PRI avança entre institucionais

Edição 385

Referindo-se às exigências ESG trazidas na Resolução 26, o diretor de normas da Previc, Alcinei Rodrigues, explica que “antes era uma sugestão, agora passou a ser exigência”

O avanço recente da agenda ESG entre investidores institucionais brasileiros começa a se traduzir em um movimento concreto: cresce o interesse de fundos de pensão e regimes próprios de previdência (RPPS) pela adesão ao Principles for Responsible Investment (PRI). A tendência é confirmada por reguladores, representantes do próprio PRI e pelas entidades que já passaram pelo processo, que relatam aumento de consultas, maior engajamento e um amadurecimento mais acelerado do tema no país.
Hoje, o PRI reúne 5.019 signatários no mundo, sendo 124 brasileiros. Entre esses, 28 são proprietários de ativos, com predominância dos fundos de pensão – 19 entidades – e apenas um RPPS, o Instituto de Previdência de Jundiaí (Iprejun). Esse número ainda modesto no segmento dos regimes próprios, no entanto, não reflete a demanda crescente que vem sendo observada.
“A gente tem percebido esse aumento de interesse”, afirma Rafael Castro, consultor do PRI, ao relatar as adesões mais recentes no país. Segundo ele e Lívia Rossi, head do PRI no Brasil, esse crescimento resulta de uma combinação de fatores. De um lado, a estratégia global da organização de ampliar sua presença em mercados emergentes; de outro, mudanças estruturais no ambiente regulatório brasileiro e a maior exposição do tema, inclusive com eventos internacionais realizados no país.
A COP 30, Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, realizada em novembro de 2025 em Belém PA), chamou a atenção dos investidores brasileiros para a importância de implementar ações concretas e negociadas contra a crise climática, com o objetivo de reduzir emissões de gases estufa e proteger florestas.
Paralelamente ao evento da ONU o PRI realizou em São Paulo, na mesma época, o PRI in Person, alinhado com a agenda da COP30 e focado no financiamento climático para economias emergentes. “O evento mobilizou bastante o mercado local, com a participação de associados globais e também os locais”, explica Castro.

Regulação – O fator mais decisivo para o aumento do interesse dos institucionais em temas ESG, porém, vem do avanço da regulação. Tanto a Resolução CMN 5.202 quanto a Resolução 26, ambas publicadas pela Previc, mudaram o patamar da discussão ao deixar de tratar ESG como recomendação e passar a exigir que os investidores institucionais incorporem esses critérios à gestão das carteiras. “Antes era uma sugestão. Agora passou a ser exigência”, resume Alcinei Rodrigues, diretor de normas da Previc.
Segundo ele, a mudança não está na imposição de metas ou metodologias, mas na exigência de estruturação de um plano para enquadrar as questões ESG dentro das entidades. Esses planos deverão contemplar um diagnóstico da situação das carteiras, métricas para avanços em processos ESG, além de prazos para implementação e governança. “A coisa vai ter que ser mais profissional, mais organizada”, afirma Rodrigues.
Essa abordagem tem um ponto central, que é o tratamento da questão ESG como gestão de risco e não como uma questão “verde”, genericamente. “O ESG é basicamente gestão de risco”, diz Rodrigues. Essa leitura é compartilhada pelo PRI. “Os riscos relacionados ao ESG são riscos financeiros”, afirma Lívia Rossi.
Essa mudança de enfoque, resgatando o ESG da dominância dos movimentos “verdes” e colocando o na esfera das preocupações financeiras das empresas, ajuda a explicar por que o chamado “efeito backlash” observado nos Estados Unidos não tem conseguido frear o avanço do tema no Brasil. Ainda que grandes gestores norte-americanos tenham dado significativos passos atrás, nos últimos anos, em sua agenda ESG, principalmente por pressões do governo de Donald Trump, isso não desmotivou investidores brasileiros.
De acordo com Lívia, apesar dos ruídos políticos no exterior, a incorporação de critérios ESG por investidores institucionais brasileiros vem sendo guiada por uma lógica pragmática: proteção dos portfólios no longo prazo.

Para Cláudia Musseli Cezar, do Iprejun, questão do pagamento em moeda estrangeira dificulta

Dinâmica do mercado – O crescimento do interesse pelo tema se reflete também na dinâmica do mercado. No caso dos RPPS, apesar de haver apenas um signatário formal até agora, o Iprejun, a procura por informações sobre o PRI vem aumentando no setor. “Muita gente tem vontade de aderir”, afirma a presidente do instituto, Cláudia Musseli Cezar. Segundo ela, após a adesão ao PRI o Iprejun passou a ser procurado por outros regimes próprios interessados em entender o processo, quais as exigências, quais as vantagens e como foi feito o registro.
Mesmo assim, o avanço ainda encontra obstáculos, especialmente no setor público. A principal barreira não é conceitual nem financeira, mas operacional. “Um dos fatores que hoje dificultam o acesso dos RPPS ao PRI é a questão do pagamento em moeda estrangeira”, explica Cláudia. Ainda que o custo de adesão seja relativamente baixo, a necessidade de realizar operações de câmbio cria entraves administrativos. Soma-se a isso a complexidade do processo posterior à adesão. “É um assunto muito novo, tudo é novo para os RPPS”, diz a executiva.
A adesão ao PRI implica compromissos que vão além dos exigidos no momento da assinatura inicial. As entidades precisam reportar regularmente suas práticas, estruturar processos internos e demonstrar a evolução desses processos ao longo do tempo. Esse acompanhamento é feito por meio de relatórios e comparações com pares. “O relatório é uma forma de acompanhar o compromisso efetivo das entidades”, explica Castro.
Em contrapartida, os benefícios são percebidos de forma concreta pelas instituições. O acesso a conhecimento, benchmarking e troca com outros investidores é um dos principais atrativos. No Postalis, por exemplo, a participação em grupos internacionais e o acesso a conteúdos especializados passaram a fortalecer a governança. “A gente fica mais fortalecido com ferramentas que nos permitam estar em conformidade com boas práticas”, afirma a assessora de comunicação da entidade, Patrícia Cunegundes.
Mais do que uma agenda voluntária, o ESG começa a ser visto como condição de sobrevivência institucional e também como vetor de confiança e crescimento. Nesse sentido, entidades do setor reforçam que a integração de critérios ambientais, sociais e de governança está diretamente ligada à sustentabilidade financeira de longo prazo e à credibilidade junto a participantes e patrocinadores. “Não existe futuro financeiro sustentável sem responsabilidade social e ambiental”, destaca Denise Maidanchen, presidente da Quanta Previdência.
Na prática, inicialmente a incorporação de critérios ESG pelas entidades ocorre de forma gradual nas carteiras. Em geral, não há exclusão imediata de ativos ou gestores, mas um processo progressivo de incorporação de análises e questionamentos. “Nesse momento, estamos uma fase de aprendizagem”, afirma Cláudia, do Iprejun, cuja adesão ao PRI ocorreu em outubro do ano passado.
Esse aprendizado, segundo a executiva, já tem provocado mudanças importantes na governança do instituto. Antes mais passivo, hoje ele exerce uma pressão maior sobre os gestores e a exigir mais informações sobre os investimentos. “É aí que entra o papel do instituto, como investidor”, diz
É nesse contexto de crescimento do interesse dos institucionais por participação ESG e de preocupação com controle de riscos das carteiras que se inserem as experiências mais recentes de adesão ao PRI no país, que ajudam a ilustrar como o movimento vem se consolidando na prática.

Segundo Alessandra Guimarães Rocha, da Fundação Libertas, a incorporação de critérios ESG traz melhorarias no longo prazo”

Organizar e medir – A Fundação Libertas representa a adesão mais recente entre as entidades fechadas de previdência complementar (EFPC). A decisão de aderir ao PRI não partiu do zero, mas da necessidade de organizar boas práticas que já existiam internamente, de forma desagrupada. “A gente tinha muitas práticas pulverizadas e quis agrupar para conseguir medir”, afirma a presidente Alessandra Guimarães Rocha.
A adesão passou a funcionar como instrumento de estruturação e também de alinhamento com o mercado. “A gente quer que os nossos gestores tenham práticas ESG”, diz ela. No caso da Libertas, cuja carteira é 100% terceirizada, a implantação da estratégia ESG passa diretamente pela seleção e monitoramento de gestores.
A executiva reconhece que há um dilema envolvido, especialmente em relação à rentabilidade. “Pode ser que a gente não pense só na rentabilidade”, afirma. Ainda assim, a avaliação predominante na fundação é que a incorporação de critérios ESG “tende a reduzir riscos e a melhorar a qualidade da carteira no longo prazo”.
Além da Libertas, também são aderentes ao PRI as seguintes EFPCs: Previ, Petros, Vivest, Valia, Fapes, Funpresp-Exe, Serpros, Economus, Elos, Fundação Itaú-Unibanco, Real Grandeza, Infraprev, VisãoPrev, Neós, Postalis, Prevcom-SP, Libertas e BB-Previdência.

Fator de desempate – No caso do Iprejun, pioneiro entre os RPPS, a evolução é mais visível ao longo do tempo. Desde o final de 2025, quando aderiu ao PRI, o instituto passou a exigir relatórios ESG de seus gestores como condição para credenciamento e estabeleceu esses critérios como fator de desempate na escolha de investimentos.
Nos pouco meses de implantação da agenda do PRI, o processo já avançou. O instituto criou um comitê específico para temas ESG, passou a questionar ativamente gestores sobre suas boa práticas e incorporou critérios ESG nas análises. “Hoje a gente já questiona os gestores sobre critérios ESG na seleção dos ativos”, afirma Cláudia.
Apesar disso, a abordagem continua sendo gradual. ESG ainda não é um critério eliminatório. Trata-se de um processo de incorporação progressiva, com aprendizado contínuo e adaptação ao mercado local, explica Cláudia.

Dever fiduciário – A adesão da Quanta ao PRI ocorre dentro de um movimento de evolução da própria gestão previdenciária, em que a incorporação de critérios ambientais, sociais e de governança deixa de ser um diferencial e passa a integrar o dever fiduciário das entidades. Na avaliação da instituição, garantir o futuro dos participantes exige uma leitura mais ampla de risco e retorno, com foco na sustentabilidade das decisões ao longo do tempo.
Esse entendimento tem se traduzido em mudanças práticas na forma como a entidade conduz seus investimentos, especialmente na relação com gestores terceirizados. A Quanta passou a aprofundar critérios de seleção, fortalecer processos de due diligence e exigir maior consistência no monitoramento das carteiras. Mais do que avaliar o discurso dos gestores sobre ESG, a entidade busca entender como esses critérios são efetivamente incorporados na análise de ativos, na gestão de riscos e no acompanhamento dos investimentos.
O movimento também reflete uma preocupação com posicionamento institucional. Ao adotar um referencial internacional como o PRI, a entidade reforça sua estratégia de crescimento baseada em confiança, transparência e visão de longo prazo – elementos considerados centrais para a expansão da base de participantes e o aumento de aportes.

Alinhamento interno – No Postalis, a experiência mostra um terceiro estágio desse movimento: a internalização cultural do tema. A adesão não exigiu mudanças estruturais relevantes em termos de equipe, mas demandou alinhamento interno e capacitação. “Não tem para onde fugir”, afirma Patrícia.
A resistência inicial, ligada a custos, foi rapidamente superada, à medida que o tema passou a ser visto como inevitável, seja por exigência regulatória, seja pela necessidade de garantir a sustentabilidade dos planos no longo prazo.

Processo de transição – Em comum, os três casos mostram que a adesão ao PRI não representa uma ruptura imediata nas diretrizes das carteiras de investimento, mas sim um processo de transição. ESG deixa de ser um diferencial e passa a integrar a lógica de decisão dos investimentos, ainda que de forma progressiva.
O movimento indica uma mudança mais profunda no mercado institucional brasileiro. Se antes os critérios ESG eram tratados como complementares – ou mesmo opcionais –, passam agora a ser incorporados como parte da gestão de risco, impulsionados por regulação, pressão internacional e pela própria evolução das entidades.
Mais do que uma tendência, trata-se de uma adaptação a um novo padrão de funcionamento do mercado, no qual o investidor institucional assume um papel mais ativo, mais exigente e mais consciente dos riscos que carrega em sua carteira.