Edição 384
O X da questão
As suspeitas de que algo incomum ocorria no Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, circulavam no mercado financeiro há anos, bem antes da intervenção do Banco Central, em novembro de 2025. O banco, que adotou esse nome em 2021 após a reestruturação da antiga corretora Máxima, era frequentemente citado por participantes do mercado como um caso atípico, por oferecer remuneração de até 140% do CDI em aplicações que instituições tradicionais pagavam em torno de 102% do CDI. Diante disso, investidores e gestores perguntam se o BC nunca identificou sinais de falta de liquidez ou de violações das normas prudenciais por parte do Master.

A intervenção estatal no domínio econômico é uma competência prevista na Constituição Federal e decorre do reconhecimento de que não é possível deixar os mercados se autorregularem plenamente. A história econômica é repleta de episódios que demonstram a fragilidade dessa premissa e evidenciam que a ausência de supervisão pode gerar graves distorções e prejuízos sociais.
Quando o Estado atua diretamente na supervisão e fiscalização de uma atividade econômica, espera-se que essa vigilância produza um efeito concreto: garantir segurança aos cidadãos e evitar que sejam prejudicados por aqueles que estão sob monitoramento.
O caso do Banco Master e de seu conglomerado representou um duro golpe para a sociedade brasileira. A situação atingiu mais de 1,6 milhão de investidores, com valores que já ultrapassam a casa dos 50 bilhões de reais, e lançou uma nuvem de desconfiança sobre a atuação do Banco Central do Brasil.
Embora ainda seja cedo para atribuir responsabilidades ao Banco Central nesse episódio, há um aspecto que chama atenção e merece reflexão: o baixíssimo número de investidores institucionais com aplicações no conglomerado. Nenhum fundo de pensão (EFPC) ou seguradora registrou perdas. Entre os mais de 2.100 fundos de Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) existentes no país – ambientes nos quais, inclusive, o risco de ingerência política é reconhecidamente elevado – apenas 18 possuíam investimentos no Banco Master, ou seja, menos de 1%.
Quando investidores profissionais, cuja atividade consiste justamente em buscar maximização de resultados e ganhos, evitam determinado tipo de aplicação, a explicação costuma ser simples: o risco percebido é elevado e não compensa ser assumido.
Por outro lado, também é sabido que organizações estruturadas para aplicar golpes, quando conseguem êxito em seu propósito, normalmente desenvolvem mecanismos sofisticados para fraudar e enganar aqueles responsáveis por sua vigilância.
O tempo e, sobretudo, as provas que ainda surgirão indicarão se houve ou não falha do BC em sua atividade de supervisão prudencial e de riscos. Entretanto, compreender quais controles, análises e indicadores mantiveram os investidores institucionais afastados do Banco Master pode ser um caminho relevante para ajudar a esclarecer o que realmente ocorreu.

A bola está na marca do pênalti, o goleiro se prepara para tentar defender. Tem que escolher o canto e contar com 50% de chance de acertar. Caso se mova um tempo mínimo antes do ideal, vai sair de um lado da foto, com a bola no outro. Se se mover um pouquinho depois, não terá tempo de chegar para a defesa. O momento exato para explodir para um lado é crucial para aumentar a chance de sucesso.
Por falta de uma tradução adequada, vou continuar usando o termo em inglês. Timing no mercado de ações é algo que se discute no mundo todo, há muito tempo. Em quarenta anos estudando o tema tenho visto gestores profissionais errarem muito mais do que acertam quando tentam prever os movimentos da bolsa como um todo e são vários os exemplos significativos coletados ao longo dessas décadas. Isso ocorre dentro das carteiras, através de modificações nos seus Betas, e também nas carteiras consolidadas de planos de previdência, mandatos balanceados e todo tipo de estrutura em que o gestor possa mover recursos entre as classes de ativos.
Agora nos deparamos com a discussão sobre o timing do Banco Central no caso Banco Master. Adiantado ou atrasado? Aqui a discussão não é simples, não dispõe das métricas que usamos em avaliação de performance de carteiras nem de todas as informações necessárias, que suponho que vão surgir apenas ao longo do tempo. Também como no timing do mercado de ações: depois que já passou o evento, surgem os profetas do passado, que com o jornal de hoje dizem o que você deveria ter feito ontem. Aí fica fácil determinar qual teria sido o momento adequado. O difícil é acertar no calor da hora, com o problema emergindo.
O Banco Central não pode se mover de forma apressada. Uma decisão dessa natureza precisa estar muito bem fundamentada técnica e juridicamente. Não apenas por poder ser questionada na Justiça, mas porque a intervenção e a liquidação são medidas extremas, com efeito sobre credores, investidores e a confiança no sistema financeiro. Há inclusive vários precedentes de acionistas que contestaram judicialmente decisões desse tipo, em disputas que se arrastaram por anos. Mas, se agir tarde demais, o estrago pode ser ainda maior: o patrimônio se deteriora, as perdas se ampliam e o risco de contágio aumenta.
Talvez seja cedo para uma conclusão.