Criatura supera o criador | Os ativos de alguns grandes fundos de...

Edição 127

Quando um fundo de pensão de uma empresa ‘blue-chip’ americana espirra, dezenas dessas corporações pegam um resfriado ou até mesmo uma pneumonia. Entre as mais influentes empresas atingidas, figuram a Lucent Technologies Inc., U.S. Steel Corp., GenCorp. Inc., Federal-Mogul Corp. e Avaya Inc, cujos ativos dos fundos de pensão chegam a superar o valor de mercado da própria patrocinadora – em alguns casos chegam a ser de 20 a 50 vezes maior.
Como se isso não fosse suficiente, muitas dessas empresas negociadas na bolsa como ‘blue-chips’, que no ano passado contavam com fundos de pensão bem sucedidos para assegurar a não desvalorização de suas ações, estão sendo derrubadas agora por seus altos passivos previdenciários. Como resultado, as classificações de crédito de muitas dessas corporações foram cortadas, aumentando com isso os custos de financiamento.
Em alguns casos, os passivos estão se aproximando de 25% do valor da empresa no mercado. Quanto maiores os ativos de um fundo de pensão em relação ao valor de mercado da empresa patrocinadora, mais vulneráveis são suas demonstrações financeiras, diz Michael Granito, diretor administrativo do grupo de consultoria de investimentos estratégicos da J.P. Morgan Fleming Asset Management.
Não somente as empresas precisam colocar recursos excessivos em planos de previdência deficitários, como as complicadas regras de contabilização que regulam os fundos de pensão pioram ainda mais a percepção que os acionistas e investidores em geral têm da corporação. Isto poderia forçá-las a abrir uma brecha nos termos de seu acordo de dívida e procurar renegociar um financiamento.
Essa probabilidade levou as agências de classificação de crédito a rebaixar a avaliação de dívida de algumas empresas, deixando-a abaixo da nota de investimentos, tornando mais caro obter financiamento.
Como as taxas de juros caíram ao mesmo tempo que o mercado de ações, os fundos de pensão foram forçados a reduzir sua exposição em ações e a aumentar seus ativos de renda fixa, para assim melhor casá-los com seus passivos previdenciários. Para Granito, uma alocação mais conservadora nessas horas é o melhor negócio.
A Standard&Poors’ reduziu a classificação de crédito de longo prazo da General Motors Corp., de Detroit, e da General Motors Acceptance Corp., ambas de BBB+ para BBB, depois que a montadora de automóveis anunciou que seu fundo de pensão poderia sentir uma queda de mais de US$ 23 bilhões, no final de 2002. A S&P estima que o déficit do plano poderia alcançar US$ 28 bi.
A agência de classificação também colocou a Ford Motor em observação, por uma queda similar.

Crédito mais fraco? – “A implicação maior é que as empresas terão de usar muito de seu fluxo de caixa excedente para cobrir os passivos e com isso elas serão pior avaliadas em seu risco de crédito”, disse Scott Sprinzen, analista de dívidas automotivas da Standard & Poors’.
Já a Boing Co. anunciou recentemente que, no final do quarto trimestre, poderia perder US$ 4 bilhões do valor das ações de US$ 10,9 bilhões em poder dos acionistas, ou aproximadamente 37%, por conta da deterioração dos níveis de obtenção de recursos de seus planos previdenciários. Entretanto, sua renda previdenciária de aproximadamente US$ 1 bilhão é esperada para cair a metade, e desaparecer por toda no próximo ano, comentou o diretor financeiro Mike Spears a investidores.
A Pensions&Investments analisou os ativos dos fundos em relação à capitalização do mercado e, no final de setembro, descobriu que:
– Os ativos do fundo de pensão da Lucent subiram rapidamente, para 1.109,24% de seu valor de mercado, até 30 de setembro último. O último número era de 165,23% ao final de 2001.
– Os assets da Armstrong Holdings subiram para 2.787,47% da capitalização do mercado durante o mesmo período, vindo de 1.363,67% de 2001.
– Os ativos da GenCorp’s alcançaram 351,16% da capitalização no final do mês passado, vindo de 309,77% em 2001.
– O fundo de pensão da Federal-Mogul atingiu 4.218,09% da capitalização do mercado, bem acima do 3.573,87% de 2001.

Companhias Aéreas com problemas – As companhias aéreas estiveram entre as mais atingidas – em grande parte por conta da queda do preço das ações causada pela diminuição drástica de viagens de avião durante o último ano, reduzindo em bilhões de dólares o seu valor de mercado. Os ativos previdenciários da Delta Air Lines’ chegaram a 568,09% do valor da empresa no mercado, notadamente superior aos 230,27% do ano passado.
Granito também analisou que, na média, os maiores fundos de pensão despencaram de 26% para 2% da valorização de mercado no período do início de 2001 a junho passado.
O preço de uma ação representa o valor presente descontados os fluxos de caixa futuros. Então, é uma má idéia um investidor comprar papéis de uma companhia cujo fundo de pensão está mais deficitário que o próprio valor de mercado da companhia.
Deve-se aceitar que os ativos de um fundo se refletem em um valor de mercado, “qualquer queda dos ativos do plano em relação aos passivos deve ser consertada com novas contribuições. Em outras palavras, o preço das ações de uma empresa pode ser fortemente influenciada por uma extensão do excedente ou déficit do fundo de pensão.

Previdência do Mississippi abre carteira imobiliária
O fundo de pensão dos funcionários públicos do Estado americano do Mississippi, o Mississippi Public Employees’ Retirement System, irá investir 5% do total de ativos em uma primeira alocação em investimentos imobiliários, disse o diretor executivo do fundo, Frank Ready, à publicação Pensions&Investments. Para possibilitar a alteração, a entidade de US$ 14,5 bilhões de ativos irá reduzir a alocação em ações internacionais de 20% para 15% – o restante está dividido em 50% para ações domésticas e 30% em renda fixa. Ready disse também ser muito cedo para saber se o sistema irá contratar uma consultoria especializada em investimentos imobiliários. A mudança resulta de uma nova política de alocação de ativos, completou o diretor.

Fundo municipal inglês revisa percentuais de carteira
O Lincolnshire County Council Pension Scheme, fundo de pensão do município de Lincolnshire, na Inglaterra, está aumentando sua alocação em renda fixa de 9,5% para 18% do total de ativos, com a maior parte indo para títulos corporativos, segundo o tesoureiro municipal, Ralph Gould. O plano, com US$ 1,15 bilhão de ativos, optou pela mudança após a divulgação de um estudo de asset-liability feito por consultores. O fundo ainda procura por um gestor global de renda fixa, que administraria US$ 186 milhões, disse Gould. A Morley Fund Management, que já é responsável pela gestão de US$ 93 milhões milhões de uma carteira de renda fixa para o fundo, deve fazer uma proposta para ganhar o restante da bolada. A expectativa é que os dirigentes do plano escolham o gestor em abril próximo. A entidade também vai revisar seu portfólio de renda variável, que passará a incluir um especialista em ações globais.