Sob nova direção | Nova diretoria da Funcef assume com foco na me...

Edição 287

 

A nova diretoria da Funcef, que assumiu o comando da entidade no início de setembro, tem como uma de suas prioridades aperfeiçoar os controles internos da fundação e, ao mesmo tempo, rever os contratos com fornecedores para reduzir seus custos. O novo presidente da Funcef, Carlos Antônio Vieira Fernandes, ressalta que assume a fundação em um “momento bem especial dela”, com o plano de equacionamento referente aos resultados de 2014 em andamento, o plano para equacionar o déficit de 2015 em elaboração e logo após a Operação Greenfield, que apura desvios de recursos em investimentos dos grandes fundos de pensão e inclusive foi a responsável pela destituição dos principais dirigentes.
“Temos de deixar o passado sob a gestão devida, como está acontecendo, já que envolve investigações e procedimentos de natureza judicial. A partir daí vamos trabalhar nossas atividades pensando no presente e vislumbrando o futuro da fundação”, afirma Fernandes. “Nosso grande desafio é trazer o equilíbrio atuarial à fundação”. O dirigente lembra que a Funcef conta atualmente com um universo de 140 mil participantes e que é obrigação da nova diretoria dar uma resposta adequada às expectativas dessa massa. “O que temos que fazer daqui em diante, superada a fase do levantamento das questões relativas ao equacionamento referente a 2015, é gerar cada vez mais capacidade de retorno”, fala o dirigente. “Nosso grande objetivo é gerar o modelo de governança, trabalhar a política de investimento e conduzir a fundação de forma que ela consiga exercer o que se propõe”.
Dentro desse contexto, desde que tomou posse no início de setembro, o presidente da Funcef, funcionário de carreira da Caixa desde 1982 e que também exerceu cargos no governo – sendo o último o de secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional, tem tomado medidas de revisão dos processos internos e dos contratos com fornecedores com o objetivo de reduzir os custos das entidades. Segundo ele, em pouco menos de um mês desde que se iniciou esse trabalho de revisão a fundação já conseguiu reduzir em R$ 10 milhões os seus custos internos. “No aspecto administrativo, temos adotado um procedimento de revisão dos contratos passados, que é natural que qualquer nova diretoria que chegue faça”, explica. O padrão de custos da Funcef, ressalta Fernandes, não está muito distoante na comparação com outras entidades de mesmo porte, como Previ e Petros.

Governança – “Estamos implementando um novo modelo de governança, e dessa forma vislumbramos que criaremos as condições necessárias para superar esse momento”, pondera o dirigente. Esse novo modelo de governança, explica o dirigente, busca estabelecer um padrão ao qual serão submetidas as decisões colegiadas da entidade, seja na parte de investimento, de governança, ou de outras áreas dentro da fundação. O presidente da Funcef destaca que todas as tomadas de decisão vão seguir um roteiro pré-estabelecido. “Estamos manualizando os procedimentos”.
Entre os procedimentos a serem seguidos, no caso de um hipotético investimento a ser realizado na área hoteleira, exemplifica o presidente da fundação, será necessário verificar se o segmento é aderente a uma série de fatores, como o prazo para obter retorno, se o próprio retorno é adequado, se a área a ser investida é estratégica para o crescimento, e como o nicho se comporta dentro de uma retomada da atividade. “São uma série de fatores nessa linha, que nos deem convicção a partir de uma análise preliminar”.
“Entendo que é natural a revisão de alguns processos. Há um aspecto comparativo entre os modelos de gestão, mas nós temos nosso modelo próprio, com nossa concisão própria de gestão. Além da minha longa experiência na Caixa os outros diretores tem reconhecida atuação no mercado e estão trazendo sua contribuição para a fundação”.
Junto com Fernandes, que entrou no lugar de Sérgio Eduardo Mendonça, assumiram Paulo Cesar Werneck como diretor de investimentos, no lugar de Mauricio Marcellini, e Renato Villela como diretor de participações societárias e imobiliárias, em substituição a Carlos Augusto Borges. Werneck foi diretor administrativo do banco de investimentos Haitong, diretor administrativo do Icatu Hartford Seguros, chefe executivo da gestão de ativos e vice-diretor da tesouraria do banco ABN Amro e consultor sênior do Ministério da Fazenda. Já Villela foi secretário de Fazenda do Estado de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Além do modelo interno padronizado, a Funcef também quer aumentar sua expertise por meio de auxílio externo, e já foi deliberado pela nova diretoria a aprovação do processo de adesão à Amec (Associação de Investidores no Mercado de Capitais). “Além das medidas dentro do nosso próprio processo de gestão e governança, estamos muito interessados em participar de fóruns mais amplos onde esses temas são discutidos”, diz Paulo César Werneck, novo diretor de investimentos da Funcef. A Amec tem trabalhado na adesão de empresas e instituições brasileiras a um código de governança que tem sido debatido em âmbito global. “O objetivo do trabalho é atentar para o cuidado com as pessoas que temos alguma responsabilidade em relação aos interesses delas”.

Aperfeiçoamento – Questionado se as mudanças nas áreas de controles e governança para estabelecer um padrão nas tomadas de decisão do fundo de pensão indica que até então havia falhas nesses pontos, o presidente da Funcef avalia que se trata de um processo natural de evolução que ocorre dentro de qualquer organização de grande porte. “Todos os processos de gestão passam por procedimentos de aperfeiçoamento. É algo que ocorre de maneira recorrente em toda organização. É natural que se faça isso. Não estamos dizendo que o que estava aqui era ruim, longe disso. Estamos aqui para aprimorar os processos dada nossa experiência e visão”.
Fernandes afirma que, além da própria evolução natural dos procedimentos internos da entidade, também vai contribuir para o aprimoramento dos processos a Resolução 9 da CGPAR (Comissão Interministerial de Governança Corporativa e de Administração de Participações Societárias da União), que obriga as empresas estatais no âmbito federal a promoverem uma auditoria interna semestral em suas entidades fechadas. “A resolução nos traz um conforto maior à medida que determina que o patrocinador crie as condições para gerar um acompanhamento mais efetivo das atividades da fundação”. O presidente da Funcef nota que a Caixa já tem adotado as medidas necessárias para estar aderente à resoluçao da CGPAR.

FIPs – Em relação ao mercado de FIPs, no qual se concentraram os problemas que colocaram a Funcef como um dos alvos das investigações que tem sido promovidas pela Polícia Federal, o novo diretor de participações societárias e imobiliárias, Renato Villela, ressalta que a nova diretoria vê com preocupação qualquer tipo de julgamento crítico em relação a um instrumento financeiro que tem a possibilidade de entregar uma boa rentabilidade e oferecer a oportunidade de diversificação simplesmente pelo mau uso feito por meio dele no passado. “O que vamos fazer é o bom uso dos instrumentos disponíveis”, aponta Villela. “Nada que existe no mercado tem problemas intrínsecos. Os problemas vem decorrentes do uso que se faz desses instrumentos”. Fazendo uma analogia, o executivo avalia que ninguém deixou de usar o bisturi porque um médico cortou uma veia do paciente que não devia. “Não podemos queimar vários instrumentos fundamentais ao próprio desenvolvimento do mercado brasileiro e da economia porque eles foram mau utilizados no passado de uma forma distorcida na sua conduta”.
Apesar do prognóstico feito por Villela em relação aos FIPs, o diretor de investimentos, Paulo Werneck, ressalta que vai ocorrer dentro da Funcef uma apuração mais adequada dos processos de alocação, que visa garantir o equilíbrio do ALM da entidade. “A alocação em ativos vai ser pertinente com o nosso cenário e de acordo com a assimetria entre risco e retorno do produto que nos oferecerem”.
Além de um trabalho mais minucioso dos controles internos na parte de investimentos, Werneck diz também que um outro objetivo da nova diretoria na área é aprimorar a comunicação com os participantes. “Queremos melhorar a comunicação com os participantes, desmistificando o que a fundação faz, trazendo maior transparência sobre o funcionamento do processo de alocação”. O objetivo de incrementar o diálogo com a massa de segurados é gerar um ciclo virtuoso que fortaleça a relação de confiança entre as partes, afirma o especialista.
O diretor de investimentos fala ainda que mudanças no quadro de pessoal ainda não estão definidas, mas ressalta que elas certamente virão nos próximos meses. “Ajustes sempre serão necessários de acordo com as medições de eficiência e resultados que estamos trazendo. Ajustes devem acontecer porque talvez o novo modelo de trabalho não reflita o interesse de algumas pessoas que já estão aqui e não querem dar continuidade ao que estamos propondo”. Em uma entidade do tamanho da Funcef, comenta o dirigente, a entrada e saída de novos profissionais é algo rotineiro.

Equacionamento do déficit – Sobre o plano de equacionamento do déficit da Funcef, o presidente da entidade nota que os resultados a serem obtidos em 2016 devem contribuir para reduzir os valores a serem cobrados no plano de equacionamento referente a 2015. A rentabilidade parcial da carteira de investimento do fundo de pensão no acumulado do ano, no entanto, Fernandes preferiu não divulgar, e aguarda o fechamento do exercício para ter os números consolidados.
O plano para equacionar o déficit de 2015, explica o dirigente, está no momento em fase de negociação com a patrocinadora para que se definam os aportes extras que serão cobrados. Hoje a Caixa e os participantes do fundo de pensão já fazem uma contribuição adicional de 2,78% em relação ao total aportado na fundação para quitar o déficit de 2014. “Estamos totalmente alinhados com o que está definido na resolução 22 do CNPC (Conselho Nacional de Previdência Complementar) em termos de cronograma”, afirma o presidente da Funcef.