Edição 125
A desconfiança dos investidores americanos nos demonstrativos financeiros das empresas do País, instaurada no final de 2001, quando surgiu o primeiro caso de maquiagem contábil protagonizado pela ex-gigante do setor de energia, Enron, tem aumentado sensivelmente o prêmio de risco do mercado acionário. A avaliação é do diretor de investimentos do fundo de pensão dos funcionários públicos do estado da Califórnia, CalPERS, Mark Anson, para quem os escândalos contábeis das grandes corporações americanas são “uma nova forma de terrorismo” cujo resultado são investidores ressabiados pelos próximos um ou dois anos.
“Se você não confia nos demonstrativos contábeis, isso aparece nas análises fundamentalistas dos mercados de ações e de títulos”, disse Anson na primeira longa entrevista concedida à publicação Pensions&Investments desde dezembro, quando se tornou diretor de investimentos do fundo de pensão dos funcionários públicos do estado da Califórnia (CalPERS), com ativos de US$ 136 bilhões.
No curto prazo, o prêmio de risco de ações (o preço pedido pelos investidores como compensação pelo risco adicional de manterem ações ao invés de títulos de longo prazo do governo) alcançou os 5,5 pontos percentuais, disse o diretor. No longo prazo, entretanto, Anson acredita que o prêmio irá encolher para 2,7 pontos percentuais, bem abaixo do prêmio histórico de 5,25 pontos percentuais medido pela Ibbotson Associates, de Chicago.
Tema de debate – Tema de debate nos círculos de investidores institucionais dos EUA, o tamanho dos prêmios de risco de ações tem sido interpretado diferentemente por profissionais do setor. No final de 2000, Robert Arnott, sócio administrador do First Quadrant, e Ronald Ryan, presidente da Ryan Labs, projetaram que o prêmio poderia ser zero ou até negativo nos próximos anos.
Em resposta, Roger Ibbotson, professor de finanças da Yale University’s e chairman da Ibbotson Associates, disse que o prêmio de risco de ações estaria cada vez mais presente. Contudo, a projeção que fez (de um prêmio entre 3,96 e 4,25 pontos percentuais sobre títulos) ficou cerca de 1 a 1,25 pontos percentuais abaixo.
Mais recentemente, Peter Bernstein, presidente de consultoria homônima em Nova Iorque, escreveu artigo para o Financial Analysts Journal, segundo o qual o prêmio de risco ‘normal’ (definido como o risco que investidores devem esperar por investir em ações) é 2,4 pontos percentuais ou menos.
O diretor da CalPERS comparou o mercado de ações atual com os dias imediatamente seguintes aos ataques de 11 de setembro, quando as bolsas americanas fecharam por seis dias. “Logo depois de 11 de setembro, os horizontes de investimentos pessoais entraram em colapso. Antes de olharem para o próximo trimestre, próximo ano, ou os cinco anos seguintes, as pessoas se limitavam a perguntar ‘o que acontecerá amanhã? Teremos outro ataque terrorista? Será que o mercado de títulos do governo continuará tendo liquidez?’ Como resultado, o prêmio de risco de ações cresceu 5 pontos percentuais, enquanto os mercados de ações globais despencaram quase 20%.
Nova forma de terrorismo – Não houve mais ações terroristas depois dos ataques de 11 de setembro. “As pessoas começaram então a expandir seus horizontes de investimento novamente para uma semana, um mês e para o próximo ano”, disse Anson. O prêmio de risco caiu e o mercado se reencontrou no quarto trimestre.
No início deste ano, entretanto, as manipulações contábeis da Enron tornaram-se aparentes, seguidas por problemas similares na WorldCom Inc., Global Crossing LTD., Qwest Communications International Inc., entre outras companhias.
“E a mesma coisa aconteceu: o prêmio de risco das ações cresceu alguma coisa entre 5 e 5,5 pontos percentuais”, ele disse. “Os horizontes de investimentos das pessoas encolheram novamente. Se você desconfia dos demonstrativos contábeis apresentados hoje, como você poderá prever a situação da empresa no próximo ano, no ano seguinte, ou cinco anos no futuro?
“Temos uma nova forma de terrorismo nos Estados Unidos. E não está vindo de fora de nossas fronteiras, mas de dentro. É a falta de confiança que nós, investidores, temos nas empresas americanas e na validade e precisão das informações financeiras que nos passam”.
E a questão é quanto tempo essa incerteza irá durar. “Primeiro, temos que ver como a Sarbanes Bill (Sarbanes-Oxley Act de 2002, que dita regras de governança corporativa) será aplicada. Precisamos saber quem estará nos Conselho e que passos serão tomados. Precisamos ver durante um ano inteiro executivos de empresas certificando a precisão das informações financeiras de suas empresas”, disse Anson.
“Irá demorar até que a confiança do investidor volte ao mercado. Não irá acontecer do dia para a noite. Pode levar um ano ou dois anos, mas estamos nos movendo na direção correta.”, concluiu Anson.