Funpresp-Exe toma risco

Com três fundos exclusivos de ações, que receberão cerca de R$ 300 milhões em 2027, a fundação diversifica a carteira de investimentos e prepara-se para ciclo de queda dos juros

Edição 390

Santos, da Funpresp-Exe: “Estamos preparando as caixinhas dos outros ativos para quando precisarmos mudar o transatlântico um pouco para o lado”

A Funpresp-Exe concluiu a licitação para contratar três gestoras responsáveis por fundos exclusivos de renda variável com gestão ativa. BB Asset, Itaú Asset e Vinci Partners obtiveram as três melhores classificações e serão titulares dos mandatos. BNP Paribas Asset Management, Vokin Investimentos e 4UM Investimentos ficaram na lista de reserva e poderão ser convocadas caso seja necessário substituir alguma das vencedoras.
Segundo o diretor de investimentos da Funpresp-Exe, Fabiano Santos, a seleção ocorreu em duas etapas. A avaliação técnica, responsável por 70% da nota final, examinou aspectos qualitativos das propostas. Os 30% restantes corresponderam às condições comerciais apresentadas pelas gestoras. Os envelopes com os preços foram abertos em 21 de agosto, e a classificação final considerou a soma das notas das duas fases.
As três vencedoras passarão agora por uma due diligence. A fundação visitará as instalações das gestoras para verificar documentos, estruturas e processos de investimento apresentados durante a seleção. Concluída essa etapa, serão assinados os contratos e elaborados os regulamentos dos fundos, em conjunto com as gestoras e o administrador, BTG Pactual.
A expectativa é que os fundos recebam os aportes iniciais no primeiro semestre de 2027. A Funpresp-Exe pretende destinar cerca de R$ 100 milhões a cada mandato, totalizando R$ 300 milhões, mas os valores poderão ser ajustados conforme as condições de mercado. Os fundos terão o Ibovespa como referência e poderão cobrar taxa de performance sobre o retorno que exceder o índice, observada a marca d’água – mecanismo que considera o histórico de rentabilidade, e não apenas o desempenho da cota no período mais recente.
A fundação definirá o momento e o volume dos aportes, mas as decisões de investimento caberão às gestoras. “A gente entrega o dinheiro e eles fazem a gestão. Não temos nenhuma ingerência sobre a gestão terceirizada”, afirma Santos.
Os recursos deverão vir principalmente do fluxo líquido mensal da entidade, sem que seja necessário vender outros ativos. Por ser uma fundação jovem, a Funpresp-Exe recebe cerca de R$ 280 milhões líquidos por mês, o que amplia a capacidade de diversificar a carteira sem depender exclusivamente do desinvestimento de posições existentes.

Queda dos juros – A contratação dos fundos de renda variável integra a preparação da Funpresp-Exe para um eventual ciclo de queda da Selic. A redução dos juros é esperada há cerca de quatro anos, mas vem ocorrendo mais lentamente e em menor intensidade do que o mercado projetava. Nesse período, a atratividade dos títulos públicos manteve elevada a concentração da carteira em renda fixa.
Ao fim de agosto, a fundação tinha patrimônio de R$ 17,63 bilhões. Cerca de 83% dos recursos eram administrados internamente; os 17% restantes estavam sob gestão terceirizada, sempre por meio de fundos exclusivos. Essa parcela inclui atualmente veículos de crédito privado, investimentos no exterior e liquidez.
Na carteira total, 71,25% dos recursos estavam alocados em títulos públicos federais indexados ao IPCA; 14,81%, em títulos públicos ou operações compromissadas vinculados à Selic; e 1,44%, em papéis prefixados.
Apesar da concentração, a fundação vem estruturando alternativas para ampliar gradualmente a exposição a ativos de maior risco quando as taxas de juros recuarem. “Hoje, o título público é muito atraente e, como entidade de longo prazo, não temos como fugir disso. Mas, quando a taxa de juros começar a cair, os investidores vão ter que colocar mais risco na carteira”, afirma Santos.
Segundo o diretor, a diversificação precisa começar antes da queda dos juros, pois a contratação de gestores externos depende de licitações, que demandam tempo. “Como temos a rigidez da lei de criação da fundação, que só permite fazer contratações por licitação, precisamos sempre dar um passo à frente. Não dá para tentar resolver apenas na hora.”
Além dos três fundos de ações, a Funpresp-Exe prepara a carteira para ampliar, quando necessário, a exposição a outros ativos. Entre as alternativas estão os investimentos no exterior e os ETFs de renda variável, instrumentos que a entidade já conhece e mantém em carteira. “Estamos preparando as caixinhas dos outros ativos para quando precisarmos mudar o transatlântico um pouco para o lado”, diz Santos.

Crédito e multimercados – A Funpresp-Exe também está reformulando outras parcelas da carteira terceirizada. A entidade desinvestiu de cinco fundos multimercados e direcionou a maior parte dos recursos para títulos públicos, diante das taxas oferecidas atualmente. Uma parcela menor foi alocada em renda variável e investimentos no exterior. Ao fim de agosto, a renda variável local correspondia a 3,03% da carteira, e a renda variável no exterior, a 3,56%.
A fundação também prevê encerrar os mandatos atuais de crédito privado, que somam cerca de R$ 300 milhões, seguindo o movimento de outros mandatos da classe que venceram recentemente. O processo de desinvestimento reduziu a participação do crédito privado a 1,24% da carteira.
A entidade não pretende necessariamente substituir os multimercados por novos fundos da mesma classe. A estratégia em estudo prevê distribuir os recursos entre diferentes ativos, buscando ampliar a diversificação e elevar o risco da carteira de forma seletiva. “Provavelmente vamos substituí-los, não necessariamente por multimercados, mas por outros ativos. É diversificação da carteira”, afirma Santos.
Paralelamente, a Funpresp-Exe prepara o credenciamento de dois fundos abertos de crédito privado com características ESG. Os documentos estão em fase de aprovação pelo Conselho Deliberativo, e a expectativa é realizar os aportes em meados de 2027. Os valores ainda não foram definidos. Será o primeiro investimento da fundação formalmente identificado com essa abordagem, embora a entidade já seja signatária dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI).

Rentabilidade – A carteira consolidada da Funpresp-Exe rendeu 1,03% em agosto, 7,97% no acumulado do ano e 12,68% em 12 meses. No mesmo período, os índices de referência registraram 0,03%, 6,01% e 8,61%, respectivamente. Assim, o desempenho da carteira superou a referência em 1,96 ponto percentual no ano e em 4,07 pontos percentuais em 12 meses.