Garimpo na bolsa | Com alta das ações em 2017 fundações buscam re...

Edição 297

 

Estratégias em análise (em pdf)

Com a queda dos juros, que devem chegar em 2018 próximos da mínima histórica, e a valorização apresentada pela bolsa, que sobe cerca de 25% no ano até meados de outubro, os fundos de pensão começam a avaliar quais estratégias adotar para fazer frente às suas metas atuariais. Com as emissões de crédito privado aquém da demanda, e os investimentos estruturados sob certa desconfiança, a renda variável aparece como uma das principais alternativas.
Embora as projeções apontem para um cenário ainda positivo para o mercado acionário em 2018 por conta da retomada econômica que tende a ganhar tração, a maioria das entidades não deve se posicionar em fundos passivos indexados. As fundações ouvidas pela Investidor Institucional relatam a intenção de buscar gestores que adotem a estratégia de ‘stock picking’ ou de ‘long & short’, sem se ater ao movimento direcional da bolsa e identificando papéis com potencial de alta acima da média do mercado. Além disso, a estratégia de renda variável no exterior também volta a entrar no radar dos investidores, até mesmo porque o câmbio voltou a representar uma janela de oportunidades após a apreciação do real frente ao dólar nos últimos meses.
Segundo o diretor executivo responsável pela Comissão Técnica Nacional (CTN) de investimentos da Abrapp, Guilherme Velloso Leão, o ano de 2018 tende a ser um período positivo para a bolsa. Ele cita como razões para embasar sua expectativa a retomada econômica prevista para o próximo ano, a inflação que tende a ficar sob controle, mantendo os juros em patamares baixos, além do cenário externo relativamente benigno com liquidez ainda abundante. A questão fiscal e a política, no entanto, são fatores a serem monitorados.
De acordo com Leão, nas conversas que tem mantido com os gestores já se fala de estimativas para o Ibovespa, atualmente próximo dos 75 mil pontos, na casa dos 85 mil e até 90 mil entre os mais otimistas. A se confirmarem essas projeções, elas corresponderiam a uma alta de 15% a 20% do índice nos próximos meses.

Gestão ativa – O diretor da Abrapp avalia, contudo, que dado o patamar elevado no qual se encontra o Ibovespa, o mais recomendável para as fundações que pensam em aumentar sua exposição em renda variável é optar por gestores ativos que façam o trabalho de ‘stock picking’, pinçando as ações que devem ter uma performance destacada, e não ficar somente passivo, indexado a um determinado benchmark. “Os fundos de pensão precisam fazer uma análise criteriosa dos fundos para identificar os melhores gestores ativos, e entender quais estratégias e quais setores os gestores estão apostando”.
Fundos multimercados ‘long & short’, em que o gestor faz operações de arbitragem entre duas ações específicas, é uma das alternativas que têm sido avaliadas por Leão, que é também presidente da Casfam, a Caixa de Previdência do Sistema Fiemg. “Também temos olhado para as estratégias de dividendos, que tem um perfil mais defensivo por serem empresas com maior estabilidade no fluxo de caixa, e que tem certa descorrelação com o movimento direcional padrão da bolsa”.
Cesar Soares Barbosa, coordenador do comitê de investimentos da Sabesprev, diz que a entidade também tem olhado para os multimercados estruturados que tem parte de sua exposição ao mercado acionário, mas que, diferentemente dos fundos puros de ações tem liberdade para realizar operações de ‘long & short’. “Hoje não temos nenhum fundo desse tipo na carteira; já tivemos, e estamos pensando em voltar a ter”, fala Barbosa.
A exposição da Sabesprev ao mercado acionário representa cerca de 10% de um PL de aproximadamente R$ 2,6 bilhões, composta principalmente por fundos exclusivos de gestão ativa das gestoras Bahia Asset, Franklin Templeton, JGP, Vinci Partners, e M Square, essa última responsável pela exposição global da fundação. A Sabesprev tem também um fundo de fundos gerido internamente que funciona como uma espécie de incubadora de novas gestoras em potencial que, a depender do desempenho, também podem vir a ter um fundo exclusivo com o fundo de pensão. Estão no fundo de fundos assets como Kondor, Neo, Oceana e Atmos.
Já a EmbraerPrev contratou em maio a Pollux Capital em busca de geração de alfa para sua carteira de ações. Além disso, a entidade também contratou em 2017 o JP Morgan para sua carteira de multimercados. “Além da performance, avaliamos também se as gestoras cumprem o mandato de risco que contratamos junto a elas”, explica Eléu Baccon, diretor superintendente da EmbraerPrev.
Como a fundação ainda é relativamente nova, com maior volume de contribuições do que de pagamentos, com fluxo líquido de entradas da ordem de R$ 12 milhões mensais, ela “pode se dar ao luxo” de não ter de resgatar de outros fundos para aplicar em novos gestores de renda variável, comenta Baccon. A exposição da fundação às ações, que chegou próxima de 6% no ano passado, já subiu para os atuais 12,5%, e deve alcançar 15% nos próximos meses. “A bolsa já subiu bastante, mas acreditamos que ainda tem espaço para subir, não muito, mas um pouco mais”.
O diretor fala que a entidade tem buscado gestores de valor, que façam posições baseadas nas análises dos profissionais da casa, sem ficar indexado aos índices ou grandes papéis que se movimentam “por alguma notícia vinda do exterior ou por razões mais relacionadas à política”. Entre as apostas da Pollux que fogem dos benchmarks, Baccon cita como exemplo a corretora de seguros Wiz, controlada pela Caixa e pela francesa CNP Assurance.

Proteção – “As fundações estão tendo mais necessidade de colocar risco nas carteiras e as ações aparecem como a primeira candidata a receber essas alocações, mas ainda não identificamos uma estratégia clara já que a bolsa está em patamar elevado”, afirma Guilherme Benites, consultor da Aditus. Mas, segundo ele, algumas fundações já estão adotando estratégias ativas mais defensivas, como a de dividendos, e mesmo em multimercados com posição em bolsa nas quais o gestor tem liberdade para manter parcela dos recursos do fundo em caixa em momentos de maior volatilidade.
De acordo com Benites, tem surgido com recorrência nas conversas o tema da adoção de instrumentos que permitam algum nível de proteção, como os derivativos ou os Certificados de Operações Estruturadas (COEs). “A vantagem do COE é a flexibilidade que o instrumento oferece ao investidor, que tem a possibilidade de escolher uma composição bem alinhada com suas necessidades”, afirma Benites.
Jorge Simino, diretor de investimentos da Funcesp, destaca que, embora o mercado espere por um crescimento importante do PIB em 2018, é preciso cautela com o otimismo dos agentes, até pelo fato de termos as eleições no ano que vem. Ele ressalta que não enxerga nenhum ativo com preços altamente atrativos. “No momento não pensamos em alterar as estratégias que já temos na carteira”.

Exterior – Marcos Litz, gerente de investimentos da Fundação Itaipu diz que, embora a fundação tenha reduzido sua exposição em bolsa nos últimos anos, ela iniciou no período uma pequena alocação em ações globais por meio dos fundos do JP Morgan e da BlackRock, lançados em parceria com a BB DTVM. O especialista não descarta um aumento dos investimentos nas bolsas internacionais como forma de buscar alternativas para enfrentar a queda da Selic, tirando proveito também da recente valorização do Real. “Temos observado uma série de fundações que ainda não tem investimento no exterior avaliando essa possibilidade”.
Como as bolsas americanas estão próximas das suas máximas históricas, Simino, da Funcesp, conta que tem olhado com mais otimismo para as bolsas européias. “Não compraria bolsa americana hoje, mas a europeia sim”.
Barbosa, da Sabesprev, diz que também tem interesse em aumentar a exposição em bolsas globais em 2018. No entanto, por conta da regra dos 25% por fundo da Previc, a tendência é que a fundação busque novos gestores de renda variável global.

Comprar na baixa – Segundo diretor de investimentos da Funcesp, a entidade está analisando quais as melhores alternativas a serem adotadas no mercado em 2018. Contudo, dado o atual patamar da bolsa, um novo aumento da exposição em renda variável será marginal, uma vez que a fundação já promoveu um incremento expressivo no passado recente, quando o percentual em renda variável, doméstica e global, passou de 8% para 15%. “Estamos pensando se vale a pena levar esse percentual para 20%, mas ainda não temos uma decisão”, afirma Simino.
No final de 2016, a entidade aportou cerca de R$ 800 milhões na bolsa, em estratégias fundamentalistas e de dividendos geridas principalmente pela equipe interna, com apenas uma pequena parcela à cargo do JP Morgan. “Quando o cenário externo melhorou e o impeachment da Dilma estava sacramentado, entendemos que seria um bom momento de tomar mais risco”, recorda o dirigente. Na ocasião em que a Funcesp comprou ações o Ibovespa estava entre 58 mil e 62 mil pontos.
Durante o primeiro semestre de 2017, quando a bolsa teve uma queda brusca após a divulgação dos áudios da JBS, o fundo de pensão aproveitou para aumentar mais um pouco sua exposição na Bovespa com aportes de R$ 200 milhões, quando o mercado estava novamente ao redor dos 62,5 mil pontos.
Na Fundação Copel, o diretor financeiro José Carlos Lakoski explica que a entidade iniciou um processo de reestruturação da área de renda variável a partir de meados de 2015. Até então a carteira era gerida internamente, mas há cerca de dois anos a fundação iniciou a estruturação de um fundo que compra cotas de fundos de gestores terceirizados, que hoje são J Malucelli, JGP, AZ Quest e Atmos. “Buscamos com eles uma gestão ativa de retorno absoluto via ‘stock picking’”.
Por conta desse trabalho realizado nos últimos anos, Lakoski avalia que novas mudanças nas estratégias em renda variáel podem ocorrer apenas de maneira “marginal” em 2018, mesmo porque o nível no qual se encontra a bolsa no momento não torna a entrada muito atrativa. “Claro que a queda na taxa de juros tem alguma influência nas decisões de investimento, mas não faremos nenhum movimento brusco”, diz o diretor financeiro, que ressalta que nos anos de 2014 e 2015, quando o desempenho da Bovespa foi ruim, a entidade “teve estômago e resiliência para atravessar o momento sem sair do mercado”.
Já a Fundação Itaipu, com um plano BD maduro sob gestão, quer manter o risco o mais baixo possível. “A nossa exposição em bolsa hoje é pequena, por volta de 5%, contra uma média de 20% nos últimos anos”, afirma Litz. Em momentos de maior volatilidade, como se espera para 2018 por conta das eleições, estratégias mais conservadoras, indexadas, podem fazer sentido para a entidade, pontua o gerente de investimentos.

Ameaças – Por conta da retomada econômica, que os especialistas esperam que tenha uma aceleração expressiva ao longo de 2018, o setor de consumo tem aparecido com recorrência entre as preferências de gestores de assets e fundos de pensão. O diretor administrativo e financeiro da Fundação Ecos, Tiago Novaes Villas-Bôas, no entanto, faz um alerta sobre as perspectivas para o segmento, tomando como gancho o anúncio em outubro do aumento das operações da Amazon no país, que por si só já provocou uma forte volatilidade nos papéis de empresas brasileiras do segmento.
“Temos que tentar entender quais serão as histórias vencedoras ao longo dos próximos anos”, afirma Villas-Bôas, que tem ‘provocado’ os gestores de ações sobre o tema nos encontros que tem com os especialistas do mercado. O diretor do fundo de pensão cita ainda o risco para o setor de shoppings no médio e longo prazo, horizonte de investimento da fundação, já que o advento do comércio virtual deve reduzir o número de lojas físicas, com o potencial de derrubar a receita de aluguéis dos grandes centros comerciais.
O dirigente da Ecos ressalta que as varejistas estão em destaque por conta da movimentação da gigante americana, mas essa mesma discussão vale para uma série de outros setores que enfrentam a concorrência das novas tecnologias, como o hoteleiro, com a Airbnb de aluguel de quartos, e o de transportes com o Uber. “Com o nível de evolução que temos observado da tecnologia, negócios que são bons hoje daqui dois ou três anos começam a ser menos competitivos”.