Edição 197
A estratégia de diversificar
Num setor extremamente heterogêneo como o de Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), despontam casos de institutos diversificando seus investimentos e apostando em instrumentos do mercado até então pouco ou nada utilizados pelo segmento, como ações, Fundos de Investimento em Direito Creditório (FIDCs) e multimercados.
Há até quem planeje lucrar com a crise. É o caso do Regime Próprio de Previdência Social do Município do Recife (Reciprev). A autarquia tem 8,5% dos R$ 120 milhões do patrimônio do fundo capitalizado do instituto em um fundo de ações e estuda aumentar esse percentual em mais cinco pontos percentuais. “É um bom momento para comprar na baixa”, avalia Vagner dos Anjos, diretor de investimentos do Reciprev. “E o meu fluxo de caixa me permite, pois o fundo não paga benefícios, só recebe contribuições que devem ser capitalizadas”, completa o diretor.
Contudo, aumentar a exposição em Bolsa não é a tônica da maioria dos institutos nesse momento de volatilidade. O que se vê é que quem já tinha investimentos em ações antes do aprofundamento da crise manteve posições, mas agora o compasso é de espera, aguardando o mercado reagir para voltar a investir. “A hora de entrar [no mercado acionário] é agora, na baixa, mas isso depende muito da realidade de cada regime próprio, da reserva e do cálculo atuarial”, avalia João Figueiredo, presidente do Instituto de Previdência do Município de Jundiaí (Iprejun).
O Iprejun tem um patrimônio de aproximadamente R$ 300 milhões proveniente do fundo capitalizado, que atende 5,6 mil servidores ativos e mil inativos, cujos investimentos se diversificaram bem do ano passado para cá, sobretudo depois da Resolução 3.506 do Conselho Monetário Nacional (CMN). O instituto investe 3,5% do patrimônio em dois FIDCs: um do Panamericano, lastreado em financiamento de veículos, e outro do Banco Cruzeiro do Sul, lastreado em crédito consignado, que dão uma rentabilidade média de 111% do CDI. Também há o investimento de 2,5% do patrimônio em um fundo multimercado, que é o limite previsto na Política de Investimentos do instituto, além de aproximadamente 4% em fundos de ações com índices Ibovespa e IBrX-50.
Apesar de Figueiredo avaliar que agora é um bom momento para aproveitar oportunidades na Bolsa, dependendo do perfil do instituto, ele explica que o Iprejun não irá aumentar sua exposição em renda variável. “Não há necessidade de corrermos riscos agora, estamos superavitários, a relação entre ativo e inativo do fundo capitalizado é de cinco para um e nosso cálculo atuarial mostra que estaremos acumulando até 2020”, argumenta. Não é só no tipo de investimento que o instituto procura diversificar, a gama de gestoras também é grande — no total são 19 instituições entre grandes bancos e independentes. O Reciprev também busca diversificar os gestores à medida que faz o mesmo com os investimentos. Há um ano o instituto trabalhava apenas com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal e tinha os investimentos divididos meio a meio entre carteira própria de títulos públicos e fundos de renda fixa. Agora o Reciprev tem 8,5% do patrimônio (algo em torno de R$ 10 milhões) no fundo previdenciário de ação da Schroders e 15% em um Fidc do Banco Cruzeiro do Sul com lastro em crédito consignado.
“O Fidc dá um ‘plus a mais’ que os fundos de renda fixa, que geralmente ficam próximos do CDI. O nosso Fidc hoje está pagando 110% do CDI”, destaca Vagner dos Anjos, do Reciprev. É exatamente por esse motivo que outros institutos também decidiram partir para esse tipo de fundo. O BCPrev é um deles. O instituto dos servidores de Balneário Camboriú aplicou, no início deste ano, 8% do seu patrimônio de R$ 60,3 milhões em um Fidc do Panamericano com lastro em financiamento de veículos, que rende 108% do CDI.
Por causa dos bons rendimentos a Fundação de Previdência dos Servidores Públicos Municipais Efetivos de Bauru (Funprev) já estuda aumentar sua posição em Fidc. Em março deste ano a fundação aportou R$ 5 milhões num Fidc com lastro em financiamento de veículos do Panamericano, o que representa cerca de 4,5% do seu patrimônio de R$ 134 milhões. “Estamos olhando para os FIDCs com muito otimismo, por isso estamos acompanhando o segmento com mais atenção”, afirma Gilson Gimenes Campos, presidente da Funprev.
Crise – Os regimes próprios estavam cogitando aumentar suas posições em renda variável quando a crise no mercado financeiro se agravou em setembro. “Começamos a discutir mais aplicações em fundos de ações, mas com a crise ficamos mais cautelosos”, afirma Campos. O mesmo aconteceu com o BCPrev. Com 5% do patrimônio investido em fundos de ações da Schroders, Caixa Econômica e Bradesco, a diretoria do instituto estudava aumentar esse percentual. “Começamos a investir em ações em julho do ano passado, a experiência foi boa e por isso iríamos apostar um pouco mais, mas a crise se agravou e preferimos esperar”, afirma Milton Rolim, presidente do BCPrev.
Segundo Peterson Paz, responsável pela área de relacionamento com clientes institucionais da Schroders, não houve saque dos institutos de previdência dos fundos de ações devido à crise. “Isso é um sinal interessante de como esse setor vem ganhando maturidade numa velocidade grande”, avalia Paz. Ele destaca que o fato do sistema ter uma baixa exposição à Bolsa contribuiu para a maior tranqüilidade do setor.
Segundo dados do Ministério da Previdência Social, em abril deste ano somente 1,84% do patrimônio dos regimes próprios estava em renda variável. “Mas este é um segmento que ainda vai crescer muito”, avalia José Costa França, sócio diretor da Privatiza Investimentos, que faz a distribuição dos fundos da Schroders para os institutos de previdência. Bolívar Tarragó Moura Neto, vice-presidente de gestão de ativos de terceiros da Caixa Econômica Federal, confirma que os fundos de ações direcionados para regimes próprios não têm tido saques, mas também não têm registrado grande captação. “Os saques acontecem mais no varejo, os grandes investidores não vão desmanchar posições agora e reconhecer perdas”, observa.
A crise também adiou o lançamento de novos produtos para os institutos.
A Caixa, por exemplo, está com um fundo long and short (que se enquadra no limite de investimento de 3% em multimercados) pronto há um mês, mas está aguardando o mercado dar um sinal mais positivo para lançá-lo. Moura Neto observa, porém, que esse tipo de fundo pode ter boa performance mesmo com o mercado ruim. “A rigor o long and short não depende da situação do mercado”, ressalta. É por isso, segundo ele, que o banco pretende lançar o produto ainda este ano.
Legislação – A Resolução 3.506 abriu novas possibilidades de investimentos que não eram previstas na legislação anterior (Resolução 3.244/04), como a alocação em FIDCs e multimercados, além de ter aumentando o limite de 20% para 30% em renda variável. Contudo, já há quem pleiteie o uso de outras ferramentas do mercado financeiro não previstas na resolução em vigor, como os Fundo de Investimento em Participações (FIPs). É o caso de Wilson Risolia, presidente do Rioprevidência. “A concentração de investimentos é ruim e os mercados se esgotam muito rápido. É possível flexibilizar sendo prudencial, mas a legislação tem que mudar rápido, para não penalizar os institutos que têm caixa”, reivindica Risolia, que defende mudanças já para o próximo ano. “A norma tem que ser coerente com as necessidades de quem acumulou recursos. Temos que ficar com o CDI quando a meta é índice de preço mais 6%?”, alerta. Ele ressalta, contudo, que o regime próprio tem que estar preparado para fazer tal diversificação de investimentos. “O mercado é muito complexo, o instituto tem que ter uma estrutura condizente, para não morrer de susto”, ressalta Risolia. Segundo ele, para que a norma não perca o caráter prudencial, ela tem que criar uma escala de flexibilização, mas sem nivelar por baixo. “Para correr, o instituto terá que provar que pode andar”, explica.
A Secretaria de Previdência Social, contudo, não indica que fará mudanças agora. “A diversificação dos investimentos será gradual e lenta”, afirma Helmut Schwarzer, secretário de Políticas de Previdência Social. Segundo ele, a crise que afeta o mercado financeiro trará mudanças para a regulação e supervisão dos mercados. “Quando as coisas se acalmarem, eventualmente poderemos reagir como uma alteração da resolução. Nesse momento estamos observando as lições que a crise traz”, afirma.
Risolia também defende a auto-regulação do setor, com a adoção de práticas de governança e compliance. Quando perguntado se ela funcionaria num setor tão heterogêneo, ele é enfático: “isso não depende da vontade de cada um; se não seguir certos padrões, o instituto vai ficar para trás.”