ajude as empresas nas quais nossos gestores de VC/PE investem”, afirma Wagner Pinheiro, presidente da Petros, que conta diluir os riscos através da diversificação. A instituição investe em seis fundos de seis gestores diferentes e em montantes de recursos menores que o de PE.
Pinheiro ressalta o fato de ser difícil conseguir, no Brasil, um histórico de rentabilidade de gestores de VC/PE, e que de seed money deve ser ainda mais difícil.“Sem este quesito de histórico passado fica mais difícil escolher bons gestores. As empresas nas quais os fundos de capital semente investem requerem volumes de recursos muito pequenos, que de certa forma não são condizentes com os volumes de recursos de que a fundação dispõe”, afirma. A Petros escolhe os investimentos com base no montante investido para não despender o tempo de análise do investimento/gestor com projetos menores. “Quem sabe quando a indústria de PE/VC estiver mais desenvolvida, trazendo junto o capital semente, este nicho passe a ter menos risco, e possamos analisar a possibilidade de investir no segmento”.