Diversificar é uma ordem | Tendência de queda da taxa de juros e ...

Edição 232

 

É incontável o número de vezes em que a diversificação dos investimentos dos fundos de pensão diante da tendência de queda dos juros foi tema de debates no sistema – e de matérias publicadas por Investidor Institucional ao longo desses 15 anos de história. O alerta foi repetido exaustivamente por consultores, órgãos de governo, gestores de recursos e até dirigentes de entidades fechadas de previdência complementar. Mesmo assim, não dá para dizer que o sistema mudou totalmente de cara nos últimos anos.
Dados da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp) mostram que, em março de 2011, quase 60% da carteira consolidada dos fundos de pensão brasileiros estava aplicada em renda fixa, contra aproximadamente 32% em renda variável, 3% em imóveis, 2,5% em operações com participantes, 2,5% em investimentos estruturados e apenas 0,1% em investimentos no exterior. Em dezembro de 2004, o quadro não era muito diferente: a renda fixa correspondia a 60,5% da carteira total das fundações, com a renda variável sendo responsável por 30,1%, imóveis por 4,5% e operações com participantes, por 3,1%.
Carlos Massaru Takahashi, presidente da BB DTVM, afirma que de 2001 a 2011 pouca coisa mudou na alocação dos ativos dos fundos de pensão. Ele informa que, se por um lado as aplicações das entidades em renda variável evoluíram 286% no período, as alocações em renda fixa registraram expansão de 283%, o que quer dizer que a relação entre os dois segmentos ficou praticamente na mesma. “Em 2001, dos R$ 154 bilhões da indústria de fundos de pensão como um todo, cerca de R$ 88 bilhões estavam em renda fixa e R$ 45 bilhões em renda variável. Hoje, R$ 327 bilhões estão na renda fixa e R$ 173 bilhões na variável. Podemos considerar que a proporção de alocação se manteve”, aponta o executivo.

Exterior – Para Takahashi, um passo importante para os fundos de pensão seria o desenvolvimento de um processo mais intenso de utilização dos limites estabelecidos na legislação e nas políticas de investimento das entidades para a aplicação em segmentos alternativos. “Não tenho um dado oficial sobre isso, mas estou certo de que os limites fixados nas políticas para outras classes de ativos que não as mais tradicionais estão subutilizados pelas entidades”, estima Takahashi.
Ele reforça que, com a queda da taxa de juros, a diversificação dos investimentos das fundações passa a ser cada vez mais importante. “O advento de mudanças tão solicitadas na legislação específica que trata dos investimentos ainda não foi aproveitado de fato pelas entidades”, opina o executivo. Ele ressalva que talvez a crise financeira internacional tenha colaborado para a ausência de um movimento mais concreto por parte das fundações em direção, por exemplo, aos investimentos no exterior. “A resolução 3.792 do Conselho Monetário Nacional [CMN] é de setembro de 2009. Talvez por isso, o período não tenha sido muito propício para uma adequação mais forte das entidades às novas regras de aplicação”, aponta Takahashi. Vale lembrar que a crise financeira internacional, apesar de ter passado por um momento mais brando principalmente na segunda metade de 2009, está durando até hoje, mesmo que com um foco diferente.
Takahashi aponta que o investimento no exterior é um ponto importante no processo de diversificação das aplicações da entidade. Ele alega que, por mais que o Brasil tenha um mercado acionário desenvolvido, há setores de atividade que não são muito representados na nossa bolsa. “O segmento de health care é um exemplo. Na Europa e nos Estados Unidos, há várias empresas do setor listadas em bolsa, mas aqui no Brasil não. O mesmo acontece com Tecnologia da Informação”, cita. Para ele, a aplicação lá fora se mostra interessante porque os investidores brasileiros passam a ter exposição a segmentos como esses.
Maurício da Rocha Wanderley, diretor de investimentos e finanças da Valia e membro da Comissão Técnica Nacional (CTN) de Investimentos da Abrapp, observa que a aplicação no exterior por parte de fundos de pensão ainda não decolou por conta de questões conjunturais e, também, devido às oportunidades de ganho no mercado doméstico.
“Dado que estamos vivendo um momento muito positivo da economia brasileira, boa parte dos fundos de pensão tem procurado focar toda a sua energia em aproveitar as oportunidades que estão no mercado doméstico. Mas as fundações estão, de certa forma, olhando para o investimento no exterior. Elas veem isso como algo positivo e necessário para o longo prazo – mas que, obviamente, demanda uma preparação, um entendimento mais aprofundado e uma definição daquilo que faz sentido para cada entidade”, pondera.
Ele conta que a Valia, por exemplo, já está na fase de estruturação das áreas para investir no exterior, com o estudo de diversos mercados. “Estamos fazendo o dever de casa primeiro, sabendo que nesse momento é importante ter o foco no mercado doméstico”, ressalva. Wanderley argumenta que o natural é um fundo de pensão começar a diversificação pelo mercado local para depois partir para o exterior. “Não consigo ver alguma fundação que, em um passo, saia de taxa de juros de curto prazo e vá para o mercado externo. Mas acredito que o processo rumo ao exterior vá acontecer”, afirma o diretor.

Diversificação – Wanderley concorda que “os títulos públicos ainda reinam nas carteiras das entidades”, mas considera que diversas fundações têm buscado diversificar suas carteiras, aplicando por exemplo em crédito privado. Ele lembra que também há entidades ampliando seus investimentos em fundos de private equity e venture capital.
Para o diretor, na medida em que se tornar mais difícil bater a meta com a renda fixa, as carteiras dos fundos de pensão vão partir realmente para uma diversificação maior, começando pelo aumento da exposição a crédito privado com perfil mais longo. “A exposição a renda variável também deve acabar se ampliando, já que na média do sistema a alocação ainda é baixa. O private equity e o venture capital devem ter cada vez mais destaque nas carteiras, além dos imóveis”, enumera Wanderley, completando que a escassez por imóveis principalmente em grandes centros e o ciclo de investimentos no Brasil que gera uma demanda das empresas por mais espaço fazem com que a renda concedida pelos imóveis seja uma alternativa interessante à renda fixa. O diretor lembra ainda que os investimentos em imóveis são feitos não só diretamente, mas também via fundos imobiliários ou títulos securitizados com lastro imobiliário.
Takahashi, da BB DTVM, também acredita que os ativos imobiliários desempenharão um papel importante na nova configuração das carteiras das entidades fechadas de previdência complementar. Ele lembra que hoje as operações imobiliárias ainda são muito concentradas nos financiamentos simples e que existe um potencial a ser explorado no campo da securitização. “À medida que o mercado passa a utilizar mais as ferramentas de securitização, surgem oportunidades interessantes de investimento para os institucionais”, aponta.
Como oportunidade para diversificação daqui em diante, Wanderley, da Valia, cita ainda os investimentos em infraestrutura, não só por meio de Fundos de Investimento em Participações (FIPs), mas também via crédito ou participação direta em empresas. “Temos uma perspectiva fantástica para a necessidade de investimento na economia brasileira nos próximos anos. Nesse cenário de queda de juros, o investimento nessa classe de ativos é uma forma de garantir um retorno mais alto para o longo prazo. Toda essa agenda de pré-sal, Copa do Mundo e Olimpíadas gera uma série de oportunidades interessantes para os fundos de pensão”, aponta Wanderley.
Takahashi, da BB DTVM, acrescenta que as oportunidades estão ligadas não só aos tão falados eventos esportivos que o Brasil vai sediar nos anos de 2014 e 2016, mas também aos gargalos que precisam ser sanados diante do próprio desenvolvimento econômico do País. “Tudo isso vai gerar alternativas interessantes de investimento em dívida e equity”, concorda.
Por fim, o executivo observa que a redução da taxa de juros e a necessidade de diversificação dos portfólios por parte dos fundos de pensão devem “transformar o círculo vicioso em círculo virtuoso” na indústria de investimentos. “Se de um lado os investidores terão de procurar alternativas, por outro o mercado terá de oferecer cada vez mais opções aos institucionais. O mercado de capitais terá de gerar ativos para apoiar essa nova dinâmica e, ao mesmo tempo, fomentar o desenvolvimento da economia real”, estima Takahashi.
Wanderley, da Valia, reforça que é fundamental que, na medida em que os fundos de pensão passem a incorporar classes de ativos de maior risco, é necessário que eles também tenham maior capacidade de análise. “Essa análise pode ser feita por uma estrutura interna da fundação ou com a ajuda de uma consultoria. O importante é que se estabeleça uma maneira de capacitar uma tomada de decisão mais robusta. Obviamente, se em novas classes de ativos a expectativa de retorno é mais alta, o risco também é mais alto. Por isso é fundamental que nesse processo de tomada de decisão de investimento em ativos de maior risco a entidade esteja bem fundamentada. Esse é um dever de casa que muitos estão fazendo nesse momento”, garante o diretor.