Disputa acirrada

Ricardo Soares, do ItaúLuciano Magalhães, do ItaúMárcio Ferretti, do BNY MellonCustódia - Ranking GeralEdição 256

Em meio a mudanças de regras, Itaú reassume liderança geral do ranking de custódia de ativos com pequena margem a frente do Bradesco

Enquanto o mercado de custódia no Brasil se prepara para se adaptar às mudanças importantes nos próximos anos, com a perspectiva de novas regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que devem começar a valer a partir de junho de 2014, as maiores instituições privadas disputam palmo a palmo o topo do ranking do mercado. A liderança que anteriormente era ocupada pelo Bradesco deu lugar ao Itaú, que o ultrapassou por pequena margem. Outra mudança importante foi a ascensão do Citibank, que passou da quarta para a terceira posição, tomando a frente do Banco do Brasil.

Apesar da pequena quantidade de players que disputam uma fatia na prestação de serviço de custódia de ativos, o mercado não está parado. Novos concorrentes, como a Caixa Econômica e o BNY Mellon estruturaram e passaram a oferecer a custódia para terceiros no ano passado. Há também os concorrentes que não sobrevivem, como é o caso do HSBC, que deixou de ter postura ativa na disputa de clientes terceiros no final de 2012. E ainda há aqueles que prometem entrar com maior apetite no mercado de custódia e administração fiduciária, como é o caso do Banco do Brasil, que está avaliando parceria com um sócio global ou do mercado doméstico (ver matéria na pág. 22).
Além das entradas e saídas de concorrentes, outro elemento que promete movimentar esse mercado são as novas regras da CVM que passaram por audiência pública no ano passado – Instruções 541, 542, 543 e 544. A principal alteração decorrente desse processo, que visa trazer mais segurança aos investidores, prevê que todos os ativos negociados no país sejam alocados em uma central depositária, o que atualmente ocorre somente com as ações.
“Isso abre novas possibilidades de negócios aos prestadores de serviços, então muito provavelmente o mercado se amplia”, afirma Marcio Veronese, diretor da área de serviços qualificados ao mercado de capitais do Citi. Entre as alterações que veremos no curto e médio prazo, o executivo cita o exemplo de uma pessoa física que tenha comprado um valor mobiliário via um banco no qual já tenha conta. A partir das novas regras da CVM, esse investidor também precisará de um custodiante. “O banco terá que mudar o jeito de organizar seus negócios e apresentar a figura do custodiante para as pessoas físicas e corporações”, pontua Veronese.
Em um ambiente de mudanças nas regras do jogo, a tendência natural é que os agentes de mercado optem por trabalhar com profissionais já conhecidos, de histórico comprovado e, tratando-se do âmbito local, o Itaú é a principal figura que aparece nessa fotografia. Em novembro de 2013, a instituição conquistou a liderança no ranking da Anbima de custodiantes, com R$ 939,82 bilhões, praticamente empatado com o segundo colocado, o Bradesco, com R$ 939,51 bilhões, e que estava no topo do levantamento até dezembro do ano retrasado. Já o Itaú, cujos ativos somavam R$ 939,7 bilhões no mesmo período, ficou praticamente estável de 2012 para 2013. Sua liderança veio basicamente às custas do Bradesco, que reportou queda de 3,5%, após o BNY Mellon, que deixava seus ativos custodiados com o banco brasileiro, optar por iniciar sua própria operação.
Em seu primeiro ano de atuação como custodiante, o BNY Mellon já aparece na décima posição, com R$ 38,14 bilhões. O custodiante realiza gradualmente o processo de migração para a custódia própria, que deve ser concluída em meados deste ano (ver matéria na pág. 20). “Estamos acelerando o fluxo de migração dos fundos para a custódia própria, que deve atingir cerca de R$ 100 bilhões ao final do processo”, diz Márcio Ferretti, superintendente de custódia do BNY Mellon.
Na custódia de ativos originados por outras instituições, que é onde a disputa ocorre efetivamente entre os custodiantes, o Itaú registrou importante avanço de 26% no ano e de 31% em 12 meses. A captação no mercado local totalizou R$ 55 bilhões nos 11 meses de 2013, sendo metade proveniente de gestores de assets, com a outra metade dividida entre institucionais e estruturados. “Startups de gestores e family offices alavancaram nossa captação. Conseguimos captar clientes que estavam se estruturando no mercado, pois focamos bastante na parte de controle”, pontua Luciano Magalhães, superintendente da área de custódia do Itaú.

Off-shore em alta – Para 2014, uma categoria que deve ganhar destaque no mercado de custódia é a dos ativos off-shore, segundo a avaliação de Ricardo Soares, diretor de seviços para o mercado de capitais do Itaú. “Os ativos off-shore estão ganhando uma importância cada vez maior, seja no tema de cotas de fundos ou mesmo de ativos internacionais comprados diretamente”, diz. A própria estagnação que permeou as oportunidades além fronteiras por muitos anos, dado os antigos e elevados níveis da taxa Selic, permite agora um importante potencial de crescimento.

“A taxa de juros voltou a subir, mas os clientes, sobretudo os gestores, começaram a perceber que essa elevação tem um vínculo com o controle inflacionário, e a gente não espera que isso continue para sempre. Então, o mercado terá que se ajustar e se internacionalizar”. Para os custodiantes, diz o executivo, esse novo cenário que se desenha trará uma série de novos desafios, que vão desde as exigências fiscais de outras praças financeiras, até a adequação do modelo de boletagem.
Os fundos de investimento em direitos creditórios (Fidcs) são outra aposta do diretor do Itaú em uma categoria de investimento que tende a andar bem neste ano, até mesmo pela fraca performance apresentada em 2013 por conta das mudanças na regulação desse mercado, que seguraram algumas emissões. “Uma vez que o mercado já digeriu tudo isso, e como as taxas de juros começaram a subir, acreditamos que possa haver um impulso e teremos um mercado um pouco mais aquecido aos Fidcs”, diz Soares.

FIIs em baixa – Os fundos de investimentos imobiliários (Fiis), por outro lado, não devem ter um grande desempenho, assim como ocorreu no ano passado, muito em função do aumento da taxa básica de juros. “Em 2013, esperávamos números muito mais significativos. Para esse ano, dada a continuidade dos juros nesse patamar, não esperamos um aquecimento muito grande”, afirma Soares.

Para os fundos de investimento em participações (Fips) as previsões também não são muito entusiasmantes. “Os Fips têm um ‘timing’ de implementação bastante complexo, pois envolve investimentos grandes, com um nível de complexidade na aquisição dos ativos. Enquanto isso, o mercado está mudando, como mudou rapidamente com relação à taxa de juros, o que pode determinar uma mudança de apetite em relação aos investimentos”, fala o diretor do banco. “O mercado de Fips tem crescido, mas nunca em taxas expressivas, e acreditamos que deve continuar nessa toada”.

Renda fixa segue forte – A antiga e tradicional renda fixa, com a galgada dos juros, e o ambiente com mais incertezas que certezas, deve manter o posto de principal destino dos recursos a serem custodiados pelo Itaú em 2014. “O segmento que mais cresceu em 2013 foi o de renda fixa, via debêntures, títulos públicos e CRIs. Já na renda variável sentimos uma diminuição da participação, tanto em função da queda da Bolsa, como também da não recomposição do percentual”, pontua o superintendente Luciano Magalhães.

Ao lembrar da nuvem negra que paira sobre uma série de temas, como é o caso do desempenho da Bolsa brasileira neste ano, e do Produto Interno Bruto (PIB) com a possibilidade de rebaixamento do rating do país, além das eleições presidenciais, os próximos meses não serão o momento mais oportuno para se buscar novas estratégias de investimento. “Certamente o porto seguro de 2014 será a renda fixa. Para que uma fundação vai ter um apetite grande ao risco, se investindo na renda fixa ela consegue uma taxa de juros que é suficiente para cobrir a meta atuarial?”, questiona Magalhães. A única vez em que notou uma procura maior em direção aos investimentos considerados alternativos, recorda o executivo, foi quando a taxa de juros praticada não era suficiente para fazer frente às metas atuariais dos institucionais.

Demanda por controle – Os clientes atendidos pela custódia do Itaú têm demonstrado um crescente interesse por ferramentas de controle que permitam a eles uma dedicação voltada somente a análise dos ativos, deixando-os livres da elaboração e verificação de possíveis desenquadramentos nas carteiras, trabalho que fica cada vez mais ao encargo do prestador de serviços. “Hoje, o mercado é carente de automação de processos, principalmente na figura do custodiante. Até por questões de custo, e com as legislações cada vez mais pesadas, o cliente quer terceirizar tudo para o provedor de serviços”, comenta Magalhães.

A proximidade que o Itaú tem de seus clientes, diz o superintendente, consiste num diferencial importante da casa para estar atenta às necessidades que surgem conforme o dinâmico ambiente do mercado se desenrola. “Fazemos pesquisas anualmente que cobrem toda nossa base de clientes, e temos também as visitas de acompanhamento, que nos dá percepção para capturar a sensibilidade do cliente. Assim, evoluímos cada vez o produto”.
Além das pesquisas e das visitas, Magalhães cita também uma política de fóruns que acontece dentro do Itaú, quando uma dezena de clientes participa de três encontros em que o banco se posiciona como ouvinte para aguçar a percepção quanto as demandas futuras. “Isso dá um reflexo bastante positivo no nosso negócio, e ao cliente, uma percepção de que não estamos passivos na prestação de serviço, mas ativos na evolução e no acompanhamento de sua expectativa”.

Unificação das clearings – A unificação das clearings da BM&FBovespa, na visão do diretor Ricardo Soares, é um trabalho que vai contribuir para que o investidor tenha mais segurança em fazer seus negócios, e até mesmo um custo mais convidativo. “Hoje são quatro clearings (câmbio, ações, derivativos e demais ativos), cada uma com seus modelos de risco totalmente segregados. À medida que se unificam, o nível de requerimento de margem vai cair e, consequentemente, deve ficar mais barato para o investidor fazer negócios no Brasil. Isso porque as pontes que não existem atualmente sobre essas clearings passarão a existir”, diz o executivo, que deixa escapar uma ponta de descontentamento com os prazos para que esse trabalho esteja concluído. “Como todo projeto de tecnologia, ele tem suas dificuldades, seus prazos, o que tem trazido um pouco de frustração, pois a gente esperava estar em outro patamar”, diz Soares.