Disputa por market share

Aumento da demanda por FIDC e ETF e novas regras regulatórias, aceleram a disputa por market share entre os prestadores de serviços fiduciários no mercado doméstico

Edição 387

“A IA na atividade fiduciária não substitui a governança, mas é uma ferramenta importante para aumentar a qualidade e a velocidade dos serviços”, diz Joaquin Alfaro, presidente da S3 Caceis Brasil

A expansão das operações com FIDC, o avanço ainda incipiente dos ETF e os efeitos da Resolução CVM 175 vêm redesenhando a agenda dos prestadores de serviços fiduciários no mercado doméstico. S3 Caceis, BTG Pactual e BNY apontam crescimento de suas operações, exigindo investimentos em tecnologia, busca por novas classes de fundos e maior disputa por market share em um ambiente de carteiras mais sofisticadas e de maior exigência operacional.
Na S3 Caceis, a adaptação à CVM 175 marcou o avanço da custódia como elemento de governança e segurança das operações. A instituição registrou crescimento de 13% em ativos totais sob custódia em relação a 2024, incorporou 25 novos mandatos no ano passado e, em 2026, até abril, já havia conquistado mais onze. A prioridade agora é ampliar a capacidade em ETF e investimentos alternativos, com apoio de tecnologia e inteligência artificial.
No BTG Pactual, os ETF e os FIDC são as duas principais frentes de crescimento. O banco, que já tem fatias de 25% a 30% de market share na custódia de fundos de ações e de fundos imobiliários, ampliou sua presença em ETF de R$ 1 bilhão para R$ 20 bilhões em três anos e chegou a 18% de participação nesse mercado em abril. Nos FIDC, saiu de uma fatia irrelevante para 11% do mercado, tornando-se o terceiro maior player nessa classe no País.
No BNY, o crescimento dos fundos de crédito privado compensou o recuo de volumes em renda variável e multimercados. A casa registrou aumento de 17% no volume de ativos em março de 2025 frente a março de 2024, mesmo com redução no número de fundos, em razão da reorganização das estruturas trazida pela CVM 175. O banco também estuda ampliar sua atuação em ETF e reforçar serviços de controladoria e custódia para administradores terceiros.

Governança e tecnologia – “O ano de 2025 mostrou que a custódia deixou de ser uma atividade puramente operacional para ser um elemento de governança e segurança das operações”, afirma Joaquin Alfaro, presidente da S3 Caceis Brasil, coligada ao grupo Santander. A adaptação às regras da Instrução CVM 175 foi um dos pontos mais relevantes no ano passado, lembra Alfaro.
“Adequamos 100% dos fundos à nova legislação com antecedência e aplicamos a tecnologia para reforçar esse processo e atender os clientes de maneira completa. Atualmente, já temos cinco clientes utilizando a estrutura de subclasses em seus fundos”, explica.
A instituição registrou crescimento de 13% em ativos totais sob custódia em relação a 2024 e incorporou 25 novos mandatos no ano passado, quatro dos quais para novos clientes institucionais. Em 2026, até abril, já haviam sido conquistados mais onze mandatos. A maior parte do volume está no mercado doméstico, em que a casa tem 4,5% de participação relativa.
“Passamos a investir mais em tecnologia para assegurar maior conectividade com os clientes e oferecer custos melhores, com maior eficiência no processamento das cotas”, diz Alfaro. Além das plataformas tecnológicas, ele destaca a importância de investir na capacidade das pessoas.
Na prestação de serviços para clientes enquadrados na Resolução 4.373, o banco também tem registrado crescimento, com quatro grandes contas atualmente no pipeline. São clientes que investem principalmente em renda fixa, a maioria em títulos públicos.
Para 2026, a prioridade é ampliar a capacidade em ETF e investimentos alternativos, uma agenda que exige reforço tecnológico. “Já temos um primeiro ETF mas o objetivo é ter uma oferta mais completa e não só para produtos de renda fixa, como acontece hoje. Temos trabalhado inclusive para ter o primeiro fundo de Fiagro”, conta.
O investimento em tecnologia é prioritário, em especial no uso de inteligência artificial para transformar sua custódia e assegurar processos mais rápidos de controle. “A IA na atividade fiduciária não substitui a governança, mas é uma ferramenta importante para aumentar a qualidade e a velocidade dos serviços”, diz.
Com o cenário de juros ainda altos, porém com previsão de baixa, os recursos no mercado doméstico que estão sob controladoria tendem a passar por uma diversificação maior de classes de ativos, refletindo o movimento dos investidores. “Os institucionais que são nossos clientes já estão começando a rever os controles de suas carteiras de estruturados e de investimento no exterior, para estarem prontos para qualquer cenário de mercado”, afirma Alfaro.

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“Essa expansão dos ETF deve seguir, inclusive com a entrada de diferentes tipos de players no mercado”, afirma Gustavo Piersanti, diretor de serviços fiduciários do BTG

Presença em ETF e FIDC – A expansão das operações com FIDC e ETF teve reflexo direto no desempenho das áreas de custódia e administração fiduciária em 2025. As duas classes de fundos alavancaram o aumento dos volumes custodiados e estimularam a disputa dos prestadores de serviços pelos potenciais ganhos de market share.
“O crescimento da indústria de FIDC, que já atingiu patrimônio líquido de R$ 810 bilhões no final de 2025 e tem a expectativa de chegar a R$ 1 trilhão em 2026, tende a continuar nos próximos anos”, aponta Gustavo Piersanti, diretor de serviços fiduciários do BTG Pactual.
Com fatias de 25% a 30% de market share tanto na custódia de fundos de ações como na de fundos de investimento imobiliário, o banco vê ETF e FIDC como as duas principais frentes de crescimento daqui para a frente.
“Temos investido bastante de 2024 para cá, mas em especial desde 2025, para ampliar os serviços nessas duas classes porque tínhamos uma presença tímida, de 5% a 10%, e identificamos o potencial de ganho expressivo de market share em ambas”, diz.
Como resultado, em abril deste ano o market share da casa em ETF chegou a 18%. “Em três anos, saímos de R$ 1 bilhão para R$ 20 bilhões sob custódia em ETF, com serviços que atendem os players do mercado de modo geral mas têm a BTG Pactual Asset como o principal cliente. O avanço é bem visível nesse período, mas o grande salto ocorreu de 2025 para cá, quando o volume passou de R$ 5 bilhões para R$ 20 bilhões”, explica.
No mercado de FIDC, o banco saiu de uma fatia irrelevante para ter 11% do mercado atualmente e é o terceiro maior player nessa classe no mercado brasileiro. “Esperamos crescimento também nos próximos anos e investimos muito para isso. No caso dos FIDC, o principal cliente não é a asset do grupo, mas temos um público bem diversificado em gestores e tipos diferentes de FIDC, é uma posição bem pulverizada”, conta.
Voltada para o mercado doméstico, a instituição é um grande player junto às casas independentes e aos fundos de pensão. “Os demais incumbentes não atendem esses segmentos de maneira tão intensiva como nós fazemos em todas as classes. Para os RPPS, a nossa presença é maior nas carteiras administradas e, no caso das EFPC, nos seus fundos exclusivos”, afirma Piersanti.
O volume de custódia para RPPS está entre R$ 21 bilhões e R$ 22 bilhões e, nos quase quatro anos desde que começou a atender esse segmento, a área conquistou 20 mandatos de custódia centralizada para estados e prefeituras. “Esse público é bem dinâmico, eles revisitam mais os prestadores de serviços, até por conta de suas regras de contratação uma vez que são entes públicos. Já nas EFPC, os contratos não têm prazo de validade, elas mudam o prestador quando querem, então é um mercado que não se movimenta tanto”, detalha Piersanti.
Ele lembra que o patrimônio dos fundos de índices representa apenas 1% da indústria de fundos no Brasil, enquanto nos EUA e na Europa isso chega a 50% do total. “Essa expansão dos ETF deve seguir, inclusive com a entrada de diferentes tipos de players no mercado. Nos últimos anos, o grande destaque foi o aumento dos ETF de renda fixa, que tem espaço crescente seja junto às EFPC, no varejo e também nas assets”, estima.
Nos FIDC, o potencial vem da tendência de descentralização do crédito, com a necessidade de dar acesso rápido e prático aos recursos. “Temos todas as razões para acreditar nessas classes e seguimos investindo nos times e na tecnologia”, diz.

Eficiência e novas regras – Ao longo dos últimos 12 meses, os fundos de crédito privado continuaram a crescer entre os investidores brasileiros, contrabalançando o recuo de volumes registrado nas classes de renda variável e multimercados, movimento que esteve refletido nos serviços de custódia, explica Peterson Paz, head comercial de asset servicing para América Latina e Caribe do BNY. “Nossa carteira é bem balanceada, com diferentes gestores, mas de modo geral o volume de renda fixa compensou a queda nos demais fundos”, afirma.
A incorporação das novas regras da CVM 175 foi uma iniciativa relevante em 2025, diz o executivo. Ele lembra que houve uma reestruturação de famílias e que as estruturas de fundos master/feeders foram reorganizadas em classes e subclasses, o que reduziu marginalmente o número de fundos sob custódia, embora o volume de ativos tenha crescido.
“Mas conseguimos ter um aumento de 17% no volume de ativos em março de 2025 frente a março de 2024, mesmo com a redução do número de fundos”, afirma. Uma das consequências das novas regras, acredita Paz, será dar maior eficiência às estruturas dos fundos.
“Além disso, a norma coloca com clareza as responsabilidades de administradores, gestores e custodiantes. Já vemos os gestores mais ativos na contratação de distribuidores porque, em caso de desenquadramento, eles serão responsáveis”, afirma.
O banco estuda ampliar sua diversidade de fundos com a incorporação de ETF. Por enquanto, os multimercados são os principais veículos sob custódia porque têm flexibilidade da multi-estratégia e são muito representativos, afirma o executivo. “Em ETF somos muito grandes lá fora e estamos olhando agora para essa classe como uma de nossas prioridades para o mercado brasileiro, estamos fazendo estudos aprofundados nesse sentido”, diz.
Um dado importante nesses estudos é o fato de que os ETF foram lançados no Brasil há mais de 15 anos, mas ainda representam apenas 1% da indústria. “Estamos conversando principalmente com os clientes locais, mas também com os globais, e trabalhamos para ter esses fundos aqui em 2027”, conta Paz.
Com US$ 59,4 trilhões em ativos sob custódia globalmente e prestes a completar 15 anos em serviços de custódia no Brasil, o banco quer galgar novas posições no ranking local. “Hoje somos o décimo em tamanho mas quando olhamos para ativos de terceiros somos o quarto maior custodiante, o que reflete a confiança dos investidores. O nosso objetivo é continuar a crescer”, afirma.
Entre as prioridades está reforçar o projeto lançado há alguns anos para oferecer serviços de controladoria e custódia a administradores terceiros. “Hoje estamos com um volume pequeno de serviços nesse modelo mas acabamos de conquistar, em 2025, um novo cliente e acreditamos que, com a segregação de papéis trazida pela CVM 175, haverá mais instituições interessadas em oferecer administração mas sem terem estrutura para fazer custódia e controladoria”, acredita Paz.
Para crescer nessa frente será preciso investir em conectividade e automação, de modo que o cliente consiga acessar informações de maneira mais rápida. “Já estamos trabalhando com a B3 nesse sentido, para nos conectar a todos os novos ambientes de negociação. E temos avançado também no processo de homologação de depositários para que, quando eles estiverem operacionais, possamos oferecer esse serviço”, diz. A intenção é estar conectado a diferentes depositários e a múltiplos ambientes de negociação para ter mais agilidade e mais integrações.