Com o pé no freio | Fundações conseguiram bons resultados no 1º s...

Edição 294

 

Rentabilidade acumulada dos fundos de pensão (em pdf)

Os resultados dos investimentos de fundos de pensão nos quatro primeiros meses do ano apontavam para uma recuperação da rentabilidade das carteiras. O consolidado das entidades teve rentabilidade de 3,98% de janeiro a abril, superando a meta atuarial do setor, que na média ficou em 3,26%. Além disso, até início de maio o Ibovespa vinha apresentando um movimento de alta, batendo 68,7 mil pontos no dia 16 deste mês, tendência que combinada com uma certa estabilidade da política econômica e com a expectativa de que a taxa de juros continuaria a cair estava impulsionando algumas fundações a planejar movimentos de maior risco em suas carteiras. Contudo, a partir do dia 18 de maio, com as denúncias do sócio da JBS, Joesley Batista, contra o presidente Michel Temer, os investidores resolveram colocar o pé no freio e esperar antes de tomar decisões de risco.
No dia das delações, a acentuada queda do mercado de ações levou a bolsa a disparar o ‘circuit-break’, o que ocorre quando a queda atinge 10%, encerrando o dia com 61,6 mil pontos. Ao mesmo tempo, o subíndice IMA-B, que reflete os preços das NTN-Bs do mercado, registrou a maior desvalorização diária da série histórica que começou em 2003, com variação negativa de 6,58%. Nos dias seguintes o mercado foi aos poucos voltando ao normal, mas as expectativas de aprovação das reformas e de manutenção do atual Governo caíram significativamente desde então.
A partir desse novo cenário de incertezas as fundações optaram por mais cautela para garantir a meta atuarial. De acordo com o consultor da Aditus, Guilherme Benites, apesar do mês de maio ter sido negativo em termos de resultado dos investimentos, a inflação baixa, que deve seguir no segundo semestre, garante às fundações um bom resultado frente às metas atuariais. Porém, a convicção de que as entidades iriam buscar mais risco ainda neste ano já não é realista. “Estamos em um momento de indecisão e os investimentos em classes de mais risco foram adiados. Está todo mundo esperando uma situação mais clara. Bem ou mal, não fazer nada pode ser a melhor opção. Com CDI alto e inflação baixa, ficar parado pode ser legítimo”, opina Benites.
Aguardar os acontecimentos é postura da maioria dos fundos de pensão. A Previsc, por exemplo, iniciou o ano otimista e já estava pensando em um retorno à bolsa, mas congelou a estratégia e agora espera os desdobramentos políticos para saber como o mercado vai se comportar até o final do ano. “Nossa intenção de migrar da renda fixa para renda variável e um pouco de estruturados foi paralisada após a crise de maio”, diz o diretor de investimentos da fundação, Ricardo Esch. “No momento, estamos bem estruturados, temos um nível de risco adequado e vamos esperar a evolução do mercado para se posicionar”, destaca. A Previsc encerrou o primeiro semestre com sua carteira consolidada, formada por 19 planos, acima da meta atuarial, de INPC + 5,5%.
A Funcesp também adotou uma estratégia de observar o movimento do mercado e apenas fazer alguns ajustes pontuais em sua carteira, que encerrou o semestre com quase 2,5 pontos percentuais acima da meta atuarial. “Nós fizemos uma movimentação forte no fim do ano passado, compramos NTN-Bs, investimos em bolsa e ampliamos nossa carteira de multimercados. Daqui para frente estamos observando e fazendo ajustes pontuais, observando se há alguma variável que apresenta deterioração e leve a rever de forma enfática a estratégia adotada no final do ano passado”, diz o diretor de investimentos da Funcesp, Jorge Simino.
Segundo ele, os resultados sofreram o impacto da crise de maio, principalmente porque a renda fixa é marcada a mercado. “Em maio, especificamente, tivemos uma perda de 1% no retorno dos investimentos. Mas se compararmos com tamanho das oscilações do mercado, o resultado foi até satisfatório”.

Perspectivas – O consultor da Lockton, Lauro Araújo, destaca que a consultoria está mais pessimista que a média do mercado em relação aos acontecimentos recentes, aconselhando inclusive vários de seus clientes a reduzirem a alocação em bolsa já no início do ano, apesar da expectativa geral de retorno ao risco. “Desde o começo de 2015 não vimos possibilidade de um Produto Interno Bruto (PIB) mais forte e achamos que o mercado estava pagando um prêmio indevido pelas ações. Inclusive, depois do evento da JBS, esperávamos que o mercado fosse cair mais”, destaca Araújo. “O mercado está permissivo, dando um voto de confiança de que o Governo vai caminhar com as reformas, mas nós não estamos tão seguros. Achamos que vai piorar antes de melhorar”, salienta.
A opinião dos consultores é que o mercado demonstra um otimismo moderado em relação aos eventos domésticos e mesmo em relação aos eventos externos. Segundo Benites, o mercado está precificando que nem tudo está perdido e que ainda existe uma chance de acomodação. “Isso gera dúvidas sobre que decisão tomar. Mas o mercado piorou bem, a precificação dos papéis longos sofreu muito. Ainda temos muita incerteza pela frente”, diz ainda o consultor da Aditus.
Para as fundações, reduziram-se bastante as expectativas em relação a aprovação da reforma da previdência e ao ritmo da queda do juros, que sustentavam as tomadas de decisão dos investimentos. “Até então, havia uma certeza em relação à reforma da previdência e à estabilidade do Governo na condução da política econômica. Tínhamos uma estratégia em cima disso. Agora, nessa situação toda, não temos a certeza do que vai acontecer com”, diz Ricardo Esch, da Previsc.

Próximos passos – Jorge Simino acredita que o segundo semestre não deve ser muito diferente do primeiro em termos de desempenho do mercado, e por isso não pretende modificar muito sua carteira de investimentos. “Vamos ter essa continuidade das incertezas e acho que está claro que não há nenhuma solução perfeita no horizonte. Não sabemos se a reforma da previdência será aprovada. Além disso, a partir de outubro entramos no calendário eleitoral, e só se falará em candidatos”, diz Simino. “Ou seja, o mercado ficará sujeito a esses ruídos”.
Guilherme Benites pontua ainda que se não ocorrer a aprovação da reforma da previdência até o final deste ano, o mercado vai contabilizá-la para o próximo Governo. “A discussão vai passar a ser quem entrará na corrida presidencial”, salienta o consultor da Aditus.
Diante disso, para os próximos seis meses do ano, Lauro Araújo acredita que o movimento mais seguro é aplicar em títulos pré-fixados, aproveitando a queda da taxa de juros, pois a relação risco e retorno é melhor atualmente do que das NTN-Bs. “Se o País não crescer, a inflação vai continuar baixa, o que penaliza as rentabilidades. Estamos preocupados com as NTN-Bs, que não renderam o esperado no início do ano. Contudo, não acho que está na hora de sair dessas aplicações. Então, caso entre dinheiro novo em caixa, recomendamos o pré-fixado, pois diante dessas incertezas, independente do que aconteça no Governo, uma certeza é que a taxa de juros tem que cair ”, salienta Araujo.