Edição 299
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que analisa operações de fusão e aquisição para evitar prejuízos à concorrência, aprovou em meados de dezembro último a compra de Sauipe pelo Grupo Rio Quente, viabilizando um empreendimento que conjuntamente passa a ter 2.700 apartamentos, 1,9 milhão de visitantes por ano e 4 mil funcionários. O grupo goiano Rio Quente, que comprou Sauipe da Previ por R$ 140,5 milhões, assume a operação do complexo hoteleiro baiano no dia 3 de janeiro de 2018, em plena alta temporada, de olho na geração de caixa do empreendimento.
Para o presidente do Rio Quente, Francisco Costa Neto, a atenção da nova administração estará, num primeiro momento, voltada integralmente à gestão operacional do negócio, para aproveitar o potencial turístico da alta temporada. “Só depois, num segundo momento, vamos pensar nas mudanças estratégicas que pretendemos fazer”, destaca ele.
Conforme Investidor Institucional adiantou na sua edição de novembro, o grupo Rio Quente pretende adotar no complexo baiano algumas fórmulas que se provaram de sucesso no complexo goiano. Hoje Sauipe fatura basicamente com sua hotelaria, sem receitas do parque aquático e com uma receita apenas marginal de time-share. A idéia é mudar isso, investindo no modelo do Rio Quente que consegue obter receitas significativas das três áreas, hotelaria, parque aquático e time-share.
Para Ricardo Mader, diretor de Hotelaria da JLL, a consultoria que intermediou a negociação de Sauipe para o Rio Quente, o resort baiano demanda investimentos novos na casa de centenas de milhões de reais, “sem os quais o empreendimento corre o risco de tornar-se obsoleto em pouco tempo”. De acordo com ele, “a Previ não tinha interesse em bancar esses investimentos novos”.
Colocar dinheiro novo em Sauipe era um tabu para a direção da Previ, até porque ela já tinha enterrado muitos recursos no empreendimento e os prejuízos acumulavam-se. Não há uma cifra clara do montante desses prejuízos, mas pessoas próximas ao negócio calculam que pode superar R$ 1 bilhão. “Passava de R$ 800 milhões há uns sete anos”, recorda um analista que acompanha o histórico do empreendimento e prefere preservar seu nome. “Com os sucessivos prejuízos desde então, certamente supera a casa de R$ 1 bilhão”, avalia.
Para o presidente do grupo Rio Quente, Francisco Costa Neto, essa cifra é fantasiosa. “Só se estiverem corrigindo os valores considerando como custo de oportunidade. Pelo que eu sei, os prejuízos acumulados estão na casa dos R$ 200 a 250 milhões”, avalia Neto. “Nunca me apresentaram esses dados, com prejuízos na casa do R$ 1 bilhão”.
A Previ, que em seu site coloca como um de seus principais valores corporativos a transparência, informou à Investidor Institucional que não falaria sobre a questão dos prejuízos de Sauipe. “A Previ não vai comentar sobre o tema. O nosso posicionamento sobre a venda de Sauípe está publicado em nosso site”, respondeu a assessoria de imprensa da fundação a um pedido nosso de entrevista.
Na nota publicada no site não havia qualquer referência aos resultados que o investimento trouxe para os participantes da fundação, nem positivos nem negativos. Esclarece apenas que a venda “está alinhada com o planejamento estratégico e as políticas de investimentos, … garantindo a liquidez dos ativos do Plano 1”. Também informa que “não temos mais interesse em estar em blocos de controle, muito menos em sermos os únicos donos de um ativo de um setor que não é o adequado para os nossos investimentos, como é o caso … de Sauípe”.
Odebrecht – Sauipe começou em 1997, época em que a Odebrecht vendeu 10% para a Previ. Os 90% restantes só foram comprados pela fundação no ano de 2000, já com o empreendimento concluído e pouco antes da sua inauguração, etapa em que a Odebrecht viabilizou seu lucro. Mas além da compra dos 90% do empreendimento a Previ também teve que assumir investimentos paralelos, como uma participação na rodovia BA-099, que liga a região metropolitana de Salvador até a divisa da Bahia com Sergipe, necessária para o aceso de turistas ao resort. Essa estrada hoje atende a todos os hotéis que vieram posteriormente para a região, como o Iberostar e Gran Palladium, e que são os principais concorrentes de Sauipe.
Ao ser inaugurado, Sauipe operava com várias bandeiras diferentes. A marca Marriott operava dois hotéis com as bandeiras Marriott e Renaissance, a marca Accor operava outros dois com a marca Sofitel, e a jamaicana SuperClubs um outro. Só que essas diferentes bandeiras brigavam pelo mesmo cliente, ampliando gastos e oferecendo descontos exagerados que inviabilizavam o retorno ao investidor. A Previ tentou resolver o problema criando a operadora Sauipe SA, que assumiu as operações de todos os hotéis, o que foi bom do ponto de vista administrativo mas péssimo do ponto de vista do marketing. “O charme de Sauipe eram as bandeiras Marriott, Renaissance, Sofitel e SuperClubs. Quando a Previ afastou essas bandeiras Sauipe perdeu muito do seu charme”, conta um analista.
De acordo com o diretor da consultoria HVS (Hotel Valuation Services) para América do Sul, Diogo Cantera, a gestão de hotelaria por empresa que não é da área tende a ser menos criativa e também menos lucrativa. “Acaba sendo uma gestão pobre, pasteurizada”, diz Cantera. “E acabou sendo isso, uma gestão sem criatividade”.
Além disso, na primeira década dos anos 2000 Sauipe passou a sofrer a concorrência dos grandes cruzeiros marítimos, que com o Real valorizado tornaram-se a coqueluche da classe média brasileira. “A classe média queria viajar para fora, em cruzeiros marítimos”. O resort tentou buscar alternativa, através de acordos de ocupação dos apartamentos pela CVC, além de sediar o sorteio da Copa do Mundo e organizando torneios de tênis. Nenhuma dessas iniciativas conseguia reverter os prejuízos que ano a ano se avolumavam.
“Sauipe foi um mau investimento para a Previ, não há dúvida, e agora ela tinha a opção de continuar ou sair”, comenta Ricardo Mader, da JLL. “Ela resolveu sair, sabia que receberia críticas mas não queria mais estar num negócio que não fazia mais sentido na sua carteira de investimentos”, analisa Mader. “Com a nova administração Sauipe entra numa nova fase, vai poder oferecer time-share no litoral para os clientes do Rio Quente que só tinham a opção do interior. Além disso, com o real desvalorizado os turistas brasileiros estão preferindo viajar pelo País ao invés de viagens internacionais”, diz.
Para o presidente do grupo Rio Quente, Francisco da Costa Neto, a expectativa é que “Sauipe passe a operar no azul já em 2018”.