Ceres inicia carteira global

Fundação destina R$ 300 milhões à sua primeira estratégia estruturada de investimentos no exterior e divide os recursos entre fundos administrados pela Azimut e pela Franklin Templeton

Edição 389

“Não tínhamos na equipe o conhecimento necessário para entregar uma gestão internacional”, afirma o diretor de investimentos da Ceres, Jobson de Barros

A Ceres vai estrear uma estratégia estruturada de investimentos no exterior com um aporte inicial de R$ 300 milhões, dividido igualmente entre dois fundos exclusivos e restritos de R$ 150 milhões cada, com gestão da Azimut e da Franklin Templeton. A escolha de duas casas com origens e culturas distintas busca incorporar diferentes leituras do cenário internacional e das oportunidades disponíveis, sem estabelecer divisões geográficas entre os mandatos.
Com uma carteira de investimentos de R$ 13,2 bilhões, o mandato de exterior vai representar aproximadamente 2,3% dos recursos administrados pela fundação. Atualmente a Cares mantém 86% em renda fixa, 7,3% em renda variável, 2,5% em investimentos estruturados, 2,3% no segmento imobiliário e 1,54% em operações com participantes.
Os dois fundos de exterior partirão da mesma alocação estratégica, com 40% em renda fixa global, 30% em ações globais e 30% em alternativos líquidos, como os multimercados por exemplo. Cada uma das gestoras, porém, terá liberdade para ajustar exposições a regiões, mercados, estilos e estratégias conforme suas convicções. Também poderão utilizar veículos e instrumentos diferentes para executar os mandatos.
A Azimut e a Franklin Templeton foram selecionadas por meio de um processo seletivo conduzido pela Ceres, que durou cerca de quatro meses. A carteira da Azimut está em estágio mais avançado e deve começar a receber os recursos primeiro, já a partir deste mês de agosto. A Franklin ainda realiza ajustes no regulamento de seu fundo e prevê o lançamento em setembro. Os dois fundos terão o BTG como administrador e custodiante.

Diagnóstico – A criação da carteira de exterior começou a ser discutida em 2022, depois de um amplo diagnóstico dos investimentos da Ceres. A fundação identificou que a exposição global era uma das peças que faltavam para ampliar a diversificação dos portfólios, explica o diretor de investimentos, Jobson de Barros.
A Ceres já havia mantido uma exposição ao S&P 500 por meio de ETFs há quatro anos, mas zerou a posição por considerar que ela não apresentava sustentabilidade. Em vez de voltar ao exterior por meio de uma aplicação isolada, a fundação decidiu preparar uma estrutura mais diversificada.
A implantação não foi imediata. A equipe de investimentos e as áreas de risco, controles e jurídica ainda não conheciam em profundidade as particularidades dessa classe. Entre 2022 e 2025, a fundação conversou com gestores brasileiros e internacionais e enviou profissionais aos Estados Unidos e à Europa para conhecer os processos de investimento, gestão e governança.
“Fizemos um trabalho de aprofundamento das nossas áreas e do nosso corpo técnico. Parte da equipe foi aos Estados Unidos e à Europa para conhecer de perto como eram feitas as gestões, os investimentos e todo o processo de governança. Nós nos preparamos, qualificando a equipe e gerando segurança institucional, inclusive para os conselhos e a diretoria executiva”, afirma Barros.
Durante esse processo, a Ceres também avaliou se deveria administrar diretamente a carteira ou contratar gestores externos. A opção foi pela terceirização integral. Apesar do porte da fundação, sua equipe é enxuta. “Precisamos utilizar nossa alocação de capital humano nas classes em que temos, de fato, vocação. Não tínhamos na equipe o conhecimento necessário para entregar uma gestão internacional”, diz o diretor.
A decisão segue o modelo adotado pela Ceres em 2023 para montar sua carteira de fundos multimercados, cuja administração também foi terceirizada. No exterior, a gestão será realizada por meio de dois fundos de fundos (FoF) constituídos no Brasil, que aplicarão em veículos e estratégias internacionais.
A expectativa da Ceres é obter retorno equivalente à variação do dólar acrescida de 6% ao ano. O objetivo de rentabilidade não se confunde com o benchmark das carteiras, formado por indicadores correspondentes às três classes de ativos.

Leituras complementares – A contratação de duas casas pretende ampliar a diversidade de visões sobre o mercado global. A origem europeia da Azimut e norte-americana da Franklin Templeton deverão influenciar as leituras de cada uma sobre os mercados globais, mas não limitarão suas atuações.
Tanto a Azimut quanto a Franklin poderão aplicar nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia, nos mercados emergentes ou em outras regiões. A diversificação deverá surgir das diferentes convicções das equipes, da seleção dos gestores e dos instrumentos empregados, e não de uma separação prévia do mundo entre as duas casas.
Anualmente, a fundação fará uma análise estrutural de cada mandato, considerando desempenho, cumprimento das regras e qualidade da gestão. Essa avaliação poderá embasar ajustes, penalizações ou, em último caso, a troca da gestora. “Somos investidores de longo prazo. O ciclo de um ano não determina uma mudança, mas é a partir dele que faremos uma avaliação ampla da performance”, explica Barros.

Mercados fragmentados – A Azimut utilizará sua estrutura internacional para montar uma carteira global, sem concentração geográfica predeterminada. Entretanto, a origem europeia e a presença física em países da Europa e da Ásia, incluindo a China, deverão influenciar sua leitura das oportunidades nesses mercados.
“Na Europa, você tem uma representatividade no PIB global semelhante à dos Estados Unidos, mas é uma região totalmente fragmentada, em termos de países, bancos centrais e empresas. Na Ásia, há menos participantes explorando a região. São mercados que muitas vezes oferecem uma relação de risco e retorno melhor por causa dessa fragmentação”, explica o CEO da Azimut Brasil, Wilson Barcellos. “Mas depende de você compreender a dinâmica dessa fragmentação”.
A renda fixa europeia é uma das oportunidades identificadas atualmente pela gestora. Segundo o executivo, títulos de empresas da região oferecem prêmios superiores aos de companhias comparáveis em outros mercados. Mas a presença elevada de ativos norte-americanos nos índices globais também torna natural alguma exposição aos Estados Unidos, explica.
“Nosso mandato é global. Temos um diferencial por sermos uma empresa europeia, conhecermos profundamente aquele mercado e estarmos fisicamente em outras regiões, como a China. Isso nos dá uma vantagem para identificar oportunidades, mas podemos investir em qualquer mercado se entendermos que há valor agregado”, diz Barcellos.
O ritmo de entrada dos R$ 150 milhões na casa será definido em conjunto com a Ceres, levando em consideração as condições do mercado na data do aporte. A intenção é realizar uma alocação gradual, especialmente por se tratar da estreia da fundação nessa estratégia.
A proteção cambial será dinâmica. A equipe da Azimut no Brasil poderá aumentar, reduzir ou retirar o hedge de acordo com o ciclo econômico, o comportamento do real e as condições dos mercados globais. A decisão será acompanhada pela Ceres nas reuniões periódicas sobre o mandato.
O benchmark será composto pelo Bloomberg Multiverse para os 40% da renda fixa global; o MSCI ACWI para os 30% de ações globais; e o HFRI-I Liquid Alternative UCITS para os 30% de alternativos líquidos. A gestora e a fundação deverão realizar reuniões mensais no início da operação e encontros extraordinários quando necessário.

Arquitetura aberta – A Franklin Templeton também terá autonomia para movimentar a carteira entre países, regiões e estilos. Embora seja uma casa de origem norte-americana, sua equipe global poderá ampliar posições na Europa, na Ásia ou nos mercados emergentes sempre que enxergar melhores oportunidades.
“Temos operações em todos os grandes mercados do mundo e informação para decidir se queremos estar mais alocados na Coreia do Sul, em Taiwan, na Europa ou em qualquer outra região”, afirma o diretor comercial da Franklin Templeton Brasil, Luiz Assadurian.
A gestora empregará uma arquitetura aberta, combinando fundos próprios, fundos de outras casas e ETFs. Não haverá obrigação de direcionar uma parcela específica do patrimônio para produtos da Franklin. A escolha dependerá da estratégia considerada mais adequada para cada classe. “Não temos obrigatoriedade de manter um percentual específico em nenhuma gestora. Escolhemos a melhor alternativa para a classe de ativo que estamos selecionando”, diz Assadurian.
Na renda fixa, por exemplo, o fundo da Ceres não deverá comprar os títulos diretamente. A Franklin fará a seleção de fundos administrados por diferentes gestores, que serão responsáveis pela escolha dos papéis. A gestora cuidará principalmente da macroalocação, definindo exposições geográficas, mercados e estilos.
Na renda variável, essas decisões poderão envolver a distribuição entre mercados desenvolvidos e emergentes, além da escolha entre ações de crescimento e de valor. A implementação poderá ocorrer por fundos ativos ou ETFs, dependendo da eficiência e do potencial de retorno de cada alternativa.
Segundo Assadurian, a carteira começará com exposição cambial, sem hedge. A estratégia pretende usar a valorização do dólar como proteção parcial contra períodos de estresse nos ativos brasileiros e de desvalorização do real. A Franklin poderá adotar proteção parcial posteriormente, após discutir com a Ceres o percentual mais adequado.
“A ideia inicial é manter a exposição cambial para fazer o contraponto aos ativos brasileiros. Em cenários de estresse local, nos quais o real se desvaloriza, o dólar tende a se valorizar e pode absorver parte do efeito negativo. Mas temos a possibilidade de fazer hedge de uma parcela da carteira se isso atender aos objetivos do cliente”, explica o executivo.
O benchmark terá a mesma estrutura usada pela Azimuth, com o Bloomberg Multiverse para os 40% de renda fixa global, o MSCI ACWI para os 30% de ações globais e o HFRI-I Liquid Alternative UCITS para os 30% de alternativos líquidas. A Franklin fará reuniões mensais com a Ceres durante a fase inicial, passando a trimestral posteriormente, com encontros extraordinários em momentos de necessidade de ajustar a carteira.
Embora partam de uma alocação macro semelhante, os dois fundos não deverão apresentar carteiras idênticas. As diferenças estarão na interpretação das oportunidades, na seleção dos gestores, nos instrumentos e na execução das decisões.