Edição 203
Apesar de ainda ser cedo para se falar em uma retomada do fôlego, não se pode negar que pelo menos foi feita uma pausa para respiração. Com R$ 1,776 trilhão em ativos em março deste ano, o volume de recursos sob custódia no mercado brasileiro diminui em relação ao montante de R$ 1,936 trilhão do mesmo mês de 2008, mas evoluiu na comparação com o total de R$ 1,688 trilhão verificado em dezembro do ano passado. Esse pode ser o espelho do impacto que a crise financeira internacional causou na própria indústria de fundos de investimento, que sofreu muito com os saques a partir do segundo semestre de 2008, mas, agora em 2009, vem mostrando uma recuperação.
Mantendo-se no topo do ranking geral elaborado pela Associação Brasileira dos Bancos de Investimento (Anbid), o Itaú nadou contra a corrente e não experimentou uma queda no volume de ativos sob custódia na comparação com março do ano passado, quando se trata de recursos de terceiros e provenientes do mercado interno. “De dezembro de 2007 a março de 2009, nosso crescimento foi de 21%, sendo 15% entre dezembro de 2007 e o mesmo mês de 2008 e 6% já nos três primeiros meses de 2009. Quando o mercado estava experimentando queda e saída de clientes e recursos, nós vivemos uma situação inversa.
Ganhamos mercado nesse período”, diz Ricardo Soares, diretor de Soluções para Mercado de Capitais do Itaú.
Ele credita esse desempenho ao fato de o banco ter iniciado, ao final de 2007, um processo de investimento em qualidade. Soares conta que foi contratada uma consultoria e realizado um trabalho de avaliação dos maiores custodiantes globais para ver quais eram suas estratégias, ferramentas utilizadas e forma de organização. A partir dessa observação dos modelos internacionais e da comparação com a estrutura do Itaú, o banco desenvolveu uma maneira própria para organizar a área de custódia e voltar essa estrutura para o cliente. Associada a esse projeto, o banco conta com uma área destinada exclusivamente para engenharia de processos e qualidade.
Outra iniciativa promovida pelo banco foi a contratação de uma empresa para fazer um trabalho interno de pesquisa com os clientes. “Posso dizer que nós tivemos uma melhora de aproximadamente 50% na nota que havíamos recebido em 2007. Foi uma recuperação realmente importante e eu acho que está ligada a esses dois fatores: organização da estrutura de modo que ela seja voltada ao cliente e mudança na forma como os processos são feitos”, resume Soares. Luciano Magalhães, superintendente de Produtos para Mercado de Capitais do Itaú, acrescenta que o banco conta com algumas ferramentas que dão um termômetro da satisfação do cliente.
“Temos, há cerca de um ano e meio, alguns indicadores para medir o que o cliente está demandando e o que nós poderíamos fazer melhor.
Começamos a utilizar essas ferramentas como parte dos diagnósticos que foram feitos junto com a consultoria contratada”, explica. Soares completa que esse processo de mensurar pontos em que o banco pode melhorar vem acontecendo de forma evolutiva há cerca de três anos. Ele cita que o Itaú usa o que é chamado de KPIs (key performance indicators), que são divididos em duas visões: a de processo e a dos clientes. “A visão dos processos nós já fazemos há aproximadamente três anos e a dos clientes, há algo como um ano e meio ou dois. Nós medimos a nossa performance, mas também a do cliente. Então esses indicadores têm nos dado grandes pistas de onde nós temos que melhorar o nosso trabalho, definindo as origens dos problemas e os planos de ação. Não fica um processo passivo, mas sim ativo no sentido de buscar solução, de correção de desvios que nós observamos”, detalha. “O bom de fazer esse acompanhamento é que nós não deixamos para ‘discutir a relação’ com o cliente depois de muito tempo.
Nós fazemos disso uma constante, de forma que temos um rápido diagnóstico e conseguimos responder a qualquer demanda”, reforça Magalhães.
Soares acrescenta que, no quadrante “recursos de origem de outras instituições no mercado doméstico”, o Itaú viu seu número de clientes crescer 25% de dezembro de 2007 a março de 2009, sendo cerca de 23% entre os meses de dezembro de 2007 e 2008 e algo como 2% nos três primeiros meses deste ano.
Fundos de pensão – Em ativos de origem de outra instituição provenientes do mercado doméstico, o Bradesco aparece em primeiro lugar no ranking da Anbid referente a março deste ano, com R$ 158,1 bilhões. “O mercado continua, de alguma maneira, tendo algumas oportunidades de licitações.
De fato, em 2008 o ritmo foi menos acelerado do que em anos anteriores em função da crise no segundo semestre, mas houve processos de reavaliação e busca por novos players. Nós conquistamos 16 novos clientes durante o ano passado, entre fundações, assets, butiques de investimento e private banking”, aponta Cassiano Scarpelli, diretor do departamento de ações e custódia do Bradesco. Ele diz que, em 2009, mais dois fundos de pensão entraram para a carteira de clientes do Bradesco na área de custódia, entre eles a Fundação Cesp, e acrescenta que o banco está participando de outros dois ou três processos de concorrência abertos por fundos de pensão.
Segundo o ranking da Anbid, o Bradesco é líder em custódia de ativos de entidades fechadas de previdência complementar (de terceiros no mercado doméstico), com R$ 80,425 bilhões em março de 2009. Scarpelli diz que esse número era de R$ 56,2 bilhões em dezembro de 2007 e de R$ 66,4 bilhões ao final do ano passado, prova de que as fundações exercem um grande peso no crescimento dos ativos sob custódia da instituição financeira. “Entre 2003 e 2004, montamos um desk com tecnologia, recursos humanos e atendimento diferenciado para os fundos de pensão. Desde então, tivemos um crescimento muito relevante no segmento e nos fortalecemos como um player importante. Vamos continuar investindo em tecnologia e qualidade do serviço nessa área, que faz parte do nosso core business.” Scarpelli informa que o Bradesco tem mais de 30 fundações em sua carteira de clientes na área de custódia. O executivo diz que apesar de o número parecer pequeno diante do universo de mais de 300 entidades no Brasil, o banco acabou conquistando grandes fundos de pensão, o que faz diferença quando o assunto é patrimônio. “Nós temos fundações de peso.
Não que isso seja um target, porque nós trabalhamos com todo tipo de cliente, mas fomos de acordo com a demanda do mercado e acabou tendo muitos processos de reavaliação de custodiantes nessas entidades maiores. Acho que agora o mercado vai permitir que nós trabalhemos em outras faixas de tamanhos de fundações”, estima. Scarpelli diz que o banco está preparado para o business, porque tem um desk voltado para fundos de pensão que independe do tamanho do patrimônio do cliente.
Consolidações – A incorporação do ABN Amro Real gerou um incremento de 8% no volume de ativos sob custódia do Santander ao final do ano passado, na comparação com o mesmo período de 2007. No total, incluindo a contribuição do Real, o banco obteve crescimento de 22% na área em 2008 e, para este ano, a meta é avançar 35%, segundo Laércio Ramos, superintendente comercial e de produtos do Santander Global Custody e Securities Services Brasil.
Um dos pilares que darão sustento a esse crescimento são os frutos de um processo pelo qual o banco está passando e que o executivo chama de “fazer a lição de casa”. “Passamos por dois processos que estão exercendo um grande impacto por aqui. Um deles é a integração com o Real, com a vinda dos clientes da plataforma Real para a plataforma Santander, e o outro é a própria troca da plataforma. O banco acabou de passar por um processo de implementação de uma nova plataforma tecnológica, tendo investido alguns milhões de dólares nisso. É preciso fazer todo um escalonamento e toda uma programação de troca da plataforma, o que também implica em uma revisão completa dos fluxos operacionais”, diz Ramos. Ele explica que o banco se dedicou, ao longo do primeiro trimestre deste ano, à integração com o Real e à implementação da nova plataforma e, agora, está trabalhando em um processo de revisão de fluxos, que o Santander espera terminar agora em maio. “Esses dois temas darão uma envergadura bastante grande para o banco no sentido de oferecer mais produtos e informações para os clientes”, prevê.
Com a aquisição do Real, o Santander também incorporou uma carteira bastante relevante em serviços de trustee, voltados tanto para o público institucional quanto corporativo. “Hoje temos cerca de 150 operações em curso naquilo que chamamos de serviços de trustee, que tem se mostrado uma fonte de receita relevante e também traz um conceito importante de fidelização com o cliente corporativo. Apesar de todo o chinese wall, o serviço de trustee permite uma venda cruzada com outros negócios do banco na parte de empréstimos a grandes corporações”, conta Ramos.
No caso de Itaú e Unibanco, a integração entre as áreas de custódia deve ocorrer de forma bastante tranquila, nas palavras de Ricardo Soares. “Claro que existe a questão das sucessões contratuais, naturalmente nós ainda temos que discuti-la com alguns clientes, mas o número é muito pequeno”, explica o executivo, ao acrescentar que o Unibanco não tratava o negócio de custódia da mesma forma que o Itaú. “No Unibanco esse produto era muito mais um apêndice do próprio negócio de asset do que um business efetivo como temos aqui”, define.
Ele diz que o fato de o Unibanco não ter a custódia como um produto estratégico faz com que a consolidação com a área do Itaú transcorra de forma bastante tranqüila, uma vez que esse esforço de integração “praticamente não existe”.
Investidor estrangeiro – No ranking de mercado externo – recursos de outras instituições, o Citibank desponta como líder em ativos que entram no País por meio da Resolução 2.689, com R$ 125,801 bilhões em março de 2009. “Já temos essa posição de liderança há alguns anos, o que significa que nós temos ganhado clientes, a despeito da depreciação no valor dos ativos”, afirma Márcio Veronese, diretor de custódia do Citi. O executivo informa que o banco monitora o número de contas abertas por investidores que aplicam no Brasil via 2.689, o que serve de termômetro para medir o apetite internacional por aportes no País – para negociar ativos aqui, esse investidor precisa abrir uma conta local. A boa surpresa é que março de 2009 foi o melhor mês de março de todos os tempos em número de contas abertas por estrangeiros no Citi, com esse movimento voltando aos patamares do início do ano passado. “Isso pode significar que mais gente está se preparando para entrar no mercado brasileiro. O Brasil ainda é muito atrativo para o investidor externo. Acredito que, passado o pior da crise, nós possamos ver uma volta do fluxo de investimentos”, estima Veronese.
O executivo conta que a área de custódia do Citi está participando de três concorrências grandes, sendo que duas devem ter seus resultados divulgados em breve e uma pode levar mais algum tempo – o banco passou da primeira fase do processo e aguarda a continuação da concorrência. Veronese afirma que, apesar de o Citi ter uma posição de liderança já há algum tempo, o banco continua indo atrás de novos clientes. O executivo acrescenta ainda que vê uma tendência de alteração nas principais regiões de origem dos recursos que ingressam no Brasil via 2.689.
“Já está em curso uma mudança no perfil dos investidores, que passam a vir mais da Ásia e da Europa. Hoje, a maioria ainda é dos Estados Unidos, mas já podemos ver o aumento do interesse dos investidores de outras regiões. Acredito que haverá um aumento expressivo nesses outros locais”, diz Veronese. Ele afirma que o Citi tem intensificado os trabalhos de prospecção de clientes na Ásia e na Europa. “Fazemos apresentações e mostramos o desenvolvimento do mercado brasileiro e as boas práticas do mercado local no que diz respeito ao direito dos investidores, o padrão de práticas e controles”, comenta.
No Santander, boa parte do crescimento de 35% estimado para este ano virá dos serviços de custódia para investidores não-residentes, de acordo com Laércio Ramos, que também ressalta o fato de o Brasil apresentar bons fundamentos como um ponto que conta bastante a favor em um momento como este, de crise global. “O Brasil é uma referência importante para o investidor estrangeiro em função do melhor preparo do mercado financeiro nacional. Além disso, a regulamentação se mostrou bastante coerente, evitando a multiplicação dos problemas que aconteceram lá fora. Isso dá segurança para o investidor trazer os seus recursos para cá”, diz Ramos. Além dessa imagem do Brasil, o executivo cita que a rentabilidade obtida pelo Santander no ano passado, o modo como o banco gerenciou bem a crise e se saiu melhor do que a maioria dos bancos estrangeiros nesse período mais turbulento são fatores que contribuem para aumentar a procura dos investidores pela instituição financeira.
Ramos informa que, no que se refere a investidores não-residentes, o Santander já está com alguns clientes com mandatos para o banco atuar como provedor de serviços de custódia. “São clientes que estão deixando outros players de mercado para vir para cá porque enxergam o Santander como um porto-seguro”, afirma. No ano passado, o banco conquistou 30 novos clientes estrangeiros para prover serviços de custódia.
Para Roberto Cortese, diretor de Custódia Internacional do HSBC, com o “chacoalhão” da crise o mercado de custódia para investidores estrangeiros ficou para poucos, já que alguns bancos fecharam subsidiárias em alguns países. Esse, porém, não foi o caso do banco inglês, que oferece o serviço de sub-custódia em 39 países, incluindo o Brasil, e o serviço de custódia global em que provê acesso a mais de 80 mercados. A boa colocação do HSBC nesse mercado também se deve, segundo Cortese, ao fato de o banco agregar valor a um serviço commoditizado. “Investimos pesado nas estruturas de processamento com altos níveis de automatização, como no cálculo de impostos e no fechamento do câmbio.” O HSBC ocupa o segundo lugar no ranking de ativos de outras instituições que ingressam no País via 2.689, com R$ 54,350 bilhões em março.
Daqui para fora – Já quando o assunto é o acesso ao mercado externo, o HSBC já oferece o serviço de custódia para fundos que investem no exterior desde o ano passado e, agora, está apostando num sistema do banco já utilizado em outros países e que dentro de pouco tempo será disponibilizado ao investidor local: o HSBC Fast, uma plataforma eletrônica de negociação de cotas de fundos que oferece ao investidor a capacidade de investir em 60 mil fundos do HSBC e de outros players. “É um business de distribuição”, explica Rogério Felgueiras, diretor de Custódia Local do HSBC. Segundo ele, o investidor brasileiro não irá acessar o mercado externo comprando ativos finais, mas vai dar um passo intermediário comprando ativos por meio de cotas de fundos. Sylvio Rocha, diretor de Custódia do HSBC para América Latina, destaca que o acesso ao mercado externo era uma demanda premente do mercado brasileiro, mas dois fatores contribuíram para que não houvesse a esperada corrida pelo serviço. Uma é que quando veio a mudança na regulação do mercado brasileiro em fevereiro de 2008, o cenário interno estava “bombando” e não havia interesse dos investidores locais em investir lá fora. No passo seguinte veio a crise, que no caso do Brasil veio de fora para dentro, e o investidor se retraiu para entrar em fundos com ativos estrangeiros, ainda mais com os problemas com fundos de hedge que apareceram, como o Madoff, lembra o diretor. “Agora, passado o pior da crise, quando o mercado voltar teremos um produto redondo para oferecer.” Também nessa mesma direção, o Itaú deve fechar ainda este ano um acordo com um custodiante global para que os investidores possam acessar o mercado externo tanto por meio de fundos como via investimento direto em ativos. “Já temos clientes que fazem essas operações, mas nada em grande escala”, conta Ricardo Soares. Ele diz que com o processo de queda da taxa de juros, a tendência é de que o exterior se mostre cada vez mais atraente aos investidores. “Passado esse momento de crise, acredito que o investidor vai se voltar mais para o exterior”, estima o executivo do Itaú.
O Citi é outro que aposta no exterior como fonte de diversificação para as aplicações de investidores brasileiros. “Uma grande vantagem é a quantidade de países em que estamos presentes, são 54 com custódia direta. A abertura para que fundos possam aplicar no exterior nos traz a possibilidade de prestar serviços em vários países. É um movimento incipiente, mas que no longo prazo tende a ganhar força”, prevê Veronese.
Players apostam na custódia de FIPs e FIDCs A queda da taxa de juros e a busca por investimentos mais sofisticados trazem um efeito também à área de custódia. “A custódia é a cozinha do mercado financeiro e por isso tem que estar preparado para processar ativos mais sofisticados, como Fips e FIDCs”, diz Sylvio Rocha, diretor de Custódia do HSBC para América Latina. De olho nisso, o banco lançou, no começo de abril, o serviço de custódia e controladoria para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e Fundos de Investimento em Participação (FIPs). “Optamos por não fazer a administração desses fundos, pois estamos focando o serviço para terceiros”, explica Rogério Felgueiras, diretor de Custódia Local do HSBC.
O mercado de FIDCs é exatamente o foco do Deutsche no Brasil, que espera um crescimento de 40% em patrimônio custodiado este ano. “O crescimento desse mercado está na custodia especializada, para novos nichos de mercado”, afirma Ricardo Nascimento, diretor de custódia do Deutsche no Brasil, que cita, além dos Fips e FIDCs, os Fundos de Investimentos Imobiliários como exemplos de mercados que vão ter grande crescimento. “Com a queda na remuneração da renda fixa, o investidor institucional vai procurar ativos com maior rentabilidade.” Esses ativos, segundo ele, também interessam muito ao investidor estrangeiro, que aprendeu bastante sobre o mercado brasileiro nos últimos anos e vem procurando novas estruturas de investimentos. “Os bancos que tiverem o serviço para oferecer vão ganhar”, resume Nascimento.
Cassiano Scarpelli, diretor do Bradesco, conta que a experiência da área de custódia do banco com fundos de pensão ajudou a colocar a instituição como grande prestadora de serviços aos FIPs. “As grandes fundações trabalham bastante com FIPs e esse foi um mercado que evoluiu muito no ano passado. Nós temos mais de R$ 20 bilhões em patrimônio de FIPs sob custódia, e só em 2008 conquistamos mais de 30 clientes nessa área”, diz o diretor, ao acrescentar que o Bradesco também trabalha com custódia em fundos de recebíveis.